Ronaldo Gogoni 16 semanas atrás
O administrador da NASA Jared Isaacman tem pelo menos dois abacaxis para descascar em 2026: a missão Artemis II, o primeiro voo tripulado ao redor da Lua em décadas, e reminiscências do primeiro teste tripulado da cápsula Starliner, realizado em 2024.
O primeiro teve dois vazamentos consecutivos detectados, enquanto o relatório mais recente acerca da missão malfadada da cápsula da Boeing a classificou como uma Falha Classe A, a mais grave da escala.

NASA anda enrolada com problemas da Artemis II, e Starliner não acabou em catástrofe por MUITO pouco (Crédito: NASA)
A Artemis II está bem atrasada, disso não há dúvidas. A NASA originalmente marcou a missão, que realizará o primeiro flyby lunar tripulado em décadas, para ser lançada entre 2019 e 2021, mas de lá a data foi jogada para 2023, depois 2024, 2025, e a mais recente previa o lançamento (sem piadinhas) para 1.º de abril de 2026, após mais dois adiamentos recentes.
O foguete SLS e a cápsula Orion, já devidamente posicionados na doca de lançamento no Centro Espacial Kennedy, deveriam ser lançados agora em fevereiro, mas um teste realizado no dia 02/02/2026 revelou um vazamento de hidrogênio líquido, detectado durante uma simulação da contagem regressiva. Não obstante, uma válvula ligada ao módulo pressurizado da cápsula Orion, que acomoda a tripulação, teria que ser refixada.
Isso fez a NASA remarcar a data de lançamento para março de 2026, visto que a operação para conter o vazamento e apertar a válvula solta demorou mais que o previsto, mas de qualquer forma, um novo teste realizado no dia 19/02 concluiu que tudo estava nos conformes. Claro, a famosa eficiência alemã da agência (sorry, not sorry) com procedimentos de segurança se fez presente outra vez, e mais um teste foi agendado para o dia 21/02.
O resultado foi a detecção de outro vazamento, desta vez de hélio, no estágio superior do SLS, que apesar de ser bastante seguro, não é imune a bugs aqui e ali. O problema é que desta vez a falha foi considerada grave, e o foguete teve que ser movido de volta para o Edifício de Montagem de Veículos (Vehicle Assembly Building, ou VAB), para que reparos sejam feitos de forma adequada.

SLS e cápsula Orion posicionados para missão Artemis II, antes de voltarem para o VAB (Crédito: Ben Smegelsky/NASA)
A missão Artemis II seria adiada para abril, com o dia 1.º sendo o mais provável para o lançamento, mas em uma postagem no X, Jared Isaacman se limitou a dizer que a falha inviabilizou o mês de março e, por enquanto, estão comprometidos a realizar a empreitada daqui a pouco mais de 30 dias, mas uma data concreta só será fixada posteriormente, quando todas as falhas tiverem sido identificadas e debeladas.
Os astronautas Reid Wiseman (comandante), Victor Glover (piloto), Christina Koch e Jeremy Hansen (especialistas de missão) já estavam inclusive em quarentena, mas tiveram que sair visto que não há nada concreto para a Artemis II; a NASA pretende mover o SLS do VAB de volta à plataforma de lançamento no dia 24/02/2026, e nos próximos dias deverá realizar uma coletiva de imprensa, para explicar publicamente o que aconteceu e revelar os planos atualizados para a missão.
Enquanto isso, a missão Artemis III continua parcialmente agendada para 2028, visto que esta depende da versão lunar da Starship, que até agora ninguém sabe, ninguém viu.
A paranoia da NASA em relação à segurança mais do que se justifica, quando lembramos de desastres como o da missão Apollo I, e as últimas dos ônibus espaciais Challenger e Columbia; a Apollo XIII só foi salva graças ao trabalho conjunto de Tom Hanks, Bill Paxton, Kevin Bacon e Ed Harris.
Por isso mesmo é assustador descobrir agora, quase dois anos depois da sucessão de trapalhadas envolvendo a cápsula Starliner, que a missão de teste tripulado de 2024 só não acabou em uma nova tragédia por uma combinação de sorte e habilidade dos astronautas Butch Wilmore e Suni Williams, que conseguiram acoplar a cápsula à Estação Espacial Internacional (ISS) com relativa segurança.
Na última quinta-feira (19), a NASA liberou para acesso público o relatório (cuidado, PDF) publicado por um time independente criado em 2025 para averiguar todos os erros cometidos pela Boeing no projeto e no lançamento da CST-100, e classificou o incidente como uma "Falha Classe A", a mesma atribuída à perda da Challenger e da Columbia, que vitimaram ambas as tripulações em 1986 e 2003, respectivamente.
Dando uma repassada rápida no ocorrido, a missão da Starliner apresentou problemas com os propulsores de manobra e subiu vazando hélio de forma descontrolada, uma ocorrência que não foi resolvida; como se não bastasse, ela não possuía um modo de desacoplamento remoto, que a Boeing considerou "desnecessário", e só voltou à Terra (sem a tripulação) após receber um patch. Wilmore e Williams permaneceram meses na ISS (a missão duraria originalmente apenas alguns dias) até voltarem à Terra em uma cápsula Dragon.
O mais absurdo dessa história é lembrar que o Programa de Tripulações Comerciais da NASA (CCP) só saiu do papel quando a Boeing entrou na concorrência, e esta recebeu bem mais grana que a SpaceX; a NASA ainda acredita que a Starliner pode voltar a ser usada, mas seria usada em menos missões, o que elevaria o custo de cada lançamento ainda mais.
A administradora associada da NASA Amit Kshatriya descreveu o rolo com a Starliner durante coletiva de imprensa como "um evento realmente desafiador" na história recente da agência, que "quase teve um dia terrível" na ocasião, apontando que a missão tripulada de testes esteve a um dedo de distância de uma catástrofe, que muito provavelmente levaria à perda de vidas.
A Boeing amargou um prejuízo financeiro de US$ 2 bilhões só por causa da Starliner, o que muitos entendem como outro reflexo da política atual de "contadores de feijões" da empresa: profissionais da área de finanças passando por cima de procedimentos de segurança da engenharia e dando pitacos na gestão como forma de economizar, resultando em cortes grotescos em projetos apontados como as causas dos vários acidentes e incidentes com o 737 Max, que vitimaram 346 pessoas e levaram a um processo bilionário.