Meio Bit » Engenharia » Boeing pode vender Starliner, mas quem vai comprar?

Boeing pode vender Starliner, mas quem vai comprar?

Boeing estaria considerando vender parte de sua divisão espacial, cápsula Starliner inclusa, para conter gastos; foguete SLS será mantido

2 anos atrás

A Boeing pagou caro, e continua pagando, pela presepada com a CST-100 Starliner. Parte do Programa de Tripulações Comerciais da NASA (CCP) com a Crew Dragon, ela apresentou uma série de problemas antes, durante, e depois do lançamento em junho de 2024.

Por questões de segurança, o módulo voltou à Terra vazio, e sua tripulação permanecerá na Estação Espacial Internacional (ISS) até fevereiro de 2025, na cápsula da SpaceX, concluindo em 8 meses uma missão que deveria durar 8 dias.

Cápsula CST-100 Starliner durante manobra de acoplagem à ISS (Crédito: NASA TV/YouTube/Ronaldo Gogoni/Meio Bit) / boeing

Cápsula CST-100 Starliner durante manobra de acoplagem à ISS (Crédito: NASA TV/YouTube/Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

A Starliner já deu quase US$ 2 bilhões de prejuízo à Boeing que agora, segundo fontes, considera vender a cápsula e partes de sua divisão espacial, para conter gastos e focar em operações menos problemáticas; por outro lado, o programa do foguete SLS continuará inalterado.

Boeing só tem a si mesma para culpar

Nós já tratamos várias vezes do caso Starliner, mas não custa nada dar uma revisada rápida:

O CCP, criado em 2011, é um programa de parceria entre a NASA e companhias privadas do setor aeroespacial, para o desenvolvimento de módulos para o transporte de carga e astronautas a destinos em órbita baixa (LEO), especificamente a ISS; a diferença, o governo só forneceria a verba, e as empresas manteriam a propriedade dos módulos, e decidiriam como e onde construí-los, desde que seguissem as especificações à risca.

Inicialmente a SpaceX era a única concorrente, e como o Congresso dos Estados Unidos nunca foi, e nunca irá, com a cara de Elon Musk, o projeto só saiu do papel quando a Boeing entrou na disputa. Esta, embora também seja privada, é parceira de longa data da agência espacial norte-americana, e habituada ao modelo tradicional de contrato, como o estabelecido para o SLS, uma joint entre Boeing, Rocketdyne, ULA e Northrop Grumman, mas administrado pela NASA e controlado integralmente pelo governo, ou seja, é uma plataforma política.

Devido a suposta proximidade com o Congresso, a Boeing recebeu bem mais grana que a SpaceX para responder por menos lançamentos, ou seja, o custo de cada missão da Starliner custa à NASA mais que o dobro de uma da Crew Dragon.

O orçamento total da Boeing para a Starliner, somando os US$ 4,2 bilhões iniciais (~R$ 23,99 bilhões, cotação de 29/10/2024) e os incrementos, é de US$ 4,39 bilhões (~R$ 25,07 bilhões) para seis missões, o que dá cerca de US$ 731,7 milhões (~R$ 4,18 bilhões) por lançamento.

A SpaceX, que recebeu originalmente US$ 2,6 bilhões (~R$ 14,85 bilhões) para também seis missões, embolsou um total de US$ 4,93 bilhões (~R$ 28,15 bilhões) após os incrementos, mas fechou mais missões, totalizando 15 lançamentos, ou aproximadamente US$ 328,7 milhões (~R$ 1,88 bilhão) por voo.

A grande diferença entre as empresas, a SpaceX concluiu a Crew Dragon e realizou seu primeiro voo em 2020, um resultado tão bom que fez a NASA rever a ideia original, que era descartar tudo, e autorizou a reutilização da cápsula e dos foguetes Falcon 9; enquanto isso a Starliner continuava em desenvolvimento, dando problemas em testes e sofrendo adiamento após adiamento da primeira missão tripulada.

Por fim, a cápsula subiu em 5 de junho de 2024, e todos viram o que aconteceu: a Starliner teve problemas com os propulsores de manobra, e subiu vazando Hélio loucamente, o que não foi sanado após a acoplagem da ISS. A NASA entrou no modo this is fine e assim ficou por meses, se recusando a reconhecer que o módulo não era seguro o bastante para trazer os astronautas Butch Wilmore e Suni Williams de volta.

ISS vista da Terra; note a cápsula Boeing CST-100 Starliner acoplada à estação (Crédito: Maxar Technologies/Getty Images)

ISS vista da Terra; note a cápsula Boeing CST-100 Starliner acoplada à estação (Crédito: Maxar Technologies/Getty Images)

No fim das contas, a Starliner teve que voltar à Terra vazia, graças a um patch que implementou o sistema remoto de desacoplagem, que ela não tinha quando subiu (a Boeing julgou que "não era necessário"), e os astronautas voltarão à Terra na Crew Dragon com o time da Crew-9, que já está na ISS.

Agora, veio a conta. A Boeing amargou um prejuízo enorme com a Starliner, tendo que injetar adicionais US$ 1,85 bilhão (~R$ 10,56 bilhões) do próprio bolso para fazer o projeto andar, incluindo os mais recentes US$ 250 milhões (~R$ 1,43 bilhão), devido o completo fiasco da primeira missão tripulada. Não obstante, a companhia amargou um prejuízo total de US$ 6,2 bilhões (~R$ 35,4 bilhões) no último trimestre fiscal, incluindo as demais operações, que também não andam bem das pernas, vide a situação com o 737 Max, que lhe rendeu um processo feroz.

Sendo bem sincero, a Boeing não pode culpar ninguém além dela mesma. A cultura da empresa, antes gerida por engenheiros de ponta com foco na estabilidade, excelência e segurança, mudou para priorizar o lucro acima de tudo, graças ao controle na mão de burocratas e "contadores de feijões", o que explica as falhas grotescas na linha 737 Max.

Dito isso, o atual CEO da Boeing, Kelly Ortberg, que assumiu o cargo em agosto de 2024 para por ordem na casa, disse no mais recente relatório a acionistas, que é preferível que a empresa "faça menos coisas, mas as faça bem, do que um monte de coisas, mas mal-feitas", o que está sendo entendido, conforme fontes próximas, como uma intenção de vender porções de sua divisão aeroespacial, incluindo a Starliner.

Ortberg continua:

"Claro, nossos negócios principais, aviação comercial e sistemas de defesa, permanecerão, mas provavelmente há alguas coisas "marginais" em que podemos ser mais eficientes, ou que só nos distraem de nosso objetivo principal".

Financeiramente falando, a Starliner é um sumidouro de grana, com o qual a Boeing não pode se dar mais ao luxo de investir mesmo a médio prazo, considerando sua já problemática situação no setor de aviação comercial. Vender pode ser uma estratégia para fazer caixa E se livrar de um pepino, mas o problema é quem vai querer comprar.

O óbvio candidato seria a Blue Origin, com a Lockheed Martin correndo por fora; a ULA não entraria nessa, até porque ela também está em vias de ser comprada pela companhia de Jeff Bezos, segundo fontes; um potencial comprador terá que investir e melhorar a cápsula, de modo a torná-la viável e parelha à Crew Dragon, como uma opção real, e por esse exato motivo, Elon Musk seria dificilmente permitido absorver o projeto com a SpaceX.

O que se sabe de concreto, é que o SLS não irá a lugar algum. A Boeing não tem a menor intenção de renunciar a sua parte no seu desenvolvimento, visto que a NASA reconhece apenas ele de forma oficial como apto a ir da Terra à Lua direto, o que levou a Starship ser rebaixada à condição de estepe, mesmo sendo o foguete mais poderoso do mundo; são 79 MN de impulso, contra já impressionantes 32,1 MN do SLS (a título de comparação, o Saturn V gerava 35,1 MN).

Ninguém é besta de mexer no SLS, que segue como está (Crédito: NASA)

Ninguém é besta de mexer no SLS, que segue como está (Crédito: NASA)

O envolvimento da Boeing no SLS, e no CCP, se deu principalmente pelo histórico, que inclui o primeiro estágio do Saturn V que levou os astronautas norte-americanos à Lua, com o programa Apollo; o problema é que a companhia de hoje trocou a solidez de seus projetos por fazer grana fácil, o que voltou para mordê-la na bunda, seja com o fracasso da Starliner, ou com os desastres da linha 737 Max.

Fonte: The Wall Street Journal

Leia mais sobre: , , , .

relacionados


Comentários