Ronaldo Gogoni 29 semanas atrás
Acredite ou não, a CST-100 Starliner vai voltar a voar em 2026. A cápsula aeroespacial da Boeing para transporte de carga e pessoal rumo à Estação Espacial Internacional (ISS) foi recentemente autorizada pela NASA para seis missões, quatro garantidas e as restantes como opcionais.
Após o festival de presepadas com a missão de 2024, muitos acreditavam que o projeto inteiro seria descartado, ou a Boeing venderia a Starliner para um terceiro, mas a agência espacial norte-americana deu uma chance à parceira histórica para, entre outras coisas, ter opções durante os anos finais da ISS.

Cápsula CST-100 Starliner durante manobra de acoplagem à ISS (Crédito: NASA TV/YouTube/Ronaldo Gogoni/Meio Bit)
Vamos dar uma repassada na história até aqui:
A Starliner é parte do Programa de Tripulações Comerciais da NASA (CCP), com a Crew Dragon da SpaceX. O projeto, lançado em 2011, visa o transporte de carga e astronautas para destinos em órbita baixa (LEO), especificamente a ISS, com o CCP saindo do papel só quando a Boeing entrou na licitação.
Originalmente a companhia de Elon Musk era a única concorrente, e na época, ninguém no Congresso ia com a cara dele (não que muita coisa tenha mudado de lá para cá, mas divago).
O problema, a Dragon ficou pronta em 2020 e a Starliner continuava em desenvolvimento, mesmo com a Boeing tendo recebido mais dinheiro para responder por menos missões (em média, cada voo da CST-100 custa mais que o dobro) e tendo que injetar grana do próprio bolso. O teste inicial de 2019 deu chabú, mas a companhia garantiu que a primeira missão tripulada, marcada para maio de 2024, ocorreria sem problemas.
Claro, não foi nada disso. A Starliner teve problemas com os propulsores de manobra, subiu vazando hélio loucamente, problema que não foi sanado, e acabou (após meses com a NASA em modo "this is fine") considerada insegura para o retorno dos astronautas Butch Wilmore e Suni Williams, que retornaram à Terra depois, em uma Dragon.
A cápsula teve que voltar vazia, mas só após receber um patch que implementou o sistema remoto de desacoplagem, que a Boeing julgou "desnecessário". Para piorar, a real dimensão do problema só foi revelada em abril de 2025, os astronautas passaram por uma situação bem perigosa, que poderia acabar em uma tragédia.

ISS vista da Terra; note a cápsula Boeing CST-100 Starliner acoplada à estação (Crédito: Maxar Technologies/Getty Images)
Então veio a conta. No início de 2025, a Boeing declarou que a Starliner deu à companhia um prejuízo de US$ 2 bilhões (~R$ 10,75 bilhões, cotação de 25/11/2025), um reflexo da atual cultura de "contadores de feijões" cuidando da gestão, que entre outras coisas levou a cortes grotescos em projetos
O resultado foram os acidentes e incidentes com o 737 Max, inclusas as 346 vidas perdidas nas duas quedas, em 2018 e 2019, que renderam à Boeing um processo criminal do qual a empresa escapou, após concordar com um pagamento de US$ 1,1 bilhão (~R$ 5,9 bilhões) em multas, compensações às famílias das vítimas, e uma revisão completa de seus parâmetros de segurança e qualidade.
Voltando à Starliner, a Boeing tinha algumas opções, incluindo vender o projeto, mas preferiu mantê-lo e revisá-lo para não perder o contrato com a NASA; a companhia é uma parceira histórica da agência, acostumada com o formato tradicional de contratos que mantêm o controle de cápsulas e foguetes nas mãos do Congresso, o caso do SLS.
A CST-100, assim como a Dragon, são propriedades privadas com orçamento fixo, Boeing e SpaceX são obrigadas a seguirem os projetos da NASA à risca, dentro da grana que receberam; a Starliner teve um aporte total de US$ 4,39 bilhões (~R$ 23,59 bilhões) para originalmente 6 lançamentos, contra US$ 4,93 bilhões (~R$ 26,49 bilhões) da empresa de Musk, mas esta responderá por 15 missões, fazendo com que cada voo custe US$ 328,7 milhões (~R$ 1,77 bilhão).
Daqui a pouco a gente chega em quanto cada lançamento da Starliner vai custar; primeiro, precisamos discutir os mais recentes desenvolvimentos.

Mesmo após uma penca de problemas, NASA prefere contar com a Boeing para ter opções (Crédito: United Launch Alliance)
Nesta segunda-feira (24), a NASA anunciou que o contrato com a Boeing foi revisto, em comum acordo entre as partes. Daqui por diante, dentro da janela disponível até o inevitável descomissionamento da ISS, serão realizados dois lançamentos da Starliner tidos como garantidos, o primeiro em abril de 2026, mas apenas para carga.
Este voo servirá para avaliar as capacidades da cápsula e se ela é segura o bastante para levar astronautas; em caso positivo, três missões tripuladas serão posteriormente agendadas, com mais duas opcionais, totalizando as seis missões originais definidas no primeiro contrato. Se todos os voos forem realizados, cada missão custará US$ 731,7 milhões (~R$ 3,93 bilhões).
Se a NASA decidir por apenas quatro missões, o preço final por lançamento da Starliner ficará em US$ 1,1 bilhão (~R$ 5,9 bilhões), mais que o triplo de uma missão da Crew Dragon.
Como a Boeing já recebeu a grana, não há motivos para a NASA abrir mão do projeto, no caso da missão Starliner-1 ser bem sucedida. Mesmo com a vida útil da ISS chegando ao fim entre 2030 e 2031, quando a estação passará do ponto de não-retorno e começará a cair em direção à Terra, a agência prefere ter opções à mão para o transporte de carga e astronautas, para não depender de uma só empresa, no caso, a SpaceX de Elon Musk.
De qualquer forma, a Boeing tem apenas seis meses para garantir que nada mais vai dar errado, mas a essa altura, com exceção da NASA e mesmo assim com ressalvas, pouca gente arriscaria botar a mão no fogo pela empresa ou pela Starliner.
Fonte: NASA