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For All Mankind - Resenhamos a excelente série da Apple

07/11/2019 às 1:57

For All Mankind é ao mesmo tempo um pesadelo e um sonho pros nerds de espaço. Uma série de história alternativa, conta o que aconteceria caso os russos tivessem vencido a corrida espacial, o que ironicamente se torna o começo de tudo, e não o fim.

For All Mankind - Os russos venceram

A série mistura personagens reais, como Neil Armstrong, Michael Collins, Buzz Aldrin, Werner Von Braun e Gene Kranz  com outros fictícios, o que é mais fácil para trabalhar as questões morais dúbias e a parte "drama" de For All Mankind, que começa com a NASA algumas semanas antes do lançamento da Apollo 11, sendo surpreendida com um lançamento soviético que culmina em um pouso na Lua e o cosmonauta Alexei Leonov dedicando aquele momento "ao seu país, seu povo e ao modo de vida marxista-leninista".

Na série o estado adiantado do programa lunar soviético ter passado despercebido é considerado "o maior fracasso de inteligência da história dos Estados Unidos" e a missão da Apollo 11 é marcada pela pressão. Ao mesmo tempo em que não podem errar, ninguém se importa. A Casa Branca cancela o telefonema que Nixon faria com os astronautas, afinal "ninguém liga pra quem chega em segundo lugar".

Internamente a NASA tenta entender como perderam a Lua. O bode expiatório parece ser Werner Von Braun, que sofre uma emboscada em uma comissão no Congresso e tem seu passado nazista exposto, minando sua popularidade, e ele acaba saindo da NASA.

Von Braun e Margo em For All Mankind

Von Braun e Margo em For All Mankind

Originalmente planejado até a Apollo 20, em verdade ninguém sabe nem se a Apollo 12 iria decolar, o que irrita profundamente os astronautas da Apollo 10, que teriam sua chance na Apollo 15. Edward Baldwin, astronauta (fictício) da Apollo 10 acaba dando com a língua nos dentes e detona a NASA, bêbado para um jornalista, dizendo que eles perderam a ousadia depois do acidente da Apollo 1, e que por puro medo não pousaram a Apollo 10, chegando antes dos russos.

A História Real

A Apollo 10 foi lançada em 18 de maio de 1969 e serviu como um ensaio para a 11, levando Thomas P. Stafford, John W. Young e Gene Cernan. Eles chegaram a orbitar a Lua, separaram o módulo de pouso do módulo de comando e chegaram a 15 quilômetros de altitude da superfície lunar. Desacoplaram o módulo de ascensão e voltaram para reencontrar o módulo de comando.

Apollo 10 - Chegaram muito, muito perto.

Eles não tinham o software de pouso, nem trajes espaciais ou suprimentos. Em teoria poderiam pousar manualmente, mas só veriam a Lua pela janela e como o módulo de ascensão não tinha combustível suficiente para retornar à órbita, seria uma missão suicida.

Do ponto de vista soviético Sergei Korolev, o pai do programa espacial soviético e o único que conseguia botar ordem naquela desgraça burocrática que morreu em 1966, o N1, o foguete que levaria os cosmonautas explodiu nas quatro tentativas de lançamento e os soviéticos estavam perdidinhos, pelo menos 5 anos atrás dos americanos.

Já em For All Mankind...

Em For All Mankind aparentemente Korolev não morreu e o N1 acabou funcionando, mas não são as únicas mudanças. A Apollo 10 deles parece estar bem mais avançada e Deke Slayton testemunha que ele poderia sim ter pousado antes dos soviéticos, mas não estava nos objetivos da missão. Isso ajuda a pregar a tampa do caixão de Von Braun.

Em Washington a questão do prestígio acaba ficando em segundo plano, Nixon está preocupado com a militarização do espaço e é convencido que o próximo passo é o estabelecimento de uma base lunar, o que acarreta o cancelamento de outro projeto de Von Braun, o Skylab. As próximas missões serão voltadas para encontrar o local ideal para uma base, e assim é lançada a Apollo 12.

Ao mesmo tempo os comunistas lançam outra missão e para surpresa de todo mundo, quem abre o filtro do capacete e cumprimenta o mundo é... uma mulher.

Agora os soviéticos pousaram o primeiro homem E a primeira mulher na Lua.

A história real

Quando os americanos selecionaram astronautas para o Projeto Mercury, um dos médicos coordenadores do programa de seleção resolveu descobrir se mulheres passariam nos mesmos testes. O Governo não quis financiar, mas ele conseguiu grana privada, começou a procurar mulheres que fossem pilotos, engenheiras e que se dispusessem a ser testadas. O grupo ficou conhecido como Mercury 13 e algumas delas ficavam no top 3% de todos os candidatos, incluindo os homens, o que rendeu bastante publicidade.

Os russos, com medo de ficarem para trás, criaram seu próprio programa de cosmonautas femininas, o que culminou no voo de Valentina Tereshkova na Vostok 6, em 1963. Sim, foi apenas um golpe de publicidade, a próxima mulher a ir ao espaço na Rússia foi a Svetlana Savitskaya, em 1982, depois a Yelena V. Kondakova em 1994 e a Yelena Serova em 2014. Os americanos só mandaram uma mulher pro espaço em 1983, mas depois da Sally Ride mulheres se tornaram efetivamente parte do programa, com dezenas de outras astronautas.

Já em For All Mankind...

Nixon fica pucto e exige uma americana na próxima Apollo. A NASA fica desesperada, por ter que treinar a toque de caixa várias candidatas e para piorar Washington exige que Tracy Stevens, esposa do astronauta Gordon Stevens e queridinha da América, seja selecionada, pois ela é jovem, loira, bonita, piloto e a all american girl que idealmente representaria o american way of life. Só que nos testes ela sempre fica entre as últimas, mas é empurrada adiante pelo Sistema.

A injustiça

Em For All Mankind temos uma personagem chamada Margo Madison, ela é basicamente uma versão ficcional da Margareth Hamilton, uma engenheira de computação que na série é amiga pessoal de Werner Von Braun e acaba se tornando a primeira mulher no controle da missão da NASA. O que é legal e tchuns, mas é pura lacração, já havia uma mulher no controle da missão muito antes da Apollo 11, o nome dela era Frances "Poppy" Northcutt.

Poppy Northcutt, tungada em For All Mankind

Poppy Northcutt

Poppy entrou para a NASA como matemática e engenheira, trabalhando como calculadora, mas logo foi requisitada para projetos internos e acabou responsável por cálculos de trajetória de inserção orbital, trabalhando desde a Apollo 8, em 1968, até a Apollo 14. Ela foi a primeira mulher no controle da missão e meio que virou garota propaganda da NASA, e como toda engenheira qualificada de sua época, posou para fotos sexy promovendo a NASA.

Em uma cena de For All Mankind Margo passa por uma outra mulher no corredor e a cumprimenta com "Oi, Poppy", provavelmente reconhecendo a existência de Frances, mas ainda assim achei deselegante, até porque Poppy Northcutt está viva, bem e tem até uma conta no Twitter! Céus eu amo viver no futuro!

O Drama

For All Mankind é, claro, uma série dramática e temos o inevitável núcleo das mulheres dos astronautas, as disputas políticas, infidelidades e mulheres com excesso de laquê olhando para o infinito, mas está bem dentro do tolerável e Karen ser uma das candidatas a astronauta acaba amenizando muito o núcleo das esposas. Já o núcleo das astronautas, tem bem menos drama.

O Clima

A princípio a série deveria ser bem pra baixo, afinal o clima é de derrota, mas o roteiro preferiu ser mais complexo e fugiu disso como fugiu do otimismo incurável "vamos dar a volta por cima". O programa espacial continua pois ele precisa continuar, a NASA não está feliz com a militarização, mas ao menos ainda há um programa espacial para tocar e os astronautas querem acima de tudo voar.

E o momento mais triste até agora foi quando logo antes do lançamento da Apollo 11, lembram de retirar a placa presa ao trem de pouso da Águia, celebrando a chegada do Homem à Lua.

A série foi renovada já para uma segunda temporada, mas ainda é muito cedo para determinar que rumo irão tomar. Por enquanto ainda é tudo experimental demais para uma real disputa entre russos e americanos, mas eu acho que nesse futuro alternativo o encontro orbital Apollo–Soyuz de 1973 não irá acontecer.

Conclusão

For All Mankind é uma série de história alternativa, onde um momento que foi fundamental para moldar o ethos da sociedade americana da segunda metade do século 20 não aconteceu. A série explora as consequências disso, tanto individuais quanto mundiais. Não é dark, não é um Homem do Castelo Muito Alto, mas não é pewpewpew vamos derrotar os comunas. É uma série adulta, com pé no chão e que explora possibilidades. Facilmente entrou pro meu Top 3 de séries a assistir.

Sem mais spoilers do que já rolaram, apenas digo que o momento do pouso da Apollo 11 me deixou com o fiofó na mão como nenhuma série ou filme conseguiu, tem muito, muito tempo. E fazer isso com quem é macaco velho de televisão não é fácil

Cotação:

5/5 Valentinas

Como Assistir e Trailer:

For All Mankind pode ser assistido na Apple TV+, o serviço de streaming deles.

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