Ronaldo Gogoni 13 semanas atrás
Na última sexta-feira (27), o administrador da NASA Jared Isaacman anunciou uma série de mudanças envolvendo o programa Artemis: de forma um tanto chocante, ele anunciou que a terceira missão não vai mais pousar na Lua, responsabilidade agora empurrada para a Artemis IV.
Isaacman também revelou mudanças que envolverão Boeing, SpaceX e Blue Origin sobre o desenvolvimento de suas plataformas, respectivamente o foguete SLS, a versão lunar da Starship, e o lander Blue Moon.

Jared Isaacman anunciou novos planos da NASA para o programa Artemis, envolvendo Boeing, SpaceX e Blue Origin indiretamente (Crédito: Jessie Hodge/Flickr)
Era esperado que a NASA realizasse uma coletiva de imprensa detalhando planos futuros para a missão Artemis II, bastante atrasada e que vinha enfrentando novos empecilhos, graças a vazamentos recentemente detectados no SLS e na cápsula Orion. A agência, que sempre foi nazista (sorry, not sorry) com procedimentos e redundâncias em cascata, tinha razões para ser paranoica, mais ainda depois da pataquada com a Starliner que, por muito pouco, não acabou em outra tragédia.
Mesmo assim, ninguém esperava que Isaacman fosse ser um tanto conservador quanto à segurança, ainda que não muito: como Trump quer que astronautas finquem outra bandeira dos EUA na Lua antes do fim de seu segundo mandato, o administrador revelou planos para a realização de pelo menos três missões do programa Artemis, com sorte quatro, até o fim de 2028.
O cenário agora é o seguinte:
As tripulações das missões Artemis III e IV ainda serão definidas, e há a possibilidade de uma missão Artemis V que pode ser encaixada para o fim de 2028 ou início de 2029, totalizando quatro lançamentos dentro do governo Trump; essa última missão não é dada como certa, entretanto.
A NASA também podou upgrades planejados para o foguete SLS, cancelando o desenvolvimento do Bloco 1B, que aumentaria a carga útil em aproximadamente 40%, e o Estágio de Exploração Superior (Exploration Upper Stage, ou EUS), que deveria substituir o estágio secundário de propulsão criogênica do Delta IV. Dessa forma, as cápsulas Orion vão subir com o sistema atual.
Isaacman diz que o timing entre missões atuais é grande demais (Artemis I subiu em 2022), os atrasos de meses sempre que um problema é detectado não se comparam aos delays de no máximo 8 semanas do programa Apollo; a seu ver, a agência se tornou complacente e conservadora demais, algo que não pode mais continuar sob risco da China mandar taikonautas para a Lua antes dos astronautas americanos voltarem, o que ninguém (especialmente Trump) quer permitir que aconteça.
A NASA está assim revivendo a mentalidade do programa Apollo (assumir certos riscos em prol da inovação), o SLS será padronizado para um design único, minimizando as firulas. A Boeing terá que garantir que a configuração atual funciona e é segura (algo que já está praticamente atestado), e que esteja pronta para lançamentos com cadência de apenas 10 meses; o foguete será usado até pelo menos a missão Artemis V, como definido pelo Congresso, para depois ser substituído por soluções de terceiros mais baratas.
Segundo a NASA, todos os parceiros comerciais envolvidos no programa Artemis concordam com as mudanças, que serão particularmente problemáticas para a Boeing, comprometida com o EUS e o Bloco 1B, projetos que já teriam consumido alguns bilhões de dólares e que agora não darão em nada. Nesse caso em particular, a empresa terá que dançar conforme a música.
No comunicado de imprensa oficial da agência espacial norte-americana, o presidente e CEO da divisão aeroespacial da Boeing, Steve Parker, se limitou a dizer que a companhia está "preparada para atender às crescentes necessidades de produção" da NASA, e que permanece "como uma orgulhosa parceira da missão Artemis e honrada por contribuir com a visão de liderança americana no espaço", enquanto se gaba do SLS continuar sendo "o foguete mais poderoso do mundo (em operação), e o único capaz de levar astronautas para a Lua e além em apenas um lançamento".
Sim, a declaração foi uma estocada com katana na barriga de Elon Musk e da SpaceX, que ainda não apresentaram a versão HLS (de Sistema de Pouso para Humanos em inglês) da Starship e mesmo o modelo de carga segue não operacional. A Blue Origin do rival Jeff Bezos, que garantiu no grito um contrato para seu lander próprio Blue Moon, também não mostrou nada até agora e foi igualmente alvo da chacota, ainda que de forma indireta.

Da esq. para a dir.: Blue Moon, Starship HLS e módulo lunar do programa Apollo, em escala (Crédito: Ken Kirtland IV/X)
A situação da NASA é um tanto complicada, a Orion não possui um módulo próprio de pouso lunar e depende de um lander de terceiros, estando no momento amarrada sem opções a Musk e Bezos, com ambos jurando que seus sistemas estarão prontos em 2027. Como Trump tem pressa, a ordem vai ser muito provavelmente apertar os pescoços dos dois de modo a mostrarem resultados para ontem. O teste orbital prometido para o próximo ano, determinará a capacidade de ambos landers em se conectar com a cápsula, que no plano atual será lançada do SLS mas deverá voltar sozinha depois.
Por outro lado, o comunicado da NASA não dedicou uma sílaba sequer à estação espacial Lunar Gateway, protegida por um pesado lobby do Congresso, especialmente do senador Ted "Zodíaco" Cruz, presidente do Comitê de Comércio, Ciência e Transporte; seu estado, o Texas, é responsável pela construção de elementos-chave, mas o cancelamento do Bloco 1B e do EUS da Boeing, que viabilizariam o SLS a transportar cargas mais pesadas, põe em cheque o projeto como um todo.
Isaacman diz que a discussão sobre o futuro da Lunar Gateway "não é um assunto urgente", mas mencionou que a NASA vai discutir planos sobre uma "base lunar" em breve. Cruz já seria aberto à possibilidade de construção de uma estação no solo lunar, algo já levado em consideração por China e Rússia.
Fonte: NASA, Ars Technica