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China encontra Hélio-3 em mineral da Lua, mas CALMA!

Descoberto pela missão Chang’e-5 da China, Changesite-(Y) contém traços de Hélio-3, mas ainda é cedo para fusão nuclear amanhã

19/09/2022 às 10:44

A missão Chang'e-5, lançada em 2020, foi um triunfo e tanto para a China: pela primeira vez desde 1976, ela conseguiu pousar na Lua e voltar com amostras do solo, em uma janela de tempo de ridículos 23 dias: ela foi lançada em 23 de novembro, pousou na região de Oceanus Procellarum em 1.º de dezembro, e retornou à Terra em 16/12.

Agora, cientistas anunciaram a descoberta de um novo mineral entre as amostras lunares, batizado como Changesite-(Y), sendo este o 6.º identificado na Lua e o 1.º pela China, só que este possui em sua composição traços de Hélio-3, o "combustível do futuro" que viabilizará a fusão nuclear comercial.

Entre o desejo de minerar a Lua atrás de Hélio-3, e realmente sermos capazes disso, há um mundo de distância (Crédito: Reprodução/James Vaughan)

Entre o desejo de minerar a Lua atrás de Hélio-3, e realmente sermos capazes disso, há um mundo de distância (Crédito: Reprodução/James Vaughan)

Claro, aqui no Meio Bit seguimos a máxima "devagar com o andor", logo, vamos dar uma olhada no que esta descoberta realmente significa.

O que é Changesite-(Y)?

A missão Chang'e-5, uma das mais ambiciosas do programa espacial chinês, foi composto de 4 módulos distintos:

  • O módulo de pouso, que chegou à Lua no dia 28/11/2020, equipado com uma perfuratriz e instrumentos de coleta. Este recolheu 2 kg de material (regolitos lunares);
  • O módulo de ascensão, que recebeu a carga e deixou a superfície da Lua, ao se separar do módulo de pouso, no dia 03/12;
  • O módulo orbital, que permaneceu em órbita para receber a carga do módulo de ascensão, que após transferi-la, foi desconectado e caiu na Lua. O orbital iniciou a viagem de volta no dia 08/12;
  • O módulo de retorno, lançado do orbital rumo à Terra no dia 16/12, com as amostras do solo lunar.

A missão fez da China a terceira nação, além dos Estados Unidos e União Soviética, a recuperar amostras do solo lunar, e a primeira desde o fim do programa Apollo, em 1976. Os regolitos provêm valiosas informações sobre a composição de corpos celestes, e amostras muito antigas difíceis de serem conseguidas.

A grande novidade veio na forma de um comunicado, emitido pelos veículos de informação nacionais (leia-se controlados por Pequim), anunciando a descoberta de um novo mineral no solo lunar, o 6.º identificado na história e o primeiro pelos chineses. Ele recebeu o nome de Changesite-(Y), em referência à missão Chang'e-5, que por sua vez, leva o nome da deusa da Lua na mitologia chinesa.

O Changesite-(Y) é um mineral de fosfato na forma de cristal, encontrado em partículas lunares de basalto (rocha vulcânica). Com um raio de apenas 10 mícrons, ele estaria presente nas amostras em uma proporção de 1:140.000 partículas.

Segundo a agência chinesa, o solo coletado teria em média 1,96 bilhão de anos, 1.000.000.000 a menos do que as amostras coletadas anteriormente por EUA e URSS, o que em tese explica por que ambos países não identificaram o mineral, oficialmente reconhecido como inédito, em suas expedições.

O que está chamando a atenção da comunidade científica, é a afirmação das autoridades chinesas de que os cristais de Changesite-(Y) contêm traços de Hélio-3 em sua composição.

O que é Hélio-3?

A gente já explicou com detalhes, confira o link no topo do artigo.

O que podemos acrescentar é o seguinte: o Hélio-3 está entre os elementos mais promissores a viabilizar o que é chamado Fusão Nuclear Aneutrônica, que não produz nêutrons como subproduto de reações. Assim como a fissão, a fusão tende a lançar elementos que contaminam materiais e afetam tecidos vivos, de maneiras que podem acabar com o seu fim de semana, a curto, médio e longo prazo.

Um reator de fusão aneutrônica, alimentado com Hélio-3, seria extremamente seguro e absolutamente limpo, pois não haveria lixo radioativo com o qual lidar depois. A parte legal dessa história é que já conseguimos realizar fusão do elemento em laboratório, mas em uma escala ridiculamente pequena.

Apenas 0,000137% dos átomos de Hélio do universo são Hélio-3, e ele é bem raro na Terra (Crédito: Build an Atom) / china

Apenas 0,000137% dos átomos de Hélio do universo são Hélio-3, e ele é bem raro na Terra (Crédito: Build an Atom)

Fusão nuclear Made in China?

Há um motivo simples para aquela piada, de que a fusão nuclear comercial será viável daqui a 20 anos, e todos os anos a previsão é revista, assim como a fórmula para o Ano do Linux no Desktop é YEAR(NOW())+1.

Fusão nuclear, com o que temos hoje, consome energia de mais e gera energia de menos. Mesmo fundir hidrogênio, o elemento mais simples e abundante que existe, demanda um consumo enorme, e a conta não fecha. Fundir Hélio-3 é ainda pior, exige ainda MAIS energia que Hidrogênio.

Poucas coisas no universo conseguem fundir Hélio-3 em larga escala, tipo... estrelas.

Mesmo o Hélio-3 não é essa Coca-Cola toda: cientistas teorizam que, embora o processo de reação de um reator aneutrônico seja limpo, subprocessos poderiam ser desencadeados e esses sim, resultariam em emissões radioativas e provavelmente, geração de mais lixo atômico.

Em suma, o Hélio-3 não é 100% limpo. O mais justo é apontar que ele seria o combustível menos sujo que existe, se conseguirmos desenvolver algo viável para usá-lo, mas até lá, é preciso conseguir uma fonte estável do elemento.

Ainda vai demorar um pouco, Marty (Crédito: Reprodução/Amblin Entertainment/Universal Pictures/NBCUniversal) / china

Ainda vai demorar um pouco, Marty (Crédito: Reprodução/Amblin Entertainment/Universal Pictures/NBCUniversal)

O que nos leva ao problema seguinte: apenas 0,000137% de todo o Hélio no universo é Hélio-3, e este é extremamente raro na Terra, ainda que especialistas digam haver 10 vezes mais reservas do que se pensava. No entanto, ele é abundante na Lua, e a descoberta do Changesite-(Y) comprova isso.

A China vinha mapeando reservas de Hélio-3 no satélite há algum tempo, e o pouso na região de Oceanus Procellarum foi bem calculado, devido ao solo mais jovem. Há a possibilidade de que o elemento possa ser mais facilmente minerado em algumas regiões da Lua, em detrimento de outras.

Todos os grandes players da exploração espacial expressaram o desejo de iniciar operações de mineração na Lua atrás de Hélio-3 e outros elementos, porém...

Quem vai minerar a Lua: China, EUA, UE ou Rússia?

A rigor? Ninguém. E por muito tempo.

Nenhuma nação tem foguetes funcionais para sair da Terra e ir à Lua, e uma operação de mineração implica em instalações de larga escala, e equipes permanentes que terão que viver em habitats com atmosferas artificiais. Tudo isso vai levar muito tempo para desenvolver, e consumirá muito, mas MUITO dinheiro.

Mesmo assim, é importante sair de algum lugar. A China tem planos bem definidos, que envolvem a conclusão da Estação Espacial Tiangong, e mesmo a NASA possui um cronograma preliminar, enquanto lembra que os acordos assinados em 1967 impedem qualquer nação de declarar posse da Lua, ou de regiões dela.

No entanto, ninguém considerou a exploração do satélite por companhias privadas, que em tese, não são obrigadas a se submeterem ao acordo; sobre isso, a NASA JPL diz que este é um problema a ser resolvido quando de fato chegarmos lá, o que vai demorar.

Fonte: Global Times

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