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NASA: Orion volta à Lua em 2026, com o mesmo escudo

NASA adia Programa Artemis mais uma vez, mas não vai reforçar escudo térmico da cápsula Orion, o que despertou críticas

1 ano e meio atrás

A NASA mais uma vez puxou o freio do Programa Artemis, que levará astronautas de volta à Lua, pela primeira vez em mais de 50 anos. As missões Artemis II (sobrevoo tripulado) e Artemis III (pouso), planejadas para 2025 e 2026, foram respectivamente postergadas para abril de 2026 e meados de 2027, se nada mais der errado.

O motivo para o adiamento foram problemas estruturais da cápsula Orion, cujo revertimento térmico se deteriorou na reentrada mais do que o esperado, mas para a surpresa de todos, a agência espacial norte-americana decidiu que a missão Artemis II usará a mesma configuração da Artemis I, de sobrevoo lunar não-tripulado, o que foi duramente criticado por especialistas.

Cápsula Orion pousa no Oceano Pacífico após retorno à Terra, no fim da missão Artemis I, em 11 de dezembro de 2022 (Crédito: James M. Blair/NASA)

Cápsula Orion pousa no Oceano Pacífico após retorno à Terra, no fim da missão Artemis I, em 11 de dezembro de 2022 (Crédito: James M. Blair/NASA)

NASA querendo economizar?

A missão Artemis está mais do que atrasada, por uma série de motivos. Um deles foi o lento desenvolvimento do foguete SLS, no qual a Boeing investiu uma grana pesada, já que ele é tratado pelo Congresso como o único apto a enviar a Orion rumo à Lua sem escalas. O voo inaugural, realizado em novembro de 2022, também foi a estreia da cápsula desenvolvida pela Lockheed Martin.

A missão em si foi bem sucedida, a Orion realizou seu voo orbital ao redor da Lua e voltou, os problemas se concentram na reentrada na atmosfera. A cápsula usa um escudo ablativo, desenvolvido para se despedaçar conforme absorve calor, mas de maneira controlada e dentro de parâmetros bem definidos e específicos. Infelizmente para todos os envolvidos, a Realidade nem sempre colabora.

O material, chamado Avcoat, é o mesmo que a NASA usou nas missões Apollo, uma estrutura originalmente organizada em forma de 300 mil favos de mel, preenchidos manualmente com o material, curado e usinado, para depois ser aplicado. A diferença é que o processo usado pela Lockheed mudou, os blocos agora são produzidos e pré-usinados em uma fábrica, depois montados sobre o revestimento de fibra de carbono.

Sim, o processo atual de aplicação do Avcoat na Orion é proporcionalmente mais barato quando comparado ao escudo da Apollo, como adivinhou?

A Orion reentrou na atmosfera e manobrou para aumentar o arrasto e diminuir a velocidade, mas o relatório da NASA mostrou que energia continuou se acumulando no Avcoat após, formando gases que não escaparam corretamente. Esses gases criaram rachaduras que levaram ao desprendimento de mais material do que o previsto.

Imagens dos danos ao escudo térmico da Orion, incluídas no mais recente relatório de inspeção da missão Artemis I (Crédito: NASA)

Imagens dos danos ao escudo térmico da Orion, incluídas no mais recente relatório de inspeção da missão Artemis I (Crédito: NASA)

O quão importante é ter um bom revestimento na reentrada? Essa o Columbia responde:

A NASA passou os últimos dois anos investigando o que aconteceu com o escudo da Orion, e na última quinta-feira (5), compartilhou novas informações e um novo cronograma. Primeiro, as datas para as missões Artemis II e III foram outra vez adiadas, a tripulação da próxima missão, que fará um sobrevoo ao redor da Lua, mas não pousará, ficou agora para abril de 2026; já a Artemis III foi jogada para meados de 2027, sem data definida.

Segundo, embora a NASA tenha reafirmado seu compromisso com a segurança (é, a gente sabe), a missão Artemis II usará o mesmo escudo ablativo da Artemis I, mas farão ajustes no processo de reentrada, uma vez que a cápsula, apesar dos pesares, pousou no Pacífico intacta. Espera-se que o escudo seja revisto para a Artemis III, mas nada foi dito a respeito.

A NASA não liberou publicamente o relatório produzido por uma junta independente, que segundo Charles Camarda, ex-astronauta e ex-conselheiro sênior do Centro Espacial Johnson, teriam apoiado a decisão da agência de usar o mesmo escudo, e que o time em si tinha vozes discordantes, o que foi negado depois; em uma postagem no LinkedIn, ele disse que o time de executivos da NASA deveriam ter vergonha de tal decisão.

Também do LinkedIn veio outra crítica, do especialista em materiais Ed Pope, dizendo que a NASA e a Lockheed "cometeram erros" no desenvolvimento da cápsula Orion, e que "a conveniência foi posta à frente da segurança", dando a entender que a decisão foi tomada por motivos econômicos e políticos.

Trump, Isaacman, Musk, e a concorrência

No geral, a NASA está sendo acusada de pouca transparência no caso do escudo da Orion, ao tratá-lo como um problema menor, mesmo com a deterioração da missão de 2022 não ter sido prevista, o que não pode acontecer. Ao mesmo tempo, a agência pode mudar radicalmente durante o segundo mandato de Donald Trump, que nomeou o bilionário Jared Isaacman como seu próximo diretor.

Do ponto de vista técnico, Isaacman é uma das melhores escolhas possíveis, formado em aeronáutica, é piloto certificado para múltiplas aeronaves, e comandou a missão Inspiration4 da SpaceX, a primeira 100% privada e tripulada por astronautas civis. O que está incomodando alguns, é sua proximidade com Elon Musk, dono da SpaceX, que teria feito a indicação do amigo a Trump.

Há a possibilidade de que a SpaceX seja priorizada a partir de 2025, frente a projetos de concorrentes como a Blue Origin e a Boeing. A primeira não chegou ao Espaço até hoje, e Jeff Bezos só ganha contratos no grito; a segunda está enrolada até o pescoço graças às trapalhadas recentes, no Espaço e no mercado comercial aéreo.

Ninguém obviamente acredita que a NASA vá dispensar o SLS, não quando ele já consumiu uma montanha de dinheiro público, e TEM QUE mostrar serviço, mas a Starship ser usada como um estepe no Programa Artemis, mesmo sendo o foguete mais poderoso da história, também não faz sentido algum.

Nomeação de Jared Isaacman, por indicação de Elon Musk, está sendo entendida como o dono da SpaceX metendo o bedelho diretamente na administração da NASA; melhor para sua empresa, pior para Boeing e Blue Origin (Crédito: Divulgação/SpaceX)

Nomeação de Jared Isaacman, por indicação de Elon Musk, está sendo entendida como o dono da SpaceX metendo o bedelho diretamente na administração da NASA; melhor para sua empresa, pior para Boeing e Blue Origin (Crédito: Divulgação/SpaceX)

Não é difícil imaginar que a amizade entre Isaacman e Musk, que também terá um cargo no governo Trump, como co-diretor do DOGE (Department of Government Efficiency, ou Departamento de Eficiência Governamental), um órgão provisório até segunda ordem, criado para desburocratizar a máquina pública dos EUA, renda mais contratos à SpaceX do que aos concorrentes, ou Musk acabe agindo como "conselheiro" informal do parceiro, conflitos de interesses be damned, como dizem por lá.

Ao mesmo tempo, Trump é apegado à ideia de voltar à Lua, e garantir um programa de exploração tripulado visando Marte, durante seu mandato, e como ninguém nos EUA pode se candidatar a presidente pela 3.ª vez, ele só tem até janeiro de 2029 para garantir tal coisa; por mais defeitos que Musk tenha, ele não é dado à burocracia, quando é possível resolver problemas sem passar por reuniões desnecessárias, e Isaacman compartilha da mesma visão.

Pode ser que a NASA se torne mais ágil e menos burocrática, o que seria excelente para o avanço tecnológico espacial, mas, ao mesmo tempo, nem todo mundo está à vontade com a possibilidade de Elon Musk fazer da SpaceX um "puxadinho" da agência, o que pode acontecer ou não. É esperar para ver.

Fonte: NASA, Ars Technica, ExtremeTech

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