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Von Braun vs Korolev: um nazista e um traidor soviético na Corrida Espacial

Entenda como Wernher von Braun, um ex-oficial da SS, e Sergei Korolev, um ex-traidor da Mãe Rússia, se tornaram os arquitetos da Corrida Espacial

30/10/2019 às 16:20

Wernher von Braun e Sergei Korolev são considerados os principais nomes por trás da Corrida Espacial, o engenheiro astronáutico e o cientista de foguetes que carregaram nas costas os programas espaciais americano e soviético. O que nem todo mundo sabe é que ambos foram figuras controversas no início de suas carreiras, cada um à sua maneira.

Embora seja de conhecimento público que von Braun foi um dos muitos oficiais nazistas "contrabandeados" para a América, no fim da Segunda Guerra Mundial, poucos sabem que Korolev foi condenado à morte por traição à URSS e amargou anos em um gulag, não rodando por muito pouco.

Wenher von Braun e Sergei Korolev

Wernher von Braun: da V-2 ao Saturn V

Nascido em 1912, em uma parte do império alemão que hoje faz parte da Polônia, Wernher von Braun se interessou pelo espaço ainda na juventude, tendo sido pupilo do físico e engenheiro Hermann Oberth, considerado um dos pais da ciência de foguetes. Aos 20 anos se formou em Engenharia Mecânica e com 22, em 1934, já era Doutor em Física, com uma tese sobre combustão. Suas pesquisas com foguetes na Alemanha foram curiosamente ajudadas por uma brecha no Tratado de Versalhes, que não incluiu o ramo científico na lista de tecnologias proibidas ao perdedor da Primeira Guerra.

Sua relação com o Partido Nazista nunca foi muito clara. De acordo com os registros, von Braun teria se aproximado do governo vigente com o único intuito de conseguir financiamento para suas pesquisas, focadas inicialmente na exploração espacial. Em 1947, afirmou em depoimento colhido pelo Exército dos Estados Unidos que foi forçado a entrar no partido em 1939, pois na época ele atuava como diretor técnico do Centro de Pesquisas de Peenemünde (outros técnicos teriam passado pela mesma situação). No entanto, registros indicam que ele se filiou dois anos antes, em 1937.

Wernher Von Braun e oficiais nazistas em Peenemunde

Von Braun (de terno) e oficiais nazistas (general Friedrich Olbricht à frente, de óculos, posteriormente um dos que planejou o ataque a Hitler - em 1944) posam para foto em Peenemünde, em 1941. O broche com a suástica na lapela demonstrava filiação ao partido. Relatos de trabalhadores da base dizem que Von Braun vestia o uniforme da SS em reuniões oficiais, algo que ele afirmava ter feito apenas uma vez.

Pelo resto da vida von Braun afirmou que sua filiação ao partido e à SS em 1940, sob a qual ele chegou ao ranking de Sturmbannführer (major, logo, um oficial), foram procedimentos meramente políticos que o permitiram continuar trabalhando. A essa altura, Hitler já estava de olho em Peenemünde e sua utilidade na guerra, ao invés de foguetes para o espaço.

A tese de doutorado de von Braun era a parte tornada pública de um trabalho muito maior, envolvendo combustíveis líquidos para foguetes, essa parte taxada como confidencial pelo exército alemão. Usando o seu trabalho e o do físico Robert H. Goddard (inventor do primeiro foguete com combustível líquido e outro "pai"da Ciência de foguetes), ele desenvolveu para o governo o foguete Agreggat 4 ou A4, mais conhecido pelo nome Vergeltungswaffe 2 (Arma de Vingança Nº 2) ou simplesmente, V-2.

Usando combustível líquido, o V-2 foi o primeiro míssil balístico guiado por sistemas de navegação do mundo, lançado do Mar Báltico tendo Londres e as cidades holandesas de Antuérpia e Liège como alvos.

Claro, eles nem sempre funcionavam direito:

Ao todo, os ataques da V-2 causaram cerca de 9 mil mortes, mas mais impressionante é saber que aproximadamente 12 mil trabalhadores morreram nas fábricas como a Mittelwerk, devido trabalhos forçados. De qualquer forma, a tecnologia envolvida na construção do foguete e a taxa de sucesso nos ataques, mesmo que eles não fossem sempre certeiros chamou a atenção tanto do Pentágono quanto do Kremlin, e a ordem ao fim da guerra era capturar von Braun a todo custo.

Quando a casa caiu, Wernher von Braun preferiu se render aos americanos do que aos soviéticos, analisando que seria melhor tratado na América se cooperasse. Assim, ele e outros cientistas do projeto da V-2 foram transferidos através da Operação Clipe de Papel para os EUA. Ao todo, 1.600 cientistas foram retirados da Alemanha.

Alistado inicialmente no Exército, von Braun foi responsável pelo satélite Pioneer 1, e quando os soviéticos começaram a sair na frente no espaço acabou movido com seu pessoal para a NASA, de modo a usar sua experiência acumulada para colocar os Estados Unidos na briga. Ele foi o primeiro diretor do Marshall Space Flight Center e desenvolveu o monstruoso Saturn V, um foguete forte o bastante para retirar a cápsula de voo do campo gravitacional terrestre, de modo a alcançar a Lua.

Sem a contraparte do Dr. Strangelove (Stanley Kubrick usou von Braun e outros cientistas, como John von Neumann e Edward Teller, o "pai" da Bomba H, bem como o estrategista político Herman Kahn, como base para compor o personagem que assim como o alemão, também era um cientista nazista trazido para a América pela Operação Clipe de Papel), os Estados Unidos teriam chegado muito depois à Lua, isso se chegassem.

Wernher von Braun faleceu em 1977, cinco anos depois do fim das missões Apollo e um ano antes do primeiro voo de testes da USS Enterprise, sendo que o projeto dos ônibus especiais não era dele; este vencera uma ideia sua de focar nas missões para Marte, a partir dos anos 1980.

Sergei Korolev: do gulag ao Sputnik

Como a União Soviética ficou chupando o dedo, a solução foi recorrer a técnicos internos, para trabalharem em conjunto com os poucos cientistas nazistas que conseguiram capturar. Curiosamente, boa parte da "prata da casa" estava cumprindo pena por subversão, incluindo Andrei Tupolev, o designer de aviões que na época já era famoso pelo TB-1 e pelo TB-3, este tendo conseguido pousar no Pólo Norte. Sergei Korolev foi outro desses azarados.

Nascido em 1906 em território hoje pertencente à Ucrânia, Sergei Pavlovich Korolev também se interessou por Ciência ainda jovem, embora no início estivesse focado mais em aviação e propulsão de foguetes na aeronáutica. Seu mentor era justamente Tupolev, que o orientou na sua educação e de outros jovens engenheiros e designers aeronáuticos, para atender a demanda do Partido Comunista.

em 1932, Korolev já era chefe do Grupo de Estudos para Movimento Reativo, ou GIRD, um dos primeiros grupos de cientistas soviéticos dedicados ao trabalho com motores de propulsão a jato. Em 1933 ele foi fundido a outro grupo de estudos de combustíveis por ordem do partido, criando assim o Instituto de Pesquisa para Propulsão à Jato (RNII), em que Korolev chegou à posição de engenheiro-chefe em 1936.

Sergei Korolev / Wernher von Braun

Mugshot de Korolev, datado de 1940

Em 1938, veio a prisão. Como uma das consequências do Grande Expurgo, que entre 1936 e 1938 eliminou dissidentes e membros do partido que não fossem confiáveis, muitos cientistas foram acusados de traição e sabotagem, incluindo o próprio e Tupolev, que estava a frente de outros projetos. Torturado para extrair uma confissão, Korolev foi sentenciado a morte e transferido em 1939 para um gulag na Sibéria, onde ele ficou menos de um ano, mas foi o bastante para deixa-lo marcado por toda a vida: ele perdeu quase todos os dentes ao desenvolver escorbuto, uma doença típica de uma alimentação precária.

Entre 1940 e o fim da guerra, Korolev e Tupolev, entre outros foram designados a trabalhar forçadamente em designs de aviões a jato, mas a execução de inúmeros cientistas durante o expurgo cobrou seu preço: o programa ficou bem atrás do similar desenvolvido pela Alemanha nazista (não o trabalho de von Braun), com caças como o Me 262 Schwalbe e a insanidade Me 163 Komet, basicamente um foguete.

Embora a União Soviética tenha perdido Wernher von Braun, ela ficou com o "prêmio de consolação": diversas unidades do V-2, as quais foram repassadas para Korolev, já com o posto de coronel do Exército Vermelho. sua missão era fazer engenharia reversa nos foguetes e aprender o que fosse preciso para que a URSS fosse capaz de desenvolver suas próprias armas, já antecipando que os EUA usariam o time de Peenemünde para o mesmo fim.

Em 1947, o míssil R-1, uma réplica funcional estava pronta. Ele foi essencial no desenvolvimento de armas melhores nos anos seguintes, mas ele próprio era bem tosquinho: sua fiação atraía vermes e ratos, e conta-se que um incidente do tipo em 1953 foi resolvido com o uso de "muitos técnicos e gatos". Este e outros mísseis posteriores, como o R-7, o primeiro ICBM do mundo, eram designs de Korolev.

Lançado pela primeira vez em 1957, ele foi o míssil que acendeu todos os alarmes em Washington, com a possibilidade de um ataque nuclear vindo de Moscou sem aviso, o que apressou o desenvolvimento de armas similares dos Estados Unidos. O primeiro foi o SM-65 Atlas, seguido pela série Minuteman, ativos até hoje.

Ainda em 1957, uma versão modificada do R-7 colocou o Sputnik em órbita e em 1961, o mesmo míssil mandaria Yuri Gagarin para o espaço, ambos feitos novamente com a assinatura virtual de Korolev. Ele era considerado tão essencial que ele não era mencionado nominalmente nos projetos, sendo identificado como "chefe de design", ou apenas "chefe", para evitar que ele fosse identificado e morto por espiões.

A essa altura, Korolev já era o único comandante de todo o programa espacial soviético, sendo responsável pelos programas Sputnik, Vostok e Voskhod, além de dar o pontapé inicial no programa Soyuz e no foguete N-1, ambos também seus designs, embora ele não tenha os visto completos em vida.

Sergei Korolev morreu em 1966 e a URSS tinha agora um problema: ela não havia treinado um sucessor para ocupar o cargo e pior, ele agia como meio de campo entre os projetos funcionando como um reloginho e a politicagem de Moscou, que queria resultados imediatos. Sem Korolev, não havia ninguém com culhões para peitar Moscou.

Saturn V e N-1

Saturn V e N-1; humano para escala

O resultado, os desastres seguidos das explosões catastróficas dos N-1 e a tragédia da Soyuz-1 em 1967, que vitimou o cosmonauta Vladimir Komarov; ambos projetos acumularam erros e gambiarras porque o governo queria tudo ao mesmo tempo agora e como consequência, a Rússia perdeu a chance de chegar à Lua antes dos EUA.

Ainda assim, os soviéticos ficaram à frente de todos os outros feitos no espaço, mas só enquanto Korolev estava vivo.

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