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Boeing cobra o dobro da SpaceX por voo na Starliner

Boeing recebeu US$ 4,39 bilhões da NASA, por 6 voos da Boeing Starliner; SpaceX, US$ 4,93 bilhões por 14 lançamentos da Crew Dragon

05/09/2022 às 10:45

As coisas não andam boas para a NASA: não bastassem os constantes problemas com o SLS, sua "obra de igreja" caríssima que se recusa a sair do chão, a Boeing também não vem mostrando resultados satisfatórios, ainda mais quando comparadas à SpaceX, cuja cápsula Crew Dragon está mais que azeitada.

A cápsula Starliner, embora tenha passado no seu segundo teste de voo orbital em maio de 2022, está terrivelmente atrasada, mas considerando que a Boeing sempre foi preferida pelos congressistas norte-americanos, não surpreende que mesmo com seus problemas, a empresa continue enchendo os bolsos de grana, recebendo bem mais que a SpaceX para fazer a mesma coisa.

Foguete Atlas V e cápsula Starliner (Crédito: Divulgação/Boeing)

Foguete Atlas V e cápsula Starliner (Crédito: Divulgação/Boeing)

Vamos recapitular. Em 2010, a NASA criou o Programa de Tripulações Comerciais, uma iniciativa que repassaria o desenvolvimento de tecnologias para voos tripulados à iniciativa privada, para a longo prazo não mais depender da Rússia, que graças ao fim do programa dos ônibus espaciais no ano seguinte, seria a única nação com uma plataforma de lançamento e cápsulas de acoplagem (sistema Soyuz) compatíveis com a Estação Espacial Internacional (ISS), por vários anos.

Tão logo os shuttles foram aposentados, a então agência espacial russa aumentou vertiginosamente o preço por assento em suas cápsulas, no que, em 2019, já custava US$ 86 milhões. Este é um dos motivos de pôr que o então diretor da Roscosmos, Dmitry Rogozin, ficou fulo quando a Crew Dragon mostrou resultados: a boca livre chegou ao fim.

O programa alocou verbas para a SpaceX e a Boeing, no que o ex-diretor da NASA Charles Bolden admitiu, que caso esta não tivesse entrado na competição, o plano sequer teria saído do papel, dada a antipatia permanente dos políticos com Elon Musk e suas companhias; basta lembrar da vez que a FCC puxou o tapete da Starlink.

Os projetos visavam sistemas de cápsulas tripuladas, que comportam 4 tripulantes. A SpaceX recebeu US$ 2,6 bilhões para desenvolver a Crew Dragon, já embutidos aí seis voos agendados; a Boeing, por sua vez, foi agraciada com uma verba bem maior, US$ 4,2 bilhões. O número de voos que ela teria que garantir é o mesmo da empresa do Elon, seis.

Aqui já começa a diferença de tratamento. Se formos distribuir a grana por lançamento encomendado, cada voo da Starliner custaria US$ 700 milhões, ou US$ 175 milhões por astronauta. E você achou que o preço cobrado pela Roscosmos era alto...

Aliás, é bom lembrar que a NASA ainda agenda voos com os russos, com ou sem o pau torando na Ucrânia.

Cápsula Starliner montada no topo de um foguete Atlas V (Crédito: United Launch Alliance)

Cápsula Starliner montada no topo de um foguete Atlas V (Crédito: United Launch Alliance)

Com quase metade da verba disponível, e tendo que desenvolver seus próprios foguetes (a Starliner usa o Atlas V da ULA), a SpaceX ainda assim conseguiu fazer sua plataforma funcionar, sendo hoje a única disponível, fora as Soyuz. O custo final ficou em US$ 433,3 milhões por lançamento, ou US$ 108,3 milhões por tripulante.

De 2014 para cá, a Boeing e a SpaceX receberam novos aportes de verbas, mas a primeira não recebeu um incremento no número de voos contratados. Hoje, a primeira conta com um total de US$ 4,39 bilhões disponíveis para executar os mesmos 6 lançamentos da Starliner, o que deixou cada voo mais caro: US$ 731,7 milhões por lançamento, ou US$ 182,9 milhões por astronauta.

Já a SpaceX, que já havia recebido o mesmo aporte que a concorrente, que elevou a verba para US$ 3,1 bilhões, fechou na última quarta-feira (31) um contrato para lançar mais 8 voos, totalizando agora 14 lançamentos, com uma verba total de US$ 4,93 bilhões.

Isso fez o preço final cair ainda mais: em média, cada lançamento da Crew Dragon custa hoje US$ 352,14 milhões, ou US$ 88 milhões por tripulante. Basicamente, a NASA gasta 2,08 vezes mais por lançamento com a Boeing Starliner, ou melhor, gastará, visto que a cápsula ainda não saiu da fase de testes.

Por fim, a Crew Dragon colocará em órbita 56 astronautas, contra 24 lançados pela Starliner, a menos que um novo pedido de voos por parte da NASA amortize esses valores, o que duvido que aconteça; mais fácil o valor médio do assento subir ainda mais, ao invés de diminuir.

Cápsula Crew Dragon se acopla à Estação Espacial Internacional (Crédito: NASA)

Cápsula Crew Dragon se acopla à Estação Espacial Internacional (Crédito: NASA)

É importante lembrar que, embora os custos sejam altos, a Boeing não está exatamente lucrando com essa empreitada. Como o Programa de Tripulações Comerciais trabalha com valores fixos, nem ela, nem a SpaceX, recebem extras para cobrir eventuais gastos com atrasos ou mudanças de projeto, e precisam apesentar contas sobre o que estão fazendo, visto que são financiados com dinheiro público.

Em verdade, a Boeing está perdendo muito dinheiro, apenas para colocar a Starliner nos trilhos, no que os valores injetados pela empresa no projeto já passaram de US$ 700 milhões; o principal motivo seria má gestão, pois os executivos, acostumados com o formato tradicional de contrato, em que o projeto é do Congresso e o dinheiro entra livremente, estariam batendo cabeça para manter os gastos comportados para o modelo de preços fixos. Em suma, estão torrando uma grana que não possuem, e não será reposta.

Enquanto isso, Elon Musk vai garantindo mais voos para a SpaceX, que diferente da Boeing, está mostrando resultados.

Fonte: Ars Technica

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