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Roscosmos: sai Rogozin, entra Borisov — o que muda?

Troca de comando na Roscosmos soa mais como uma promoção para Dmitry Rogozin, e uma punição para Yury Borisov

18/07/2022 às 11:00

A Roscosmos voltou a ser o centro das atenções no noticiário espacial, desta vez graças a uma dança das cadeiras: na última sexta-feira (15), o Kremlin confirmou rumores de que Dmitry Rogozin, o verborrágico e irascível diretor da agência espacial da Rússia, foi substituído no cargo por Yury Borisov, até então vice-Primeiro-Ministro (o país tem vários).

Segundo fontes, Dmitry Rogozin continua visto com bons olhos por Putin, e pode até mesmo sair por cima no final (Crédito: Alexey Druzhinin/Sputnik/AFP/Getty Images)

Segundo fontes, Dmitry Rogozin continua visto com bons olhos por Putin, e pode até mesmo sair por cima no final (Crédito: Alexey Druzhinin/Sputnik/AFP/Getty Images)

Embora muita gente esteja comemorando que Rogozin não mais comanda a Roscosmos, o que pode significar uma volta da agência à operação normal, sem que a política vaze para dentro, para dizer a verdade, a troca de comando é literalmente um caso de "seis por meia-dúzia".

Não obstante, o movimento é entendido como uma punição imposta por Vladimir Putin a Borisov, a mesma que Rogozin sofreu em 2018 quando era também um vice-Primeiro-Ministro, e atuando na mesma área.

Quem é Yury Borisov?

Nascido em 31/12/1956, Yury "Yura" Ivanovich Borisov serviu por 20 anos nas Forças Armadas, tanto a soviética quanto a russa, entre 1978 e 1998, e possui bacharelado de Matemática, o que o torna ligeiramente diferente de Rogozin, um político de carreira com formação em Economia e Jornalismo.

Em 2012, Borisov foi nomeado vice-Ministro de Defesa, e em 2018, assumiu o cargo de vice-Primeiro-Ministro, onde ficou responsável por todo o complexo industrial-militar da Rússia, que inclui Defesa e pesquisa aeroespacial. Curiosamente, ele assumiu o cargo justamente de Dmitry Rogozin, que na mesma ocasião, fora deslocado para a Roscosmos.

A partir daqui, é possível ver um padrão, ainda mais se analisarmos a trajetória do ex-chefe da agência espacial russa antes de 2018: entre 2008 e 2011, Rogozin atuou como embaixador da OTAN, antes de assumir o posto que Borisov está deixando agora.

Durante seu tempo como vice-Primeiro-Ministro, Rogozin se envolveu em uma série de crises diplomáticas, desde a Crise na Crimeia de 2014, e aos estranhamentos com a SpaceX e a NASA, de onde saiu a menção ao trampolim, devolvida na mesma moeda por Elon Musk em 2020, quando a Crew Dragon voou pela primeira vez.

Rogozin chegou a ser declarado persona non grata na Moldávia, e incluído na lista de sancionados de Barack Obama, por conta da invasão e anexação da Crimeia, por ser o cabeça da máquina de guerra russa. Durante os 7 anos em que esteve no comando, ele usa o hoje bem conhecido discurso exagerado pró-Rússia e anti-Ocidente.

Em 2018, Rogozin foi despachado para a Roscosmos, que já estava em crise há tempos. A agência havia sido convertida, três anos antes, de um braço estratégico militar para uma corporação estatal, com o então diretor acabando na cadeia, por fraude. Não que as coisas tenham diferido depois.

Assim como aconteceu com Rogozin no passado, deslocamento de Borisov para a Roscosmos é, para todos os efeitos, uma punição (Crédito: Ramil Sitdikov/Sputnik)

Assim como aconteceu com Rogozin no passado, deslocamento de Borisov para a Roscosmos é, para todos os efeitos, uma punição (Crédito: Ramil Sitdikov/Sputnik)

O importante aqui é que para o presidente Vladimir Putin, o remanejamento de Rogozin para a Roscosmos em 2018 foi um rebaixamento, uma punição, o mesmo valendo agora para Borisov. Seria o equivalente a deslocar o general Lloyd Austin, atual Secretário de Defesa dos EUA, comandante das Forças Armadas do país que responde apenas ao presidente Joe Biden, para dirigir a NASA, uma agência civil.

O governo russo nunca explica por que alguém foi movido de cargo A para B, mas como Rogozin não sabe ficar calado, é possível que ele tenha criado atritos desnecessários entre o Kremlin e outros países, especialmente os EUA e a União Europeia.

A campanha desastrosa na invasão à Ucrânia, em que os russos não conseguem de jeito nenhum uma capitulação, é motivo mais do que suficiente para sacar Borisov do comando do complexo militar. Segundo o site Moscow Times, ele fracassou em implementar o programa de rearmamento do país, o que prejudicou a campanha da "operação militar especial".

Roscosmos vai mudar? Não se empolgue

Há quem acredite que com Borisov no comando, a Roscosmos vai voltar a ser administrada por alguém responsável e menos propenso à politicagem, e ao menos alguns indícios de que as coisas podem voltar ao normal estão aparecendo.

Tão logo Borisov foi anunciado como novo diretor, a Rússia e os Estados Unidos confirmaram uma nova rodada de "troca de passageiros", com a cosmonauta russa Anna Kikina voando na Crew Dragon, e o astronauta americano Frank Rubio na Soyuz, ambos rumo à ISS.

Ainda assim, é bom ficar com o pezinho atrás. Primeiro porque Borisov está chegando à agência da mesma forma que Rogozin em 2018, em uma ordem do Kremlin (leia-se Putin) que, para todos os fins e feitos legais, é um castigo por fazer menos que o esperado no comando do complexo militar do país.

Segundo, Borisov é um militar e ainda segue a cartilha de Moscou, no que Putin é o comandante e a palavra dele não deve ser questionada. Por mais falastrão que Rogozin fosse, ele nunca contrariou o presidente e seguiu, à sua maneira, a narrativa oficial.

Não se engane: com ou sem Rogozin ou Borisov, quem manda no programa espacial russo é o Putin (Crédito: stux/Pixabay)

Não se engane: com ou sem Rogozin, ou Borisov, quem manda no programa espacial russo é o Putin (Crédito: stux/Pixabay)

O que podemos esperar é que talvez, TALVEZ, Borisov seja mais contido e consiga separar os esforços na pesquisa espacial do resto, quem sabe em atitudes mais concretas. Voltar na polêmica envolvendo a tentativa de piratear o observatório Spektr-RG, desenvolvido em conjunto com o Instituto Max Planck da Alemanha, atualmente desativado, é um bom começo.

Rogozin se dando bem?

Por outro lado, o hoje ex-diretor da Roscosmos pode não estar tão feio na foto com Putin, ao contrário do que muitos pensam. É fato que durante a gestão de Rogozin, as atividades da agência ficaram muito abaixo do esperado: em 2020, foram feitos apenas 30 de 83 lançamentos programados, e a construção e restauro de cosmódromos, incluindo o de Vostochny, estão mais que atrasados.

Por outro lado, o Moscow Times nota que Rogozin ainda estaria nas graças de Putin, segundo a agência de notícias independente Meduza, citando que "Putin gosta dele, e há muito tempo". Sua remoção da Roscosmos pode ter sido por desgaste de imagem, mas ele não deverá ficar sem cargo por muito tempo, algo confirmado por Dmitry Peskov, porta-voz do presidente.

No terceiro trimestre, as regiões de Donetsk e Luhansk, que a Rússia "libertou" da Ucrânia em sua "operação militar especial", deverão conduzir um referendo para decidir se o povo aceita, ou não, que ambas sejam anexadas à Rússia. Em caso positivo, a agência Meduza especula que Rogozin possa ser apontado como administrador da provável (inevitável?) nova região do país.

Fonte: Moscow Times

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