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NASA: sobre Jared Isaacman e planos infalíveis

Trump renomeia Jared Isaacman como administrador da NASA; plano de Sean Duffy para ficar com o cargo teve efeito contrário

30 semanas atrás

Nesta terça-feira (5) o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, renomeou Jared Isaacman para o cargo de administrador da NASA, após este ter sua indicação original retirada por não ser MAGA o bastante.

O anúncio é o mais recente capítulo de uma sucessão de ocorrências envolvendo o então administrador interino, Sean Duffy, que não só teria falhado em cumprir a ordem de encontrar outro indivíduo adequado para ocupar o cargo, como tentou tomar a função para si, dizem, puxando a NASA para dentro do Departamento de Transportes, também presidido por ele.

Inicialmente preterido para o cargo de administrador da NASA, o nome de Jared Isaacman voltou a circular dias antes da renomeação (Crédito: Ken Cedeno/Reuters)

Inicialmente preterido para o cargo de administrador da NASA, o nome de Jared Isaacman voltou a circular dias antes da renomeação (Crédito: Ken Cedeno/Reuters)

Não obstante, o discurso de Isaacman foi revisto de uma posição um tanto mais alinhada com o Congresso, para uma visão mais próxima da de Trump, defendendo cortes, cancelamento de missões, terceirização de atribuições, e diminuição do foco em Ciência, tratando o órgão como uma empresa qualquer, no máximo, uma fretadora.

NASA vai mudar, de um jeito ou de outro

A indicação original de Isaacman para comandar a NASA se deu por influência de Elon Musk, que na época estava à frente do DOGE (Departamento de Eficiência Governamental); ambos bilionários são amigos, o co-fundador e CEO da Shift4 Payments foi o financiador do projeto Polaris Dawn, em que a SpaceX entrou como parceira.

Há quem diga que Isaacman agiria como um "poste" de Musk na agência, por este lhe dever um favor E dinheiro por conta da missão conjunta, que o dono da SpaceX viabilizou; algumas de suas ideias iniciais eram levemente alinhadas, como a de priorizar uma missão tripulada rumo a Marte à frente do retorno de astronautas à Lua, o que desagradou o Congresso.

Nas sabatinas realizadas por membros do Legislativo, Issacman adotou uma postura mais conciliadora, se comprometendo a manter o Programa Artemis e o foco em Ciência de ponta, mas defendendo parcerias sólidas com companhias de fora, terceirizando tudo o que fosse possível.

No entanto, Isaacman foi preterido para o cargo por não se alinhar 120% a Trump, que quer o fim do Programa Artemis após a terceira missão, e pelo bilionário ter feito no passado doações ao Partido Democrata. Em nota oficial, a Casa Branca defendeu que o administrador da NASA deve ser "completamente alinhado à agenda America First", resumindo, ser um MAGA totalmente leal ao presidente.

O que nos traz a Sean Duffy, o atual secretário de Transportes, que acabou acumulando funções ao ser nomeado como administrador interino da NASA.

Suposta manobra de Sean Duffy envolvia a absorção da NASA pelo Departamento de Transportes, mas não foi isso que Donald Trump o mandou fazer (Crédito: Samuel Corum/Getty Images)

Suposta manobra de Sean Duffy envolvia a absorção da NASA pelo Departamento de Transportes, mas não foi isso que Donald Trump o mandou fazer (Crédito: Samuel Corum/Getty Images)

Trump o incumbiu de sondar candidatos para a vaga, mas o ex-participante do reality show Na Real: Boston e ex-apresentador da Fox News já tinha um nome em mente, o dele próprio. Fontes próximas relatam que Duffy não fez o menor esforço para procurar um candidato adequado para a vaga, e vinha operando como se ele próprio já tivesse sido nomeado permanentemente para a função.

Não apenas isso, o secretário teria um plano de, baseando-se na proposta de orçamento da Casa Branca para a NASA em 2026, que envolve o corte de tudo o que não for ligado à exploração espacial, o encerramento de missões voltadas a pesquisa científica, demissões em massa e fusões e fechamento de centros, fazer com o que o órgão fosse convertido em um departamento interno da pasta de Transportes; assim, o cargo de administrador passaria a ser ligado à cadeira de sua secretaria.

Duffy passava a impressão, confirmada por alguns, de que estava em uma corrida para consolidar sua imagem para, no futuro, se lançar como candidato à presidência dos EUA, mas algumas decisões recentes o desgastaram. A primeira, a ideia de reabrir a licitação do módulo lunar, ao acusar a SpaceX de fazer corpo mole com a versão HLS da Starship, o que lhe rendeu uma enxurrada de xingamentos de Elon Musk.

A segunda e mais recente, o vazamento de um dossiê de 62 páginas do "Projeto Athena", uma versão revista e resumida do plano de governança de Jared Isaacman para a NASA, que ele entregou à cúpula da agência após ser preterido. Quando o nome do amigo de Musk voltou recentemente a circular para uma provável renomeação por Trump, Duffy teria vazado o documento, como forma de "queimar o filme" do rival.

Só que Donald Trump não teria mandado ele fazer nada disso. Duffy foi explicitamente instruído a encontrar um administrador adequado que NÃO deveria ser ele próprio, e as supostas manobras (que o secretário de Transportes nega) lhe fizeram mais mal do que bem; tal qual os planos infalíveis do Cebolinha, sua empreitada teve efeito contrário à intenção original.

Atual plano de governança de Isaacman, mais alinhado com Trump, prevê o cancelamento do SLS, da cápsula Orion, e da estação Gateway (Crédito: Nathan Koga/NASASpaceFlight.com)

Atual plano de governança de Isaacman, mais alinhado com Trump, prevê o cancelamento do SLS, da cápsula Orion, e da estação Gateway (Crédito: Nathan Koga/NASASpaceFlight.com)

Por outro lado, o "Projeto Athena" não pega leve com a NASA, pelo contrário. As atuais sugestões de Isaacman são bem mais próximas do que Trump deseja para a agência. Logo de cara, o documento cita o cancelamento total do Programa Artemis após a volta dos astronautas à Lua, incluso os descartes do foguete SLS, da cápsula Orion, e da estação Gateway.

Este é um dos pontos de atrito entre o presidente e o Congresso, especialmente o Comitê de Comércio, Ciência, e Transporte do Senado, presidido pelo texano Ted "não é o Zodíaco" Cruz, principalmente porque a construção deles é controlada pelo Legislativo, que decide em qual estado ela será realizada, gerando empregos que se convertem em votos.

O plano de Issacman para "reorganizar e reenergizar a NASA" inclui reavaliar a missão e a justificativa de existência de cada centro, incluindo o Laboratório de Propulsão a Jato (JPL), buscando meios de modernizá-los, ou consolidá-los em menos unidades, por exemplo, concentrar vários desenvolvimentos no Centro Johnson em Houston, enquanto outros como o Centro de Voo Espacial Goddard, em Maryland, seriam fechados. E sim, isso levaria a mais demissões.

A visão do atual administrador da NASA seria tratar a agência como uma empresa e não como um centro de desenvolvimento de Ciência (lembrando que Trump não quer que nenhuma missão ligada às mudanças climáticas seja mantida em operação), o que preocupou alguns parlamentares e profissionais ligados ao Espaço, que seria a intenção de Duffy.

O que o ex-administrador interino não antecipou, foi que o "Projeto Athena" está perfeitamente em sintonia com o que Trump quer da NASA daqui por diante.

Jared Isaacman ainda precisa ser oficialmente confirmado no cargo; ele estava há dias de ser submetido à votação no Senado antes ter sua nomeação original retirada por Trump, e não se sabe se o procedimento será retomado de onde parou, ou reiniciado. De qualquer forma nada deverá ser feito agora, enquanto os Estados Unidos permanecerem sob o shutdown mais longo de sua história.

Fonte: Politico, Ars Technica

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