Meio Bit » Engenharia » Rússia quer reutilizar módulo da ISS em estação própria

Rússia quer reutilizar módulo da ISS em estação própria

Rússia volta a dizer que vai desacoplar o módulo orbital da ISS, desta vez, a fim de "reciclá-lo" em sua futura estação própria

25 semanas atrás

A Rússia vem a alguns anos ameaçando sair do consórcio de administração da Estação Espacial Internacional (ISS), desde antes de invadirem a Ucrânia. A Roscosmos, a agência espacial russa, e o governo de Moscou nunca gostaram dos termos do Programa Artemis, considerado "americano demais", e depois da guerra, o climão geral entre o Kremlin e a Casa Branca vazou inevitavelmente para a NASA.

De fato, tanto a Rússia quanto a China se recusaram a participar dos planos da estação lunar Gateway (que pode nem vir a se tornar realidade, no fim das contas), e decidiram lançar suas próprias estações espaciais: a Estação Espacial Tiangong (TSS) já está operacional com três módulos, enquanto a Estação Orbital de Serviço Russa (ROS, ou POC em cirílico), planejada como a sucessora autêntica da Mir, e prometida para 2025, ainda não deu as caras.

Visão dorsal do Segmento Orbital Russo (ROS) da ISS, em foto tirada da cápsula Crew Dragon Endeavour após desacoplar da estação, em 8 de novembro de 2021 (Crédito: NASA) / rússia

Visão dorsal do Segmento Orbital Russo (ROS) da ISS, em foto tirada da cápsula Crew Dragon Endeavour após desacoplar da estação, em 8 de novembro de 2021 (Crédito: NASA)

Originalmente, a POC deveria ser um projeto "novo", composta por módulos recentes compatíveis com sistemas legados (cápsulas Soyuz), mas recentemente, oficiais russos oficializaram um plano improvável e a cara dos camaradas: desacoplar o Segmento Orbital Russo (ROS) da ISS para reutilizá-lo como "espinha dorsal" da nova velha estação.

E sim, você já ouviu essa história anos atrás.

Rússia quer usar o ROS na POC

O ROS é composto por seis módulos russos, o mais antigo o Zarya, o primeiro at all da ISS, e o mais recente o Prichal, acoplado em 2021. A configuração do segmento russo é o que a Mir-2, a cancelada segunda estação espacial soviética, deveria ter sido; quando os tovarischs desistiram de tocar o barco sozinhos, o projeto foi convertido em uma proposta estendida com mais segmentos, a estação atual.

O problema, a ISS está se aproximando do fim de seu ciclo de vida útil, a estação está caindo em direção à Terra, e a estimativa é que a estação passe do ponto de não retorno entre 2030 e 2031, e mergulhe no oceano por volta de 2035. Nisso, os Estados Unidos e a China se adiantaram com projetos, o primeiro colaborativo, a Lunar Gateway, e o segundo fechado, a Tiangong, já em operação; empresas americanas também pretendem lançar estações privadas próprias.

Falando especificamente da Gateway, uma estação espacial planejada para permanecer na órbita da Lua, ela é parte integrante do Programa Artemis, que inclui as missões tripuladas rumo ao satélite; o consórcio reúne 13 países, sendo EUA, Reino Unido, Bélgica, Canadá, Dinamarca, França, Alemanha, Itália, Japão, Países Baixos, Noruega, Espanha, Suécia, e Suíça.

Rússia e China foram convidadas, mas recusaram por discordar da posição da NASA, e do governo dos EUA, agindo como os cabeças do projeto, e alegando que o esforço deveria ser conjunto; o principal ponto de discussão de Moscou envolveu a insistência da agência americana a não dar suporte legado às cápsulas Soyuz, e preferir designs mais modernos como as Dragon (Crew e Cargo) da SpaceX, e a problemática Starliner da Boeing.

Para a China, deixar o Programa Artemis para focar na TSS não foi um problema per se, o projeto já estava adiantado e a estação hoje, com três módulos funcionais, opera com relativa estabilidade (lembre-se, explorar o Espaço não é fácil) e pode até ser vista da Terra; a Roscosmos, por sua vez, prometeu lançar a POC até 2025, contando novamente com designs legados não muito diferentes dos módulos do ROS.

Então a Rússia invadiu a Ucrânia em 2022 e o climão aumentou, principalmente com a agência russa, então chefiada por Dmitry Rogozin, um político de carreira 100% leal ao Kremlin, sendo usada como veículo de propaganda, fosse recrutando milícias, ou promovendo manifestações pró-invasão dentro da ISS, o que irritou enormemente a administração da NASA.

Historicamente, EUA e Rússia nunca levaram suas desavenças políticas ao Espaço, nem mesmo durante a Guerra Fria; os cientistas e políticos à frente da NASA e do programa espacial russo da época sempre tiveram como prioridade avançar a ciência aeroespacial, e colaboraram em esforços conjuntos várias vezes.

Diagrama do que a Estação Orbital de Serviço Russa (POC) deveria ser; tradução via Google Lens (Crédito: Divulgação/Roscosmos)

Diagrama do que a Estação Orbital de Serviço Russa (POC) deveria ser; tradução via Google Lens (Crédito: Divulgação/Roscosmos)

No entanto, a atual retórica do presidente Vladimir Putin, estendida a todos os órgãos estatais, Roscosmos inclusa, é de que o país deve se virar sozinho (quando muito, com uma mãozinha da China) para recuperar os tempos de glória do início da Corrida Espacial, quando os soviéticos foram os primeiros em absolutamente tudo, exceto na chegada de humanos à Lua, o objetivo principal, alcançado pelos americanos.

Foi nesse ínterim que a Roscosmos ameaçou, anos atrás, a possibilidade de desacoplar o ROS da ISS, algo que não pode ser feito de forma unilateral, é preciso consentimento dos americanos para a manobra, e a NASA já avisou que isso não vai acontecer. Sem falar que, como a estação foi projetada para que cada parte dependa do resto, uma separação deixaria as duas partes restantes deficitárias.

O ROS, por exemplo, é responsável pela propulsão, controle de altitude e sistema de manobras da ISS, mas é o módulo principal, controlado pelos EUA, que possui o giroscópio que controla a movimentação, e é o responsável por coletar energia solar e redistribuí-la. Caso o desacoplamento acontecesse, o ROS ficaria rapidamente sem energia, mesmo com um suprimento constante das cápsulas Progress, enquanto o resto da ISS permaneceria estática, sem a capacidade de manobrar.

No entanto, o módulo Zarya era originalmente o fornecedor de energia (afinal, foi o primeiro posto em órbita), e ele poderia ser reconfigurado para sua missão original, o que nos leva às notícias mais recentes:

No dia 19 de dezembro de 2025, o jornal estatal Izvestia publicou uma declaração de Oleg Orlov, diretor do Instituto de Biomedicina da Academia de Ciências da Rússia, dizendo que a POC "não mais será composta de módulos apenas novos", ao invés disso, o ROS será desacoplado da ISS e reutilizado como sua "espinha dorsal", por assim dizer.

A declaração se alinha com a feita no início do mês por Denis Manturov, primeiro vice-primeiro-ministro da Rússia, uma fala estranha sobre o futuro ângulo de inclinação da órbita da POC, que não mais seria de 96º, mas de 51,6º, o mesmo da ISS; a justificativa, permitir futuras interações com a estação espacial indiana, que ainda não saiu da fase de planejamento e deve entrar em operação apenas em 2035, se tudo correr bem.

No anúncio, Orlov disse que o plano para desacoplar o ROS e convertê-lo na ROS foi aprovado pelos conselhos técnico e científico da Roscosmos; a ideia seria realizar o procedimento por volta de 2030, antes da ISS atingir o ponto de não retorno, e então uma cápsula Dragon será usada como rebocador para guiar o resto da estação internacional em uma manobra controlada, a fim de reentrar na atmosfera e mergulhar no Oceano Pacífico.

A notícia não foi bem recebida nem na Rússia. O jornal Novye Izvestia (que não é o estatal, mas também não é exatamente anti-governo) publicou um artigo acusando Orlov de hipocrisia quando este, anos atrás, criticou a manutenção contínua da ISS, pelo acúmulo de bactérias e fungos devido ao trânsito de centenas de pessoas ao longo de quase 30 anos; o texto pergunta se agora, visando a aprovação da POC da forma mais russa possível (reaproveitando maquinário pé-de-boi), essa contaminação "deixou de ser perigosa" de um dia para outro.

A bem da verdade, a Rússia não tem muitas opções. Mesmo com o governo de Donald Trump se opondo à construção da Lunar Gateway, os EUA contarão com estações privadas como as duas Haven da Vast, e a Orbital Reef da Blue Origin e Sierra Space, entre outras; a China está muito bem com a TSS, e a Índia também deve em breve começar a construir a sua.

Perder o ROS e ser reduzida a uma nação colaboradora, além de acabar forçada a abandonar as Soyuz como os EUA queriam, não é algo que agrada o camarada Putin.

Space Putin quer tornar a Rússia grande no espaço novamente (Crédito: stux/Pixabay)

Space Putin quer tornar a Rússia grande no espaço novamente (Crédito: stux/Pixabay)

E nem levamos em consideração o que a NASA pensa disso, se bem que como o plano é recuperar o ROS antes que a ISS vá de base, não deve ser algo com o qual irão implicar. Muito.

Fonte: Ars Technica

Leia mais sobre: , .

relacionados


Comentários