Ronaldo Gogoni 11 semanas atrás
Nesta terça-feira (24), a NASA anunciou uma nova rodada de mudanças envolvendo a exploração espacial, especificamente Lua, Marte e a órbita baixa da Terra: para a próxima década, a agência espacial norte-americana planeja realizar uma série de missões tripuladas de modo a estabelecer uma base em solo no satélite, que o administrador Jared Isaacman chamou de "o primeiro posto avançado da humanidade".
A construção da base lunar teve como baixa a estação orbital Gateway, que foi descartada; outros planos envolvem maior participação da NASA em estações comerciais que devem suceder a ISS, e uma missão rumo a Marte para testar um novo sistema de propulsão movido a energia nuclear.

Planos da NASA para os próximos anos incluem jogar Gateway no lixo, uma missão nuclear rumo a Marte e maior participação em estações orbitais comerciais (Crédito: NASA)
A motivação para a NASA e os EUA estarem se movendo para garantir uma presença permanente no solo lunar não poderia ser outra, a China. Anos atrás a CNSA e a Roscosmos, agências espaciais respectivamente chinesa e russa, anunciaram um acordo para a construção de uma estação em solo para garantir a exploração científica de longo prazo.
A iniciativa foi uma resposta aos Acordos Artemis originais, em que ambos os países se recusaram a participar por discordarem dos EUA e da NASA agindo como "caseiros", tendo o poder de decisão sobre quem seria permitido explorar o satélite e como fazê-lo. A Rússia também se recusou a atualizar seus sistemas, visto que a Gateway não teria compatibilidade com as arcaicas, porém funcionais, cápsulas Soyuz.
O tempo passou e a Rússia se envolveu com a guerra na Ucrânia, o que em tese mudou as prioridades de Moscou; Washington acredita que a China deve investir inicialmente sozinha para estabelecer as bases de uma estação permanente, movida inclusive pela descoberta recente de Hélio-3 no solo lunar, que ninguém ainda tem como minerar, mas não deixa de ser um recurso valioso.
Mesmo considerando todas as inúmeras dificuldades para mandar astronautas, cosmonautas ou taikonautas para a Lua, o que a atual administração dos EUA não pretende permitir é que os chineses cheguem antes. O estratagema apresentado pelo administrador Jared Isaacson, em "total acordo" com a política America First and Leading in Space do presidente Donald Trump, mantém os planos de uma missão tripulada, no caso a Artemis IV, à Lua até o fim de seu mandato
Haverá mais uma missão que inclui o uso da cápsula Orion e do foguete SLS, mas após a Artemis V, tudo será descartado em prol de plataformas comerciais de parceiras como SpaceX (a versão HLS da Starship) e Blue Origin (foguete New Glenn e lander Blue Moon). Foi mal, Boeing, não importa o quão seguro seja seu foguete e quanto o Congresso prefira mantê-lo, ele VAI rodar por ser caro demais. Isaacman chamou o projeto de "desenvolvimento glacial", que consumiu bilhões de dólares por mais de 20 anos, e gerou pouco resultado prático.
Nas suas palavras, a NASA se tornou complacente e preferiu agradar investidores e parceiros comerciais, em vez de fazer o que sabe, desenvolver ciência de ponta e inspirar:
"Bilhões de dólares gastos. Anos perdidos. Hardware que nunca foi lançado (para fora da órbita terrestre). Menos missões científicas. E poucos astronautas no espaço, o que significa menos crianças se fantasiando como astronautas no Halloween.
Eu não gosto disso. O presidente Trump também não. O povo americano já esperou por tempo demais."
Isaacman não está inicialmente preocupado com gastos; seu plano consiste em propor inovações para garantir que os EUA permaneçam na dianteira no espaço, e outros que se virem para pagar a conta. Em seu plano de longo prazo, que cobre ao menos toda a década de 2030 e além, a estação lunar Gateway rodou, mesmo com seus módulos em fase de construção no estado do Texas, para desespero do senador Ted "Zodíaco" Cruz.
Toda a infraestrutura e aprendizado envolvidos serão redirecionados para a estação em solo, mas do que exatamente estamos falando aqui?
Segundo Carlos Garcia-Galan, ex-vice-gerente de projeto da Gateway e agora responsável principal pela base lunar, vai envolver três fases e a cooperação de parceiras, que consiste em um plano "vitaminado" para o transporte de carga. Cada fase deve custar cerca de US$ 10 bilhões (~R$ 52,3 bilhões, cotação de 25/03/2026), o que é muito em se tratando de orçamento para a NASA, mas não passa nem perto do dedicado às Forças Armadas (US$ 839 bilhões só em 2026).
A primeira fase do plano já é bem ambiciosa: ao longo do ano de 2028, ao menos 21 lançamentos deverão ser realizados para transportar 4 toneladas de carga para a Lua, incluindo o rover VIPER (Volatiles Investigating Polar Exploration Rover, ou Veículo de Exploração Polar e Investigação de Materiais Voláteis), desenvolvido para vasculhar o solo nas áreas permanentemente na penumbra, em busca de recursos valiosos como gelo, por exemplo.
Já a segunda fase, de 2029 a 2032, envolve definir o local ideal para a instalação da base permanente, que será construída com 60 t de materiais divididos em 27 missões de transporte. Eles incluem rovers maiores e pressurizados para acomodar astronautas, equipamentos de energia solar e nuclear, torres de comunicação e escavadoras autônomas.
Por fim, a terceira fase envolve a construção dos habitats para presença humana de longo prazo, em tese para suportar quatro astronautas em missões mensais, Mais 28 missões devem transportar 150 t de material, que incluem reatores nucleares para geração de energia, mais rovers e instalações que permitam a manufatura local, de modo a depender menos de provisões vindas da Terra, além de dependências científicas e meios para mandar materiais coletados de volta. A estimativa é que a terceira fase seja concluída em 2036.
Olhando assim, é até sensato dizer que os americanos piraram na batatinha, ainda mais por não possuírem NADA capaz de levar grandes quantidades de carga para a Lua (sendo justo, a China também não tem), mas Jared Isaacman está chutando alto e longe, talvez inspirado por um certo descendente de irlandeses que disse que conquistar o Espaço é difícil, e por isso mesmo é preciso ousar.
Ah, sim: com o fim da Gateway, a cooperação dos EUA com países que participaram dos Acordos Artemis, que incluíam União Europeia (UE), Reino Unido, Japão, Canadá e até o Brasil (fato: não aprenderam nada), entre outros, não existe mais; a base lunar é um projeto 100% americano.
Em outro desenvolvimento, a NASA revelou preocupação com o estado das estações espaciais comerciais, iniciativas privadas de várias empresas voltadas a suceder a Estação Espacial Internacional (ISS), que se aproxima do fim de seu ciclo útil, ainda que estejam estudando estender seu uso até 2032... ou, sendo mais realista, pelo máximo de tempo que ela permitir.
O plano original usa o programa CLD (Commercial LEO Destinations), de modo a prover fundos a companhias inscritas, que incluem os suspeitos habituais SpaceX, Blue Origin e Northrop Grumman, e outras como Nanoracks, Space Villages, Relativity Space e Hamon Industries. No entanto, a gerente do programa da ISS Dana Weigel se queixou durante o evento de 24/03 da lerdeza dos projetos, embora tenha reconhecido o óbvio: financiamento parcial não é o bastante.
Segundo Weigel, a NASA considera duas alternativas, sendo uma delas manter o programa CLD, enquanto outra envolve uma aproximação mais direta em P&D, que inclui o desenvolvimento de um novo módulo central, que se conectaria à ISS e proveria a módulos de terceiros energia, propulsão e suporte de vida, provavelmente até as companhias aprenderem a andar com as próprias pernas.
Paralelo a tudo isso, a NASA anunciou uma missão voltada a Marte que testará a viabilidade de reatores nucleares como sistemas de propulsão; planejada para o fim de 2028, o Reator Espacial 1-Freedom será usado para testar novos sistemas de fornecimento de energia, o que poderia inclsuive viabilizar maiores missões a destinos mais longínquos, como Júpiter e além.
O SR-1 Freedom será equipado com pelo menos três helicópteros da classe Skyfall, ditos como sucessores do Ingenuity, que impressionou todo mundo ao provar que não é preciso usar plataformas antirradiação para pesquisar ambientes externos à Terra; ao invés do confiável RAD750, que roda sistemas RTOS, ele usava um chip Snapdragon 801 da Qualcomm, o mesmo equipado no Galaxy S5, e rodava Linux.
Claro que convém ir devagar com o andor, principalmente em tempos em que os EUA estão gastando rios de dinheiro para sustentar os ataques ao Irã, mas é fato que Trump quer resultados no espaço durante seu segundo e último mandato, e não está disposto a deixar a China ou qualquer outro país passar na frente em desenvolvimentos espaciais. Logo, vamos esperar para ver onde todas essas promessas vão dar.
No mais, fique com a conferência completa:
Fonte: NASA