Ronaldo Gogoni 1 ano atrás
Já é consenso que Elon Musk muito frequentemente fala mais do que deveria, e não sabe a hora de enfiar o pé na boca. Dito isso, o bilionário dono da SpaceX muito raramente criticava no aberto os rumos do programa aeroespacial da NASA... até recentemente, pelo menos.
A partir de janeiro de 2025, Musk assumirá um cargo no governo de Donald Trump, e talvez por isso, o executivo passou a tecer críticas públicas ao Programa Artemis, dizendo que a agência deveria focar no primeiro voo tripulado a Marte ao invés de mandar astronautas de volta à Lua, o que para ele, é uma "distração".

Elon Musk não desistiu de seu sonho (utópico) de colonizar Marte em seu tempo de vida (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)
Musk várias vezes mencionou seu desejo pessoal de ir à Marte, e realizar os planos de colonizar o planeta vermelho durante seu tempo de vida, mas a Realidade não perdoa, o Espaço é cruel e vai tentar te matar o tempo todo, sem descanso. Como o planeta não possui uma magnetosfera similar à da Terra, ele fica exposto à radiação e raios cósmicos, que definitivamente não fazem bem à pele, nem vão te dar poderes fantásticos.
Estabelecer uma colônia em Marte, ou mesmo uma missão de longo prazo, seria inviável nessas condições, a menos que considerem viver em cavernas, mas um "bate-e-volta" é perfeitamente executável, resta definir como chegar lá. Com nossa tecnologia atual, a viagem de ida de Terra a Marte dura 9 meses, no que a Starship foi desenhada especialmente para a missão.
No entanto, a NASA trabalha com um cronograma mais sensato, definido ainda no primeiro mandato de Trump, que deu a largada no Programa Artemis: uma empreitada para recuperar o prestígio norte-americano no Espaço em tecnologia de ponta para exploração, culminando com a primeira missão lunar tripulada a pousar desde a Apollo XVII, em 1972.
O problema, o Programa Artemis está para lá de atrasado. A Gateway, uma estação espacial na órbita da Lua, sequer saiu do papel; o SLS funciona, mas foi uma verdadeira obra de igreja, e é caríssimo; a cápsula Orion apresentou problemas no revestimento, mas no geral, está apta para voltar à Lua só em 2026, na missão Artemis II, de sobrevoo tripulado.
A Artemis III, com o pouso tripulado, deverá ser realizada somente em 2027, durante o penúltimo ano do segundo mandato de Trump, que quer garantir a conquista durante seu governo; da mesma forma, a missão de astronautas em Marte deve ser realizada em 2028, mas isso é quase whishful thinking.
Daí Musk começou a criticar o Programa Artemis em público; consta que ele nunca gostou da ideia de colocar a Lua na frente de Marte, mas manteve suas opiniões em privado durante o governo Biden, para não complicar os negócios da SpaceX com a NASA. Só que agora, com um cargo garantido e uma presença "virtual" na agência, através do futuro administrador Jared Isaacman, indicado por ele, o bilionário soltou o verbo.
Em uma postagem no X no dia de Natal de 2024, Musk disse que a estrutura operacional do Programa Artemis é "extremamente ineficiente", e a chamou de "um programa para maximizar empregos, ao invés de resultados". Musk igualmente acredita que a NASA deveria descartar o SLS em prol da Starship, o que foi aventado por uma equipe de consultores de transição.
Em outra postagem, Musk desconsiderou os planos que envolvem o uso de seu foguete para o programa lunar, dizendo que o foco deveria ser Marte e tão somente:
No, we’re going straight to Mars. The Moon is a distraction.
Mass to orbit is the key metric, thereafter mass to Mars surface. The former needs to be in the megaton to orbit per year range to build a self-sustaining colony on Mars.
— Elon Musk (@elonmusk) January 3, 2025
Ainda que alguns considerem haver mais valor em chegar primeiro à Marte em pessoa do que voltar à Lua, o argumento que provavelmente Musk está usando (além de privilegiar sua Starship; a Orion não têm condições de levar uma tripulação para lá), é preciso lembrar que, antes de mais nada, a NASA é a uma agência do governo dos Estados Unidos, portanto, sujeita a articulações políticas à frente do desenvolvimento científico.
Trump mais de vez disse que quer resultados, leia-se astronautas na Lua e em Marte durante seu governo, e mesmo na possibilidade do SLS ser descartado, o que não deve acontecer (já foi gasto dinheiro demais, e é preciso prestar contas aos contribuintes), a Starship primeiro será usada no Programa Artemis, pelos simples motivo dele já estar encaminhado. Só então, a missão rumo ao planeta vermelho será considerada.
O programa de retorno à Lua tem um rival pré-definido, a China, e os EUA tem uma parceria estabelecida com a União Europeia, de modo a manter uma presença significativa e constante no satélite; abandoná-lo para priorizar Marte, como Musk quer, seria o mesmo que entregá-lo ao premiê Xi Jinping, onde seus taikonautas fincariam alegremente a bandeira chinesa no solo lunar antes da Star-Spangled, e isso Trump não permitirá de jeito nenhum.

Programa Artemis não vai a lugar algum, e muito dificilmente o SLS vai rodar (Crédito: Nathan Koga/NASASpaceFlight.com)
O provável de acontecer, a NASA será orientada (por ordem de cima) a rever o Programa Artemis de alto a baixo, a fim de torná-lo mais eficiente e cumprir as datas estipuladas pelo presidente Trump, enquanto o programa de missão tripulada rumo a Marte segue em paralelo; a ordem não deverá ser priorizar um ou outro destino, mas focar em ambos, e rápido.
Fonte: Ars Technica