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ISS e o joguinho de vai e volta da Rússia

Diretor da Roscosmos disse que Rússia sairia da ISS após 2024, mas voltou atrás; compromisso a longo prazo continua, por enquanto

08/08/2022 às 11:11

A Estação Espacial Internacional (ISS) é um dos vários pontos de discussão entre a Rússia e os Estados Unidos nos últimos meses, mais precisamente entre suas respectivas agências espaciais, a Roscosmos e a NASA.

A invasão à Ucrânia, que acabou por levar o atual discurso político anti-ocidente do Kremlin ao espaço, aumentou as tensões ao ponto do projeto ser ameaçado; mais de uma vez, a agência russa ameaçou sair do consórcio mais cedo do que a NASA presente descomissionar a estação.

Estação Espacial Internacional (Crédito: Divulgação/NASA)

Estação Espacial Internacional (Crédito: Divulgação/NASA)

Em março de 2022, o então diretor de Roscosmos Dmitry Rogozin publicou nas redes sociais uma série de ameaças ao governo norte-americano, apontando diretamente para a continuidade da parceria entre EUA e Rússia na ISS.

Citando as sanções impostas a seu país pelo ocidente, que se uniram a rusgas envolvendo o Programa Artemis e as cápsulas Soyuz, o então executivo-chefe da agência advertiu que os russos não estenderiam o prazo de permanência na estação espacial, que em tese segundo a NASA deve ser desativada e reentrar na atmosfera em 2031 (na prática, um pouco além), e prometeu pular fora do barco em 2024 ou 2025.

A ameaça foi no formato pacote completo, incluindo uma sátira, com fundo de verdade, de que os russos desacoplariam o Segmento Orbital Russo (ROS), responsável pela propulsão, controle de altitude e sistema de manobras para desviar de detritos, do resto da ISS. Esta por si só é uma proposta absurda, visto que o módulo principal, controlado pela NASA, é o gerador de energia e controlador das manobras.

Uma separação total não só deixaria o resto da estação estático, como o ROS ficaria sem energia em pouco tempo, mesmo com as cápsulas russas Progress levando propelentes em um ritmo constante. Ou seja, cada módulo é essencial, e somente uma relação simbiótica entre as partes garante o funcionamento adequado da ISS.

Ainda em março de 2022, a NASA afirmou que ambas agências negociavam a permanência da Rússia por mais tempo, idealmente pelo resto do tempo de operação da ISS, mas as coisas mudaram quando Rogozin foi substituído no comando da Roscosmos por Yury Borisov, ex-vice-Primeiro-Ministro e até pouco tempo atrás, responsável pelo parque industrial-militar russo; seu remanejo inclusive foi visto como uma punição, por sua incompetência ao não encerrar a "operação militar especial" na Ucrânia rapidamente, com uma vitória para a Mãe Rússia.

Tão logo assumiu, Borisov reforçou a antiga ameaça de Rogozin, ao dizer que a Rússia sairia da ISS em 2024; sob seu ponto de vista, os dois próximos anos dariam tempo para a Roscosmos, sob supervisão direta do presidente Vladimir Putin, dar início aos planos de uma estação orbital própria, no que a China seria a óbvia parceira, também nos planos para uma base lunar permanente e conjunta.

Sergey Krikalev, ex-cosmonauta e diretor-executivo para voos tripulados da Roscosmos, palestra durante o 70.º Congresso Internacional de Astronáutica, realizado em 2019 nos EUA (Crédito: NASA) / iss

Sergey Krikalev, ex-cosmonauta e diretor-executivo para voos tripulados da Roscosmos, palestra durante o 70.º Congresso Internacional de Astronáutica, realizado em 2019 nos EUA (Crédito: NASA)

A ameaça de Borisov não teve uma vida longa, e pouco tempo depois, foi desmentida por completo por outro executivo-chave da Roscosmos. Sergey Krikalev, ex-cosmonauta, é o diretor-executivo do departamento de voos tripulados, e responde diretamente por qualquer coisa que voe para o espaço via Rússia comandado por humanos. O que é quase tudo, hoje em dia.

Na última quinta-feira (4), Krikalev confirmou, em uma coletiva de imprensa a respeito do próximo lançamento conjunto de astronautas/cosmonautas entre a NASA e a Roscosmos, que a agência russa seguirá colaborando a longo prazo na ISS, desde que o estado geral do laboratório orbital permita sua manutenção para além de 2024, o que, pela primeira vez, foi mencionado pela agência russa como um possível empecilho para a continuidade do país no projeto.

"De modo a continuar (a cooperar com a NASA na ISS), as condições técnicas devem ser avaliadas com cuidado, o que está sendo feito neste momento por especialistas russos (...). Claro, a estação chegará ao fim da linha eventualmente, mas por enquanto, estamos trabalhando para estender o período de operação da ISS."

Sobre as recentes declarações negativas de Borisov (e de certa forma, ao conjunto da obra de Rogozin), Krikalev disse o seguinte:

"A cooperação é muito importante em um programa como este, para todos os países membros (...). Sobre as declarações a respeito de 2024 (o ano em que a Rússia se retiraria da ISS, segundo Rogozin e Borisov), creio que algo se perdeu na tradução. Na verdade, elas diziam que a Rússia não sairá do programa antes de 2024. Isso significa que até o fim deste prazo, nada muda.

Além de 2024, talvez 2025, 2028 ou 2030, uma decisão concreta sobre o encerramento do programa seja tomada, com base nas condições técnicas da estação, e com o consenso de todos os países membros."

"Problemas de tradução" ou não, o fato é que Krikalev adotou um discurso muito mais ameno e conciliador, colocando a pesquisa científica e a exploração do espaço à frente da política, algo que Rogozin não estava a fim de fazer, e aparentemente, Borisov também não.

Resta saber qual será a estratégia adotada daqui por diante, e claro, se o camarada Putin concorda com o que Krikalev disse.

Fonte: Ars Technica

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