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Reino Unido pode barrar compra da Warner pela Paramount

Secretária de Cultura do Reino Unido diz que pode intervir na compra da Warner, com base no interesse público e defesa do jornalismo

01/07/2026 às 15:50

A compra da Warner Bros. pela Paramount/Skydance Media, que deve gastar US$ 111 bilhões (~R$ 578,5 bilhões, cotação de 01/07/2026) para absorver um dos maiores estúdios do planeta, vem encontrando resistência no Velho Mundo: além da União Europeia previsivelmente exigir concessões, o Reino Unido pode muito bem melar todo o processo.

Segundo a secretária de Cultura Lisa Nandy, o governo britânico pode agir para bloquear a aquisição em nome do interesse público, citando desde livre concorrência à defesa de visões jornalísticas divergentes, algo que não agrada o presidente dos EUA Donald Trump, um dos principais apoiadores da negociação.

Logos da Warner Bros. e Paramount (Crédito: Reprodução/acervo internet)

Logos da Warner Bros. e Paramount (Crédito: Reprodução/acervo internet)

Warner + Paramount: reguladores de olho

A venda da Warner Bros. Discovery foi uma ópera bufa com diversos capítulos desconcertantes. A fusão original das então duas empresas separadas, sob a gestão de David Zaslav, resultou em um débito pantagruélico que hoje soma aproximadamente US$ 32,46 bilhões (~R$ 170 bilhões). Como resultado a companhia cortou tudo o que podia e não podia, inclusive levando à remoção de conteúdos para não pagar residuais a ninguém.

Como a conta não fechava, Zaslav decidiu reverter a fusão e, inicialmente, vender os estúdios de cinema, TV e games da Warner e o HBO Max para a Netflix, que aceitou pagar US$ 82,7 bilhões; no entanto, a Paramount/Skydance, comandada por David Ellison e bancada por seu pai Larry, co-fundador e CEO da Oracle, queria levar toda a companhia e ofereceu pagar mais.

De início, a WBD recusou as várias ofertas da Paramount e seguiu com a ideia de fechar com a Netflix, mas não só os acionistas puxaram o tapete de Zaslav e decidiram aceitar a proposta da concorrente, como Donald Trump (de quem Larry Ellison é aliado) fez pressão para que a negociação fosse favorável àqueles que jogam do seu lado, e assim se fez.

Com a Netflix fora do páreo por não querer (ou não poder) cobrir a oferta, a Paramount irá somar às suas propriedades, que incluem franquias como Star TrekO Exterminador do FuturoTransformersSouth ParkO Poderoso ChefãoAs Tartarugas NinjaBob EsponjaCSINCISAvatar/A Lenda de KorraSexta-feira 13Missão: ImpossívelTop GunDexterPânicoYellowstone e derivados, todo o imenso portfólio da Warner Bros., dos Looney Tunes a filmes clássicos como Casablanca, propriedades como Harry PotterMatrixWatchmenGame of ThronesItThe Big Bang Theory e Westworld, e os desenhos da Hanna-Barbera, Cartoon Network e Adult Swim.

A negociação inclui também o portfólio da DC Comics (Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Watchmen, SandmanHellblazerTransmetropolitan) de quadrinhos e derivados, e estúdios da divisão Warner Bros. Games como NetherRealm Games (Mortal KombatInjustice), Rocksteady (série Arkham), TT Games (série LEGO), Avalanche Games (Hogwarts Legacy), e outras marcas como F.E.A.R.MultiversusScribblenautsBack 4 Blood, e Middle-earth.

Paralelo a isso, a Paramount também irá colocar as mãos naquilo em que a Netflix não tinha o menor interesse, mas que Trump preferia ver um aliado (no caso, Larry Ellison) assumindo o comando, a rede de notícias CNN. E é aqui que o caldo começa a entornar.

A Warner Bros. é uma das duas companhias de mídia (a outra é Disney, óbvio) com um invejável portfólio de IPs que todo mundo conhece (Crédito: The Direct)

A Warner Bros. é uma das duas companhias de mídia (a outra é Disney, óbvio) com um invejável portfólio de IPs que todo mundo conhece (Crédito: The Direct)

Fato: o atual governo dos EUA abomina a ideia de independência jornalística, ou mesmo de conteúdo não tão relacionado. A Casa Branca está usando a FCC (Comissão Federal de Comunicações, órgão local equivalente à Anatel no Brasil) para, por exemplo, ameaçar a Disney com revisões não planejadas das licenças de suas filiais, após todo o rolo envolvendo Jimmy Kimmel, e por "não respeitar tempo igual de tela" com o talk show The View que, via de regra, não é obrigado a seguir tal determinação por não ser um noticiário.

Se por um lado a Disney vem resistindo e peitando as determinações da Casa Branca e da FCC, a Paramount decidiu dançar conforme a música ao ajustar a narrativa da rede CBS, que culminou com a demissão de Stephen Colbert e o fim do programa Late Show, após críticas direcionadas ao governo.

Não é segredo para ninguém que o viés da CNN é estritamente anti-liberal e anti-Trump, inclusos aí eventos indesculpáveis, mas reguladores em geral não curtem a ideia de canais jornalísticos sendo alinhados sob uma única visão (principalmente se ela for contra a deles próprios, claro); a última coisa que querem é que aconteça o mesmo que com o Washington Post, um jornal com trocentos Pulitzers e a cabeça de um presidente na parede que, sob a gestão de Jeff Bezos, seus colunistas de opinião foram proibidos de ter opinião.

Nesta terça-feira (30), a secretária de Cultura do Reino Unido Lisa Nandy disse diante do Parlamento britânico que ela "está propensa a intervir" no processo de aquisição da Warner Bros., como forma de "garantir suficiente pluralidade na propriedade de companhias de mídia", basicamente uma defesa do livre mercado e concorrência, mas citou também "a necessidade da manutenção de pluralidade em visões jornalísticas" no país.

No caso, a Paramount já é dona do Channel 5 e a Warner Bros. controla o pequeno TLC, ambas emissoras de rede aberta; há também a versão internacional da CNN e outros canais de conteúdo também exibidos na TV da Terra do Rei, além do HBO Max e do Paramount+.

Caixas d'água dos estúdios da Warner Bros. e Paramount (Crédito: AaronP/Bauer-Griffin/GC Images/Michael Buckner/Variety)

Ainda vai levar um tempo antes que Warner Bros. e Paramount possam juntar seus trapos e caixas d'água (Crédito: AaronP/Bauer-Griffin/GC Images/Michael Buckner/Variety)

A expressão usada pela ministra, o original em inglês "minded to", é um termo geralmente atribuído a uma primeira ação antes do processo legal de investigações serem comissionados, que podem ficar a cargo do OFCOM, o órgão regulador de mídia, e da CMA, a autoridade local de competitividade, que iniciou um processo por conta própria em abril de 2026.

A situação no continente não é lá muito diferente: a Comissão Europeia vem cobrando uma série de compromissos por parte da Paramount para assegurar a manutenção da competitividade entre empresas de mídia no bloco, que o estúdio recentemente concordou em acatar sem que fossem dados detalhes do que seriam esses "remédios amargos"; o envolvimento de fundos estrangeiros na compra, especialmente o Fundo Público de Investimentos (PIF) do príncipe herdeiro da Arábia Saudita Mohammed bin Salman, também está sendo investigado.

Há a possibilidade de que certas propriedades ou canais sob controle do conglomerado tenham que ser postos à venda, de modo que a aquisição, já aprovada nos EUA, receba o selo também na UE; enquanto a situação se desenrola no Velho Mundo, por aqui a Paramount solicitou ao CADE que aprove a compra sem restrições, ao não ter a intenção de vender conteúdos esportivos como os canais lineares da Warner Bros. em TVs por assinatura, ou a TNT Sports.

Fonte: Ars Technica

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