Carlos Cardoso 31/05/2026 às 19:25
Em 1987, John Byrne publicou sua seminal obra O Mundo de Krypton, uma história distópica sobre clones e a maior das Utopias, o Superman. Hoje a Realidade alcançou o que Byrne previu, com aterrorizante precisão.

Sim, o nome da mulher é Vara. Krypton era uma sociedade muito moderna e campeã de diversidade (Crédito: Reprodução/DC Comics/Warner Bros.)
Chamada de R3 Bio, segundo o MIT Technology Review, ela seria uma startup com uma proposta no mínimo assustadora, mas vendida como uma ideia otimista e positiva: eles querem criar, via engenharia genética, “sacos de órgãos” de macacos, para substituir os testes in vivo com animais. A princípio, a “coisa” seria um conjunto de órgãos com capacidade de se manter vivo, mediante linhas de nutrientes, mas sem nenhum sistema neural avançado.
Bancada por investimentos do bilionário Tim Draper (Twitter, Tesla, Skype, Baidu, Hotmail, etc.) e fundos de investimento relacionados com longevidade, a R3 operou por vários anos em modo furtivo, talvez por seu projeto ser bem controverso entre grupos de defesa de animais e... fãs de quadrinhos.
Sim. Uma das funções da Ficção Científica é nos alertar e preparar para problemas e situações que ainda não enfrentamos, mas que podem acontecer e, no nosso caso, os leitores do Superman no arco do genial John Byrne ouviram desesperadas sirenes de alerta ao ler a notícia.
A história, publicada em quatro partes, faz parte da reimaginação do Superman, e Byrne foi a fundo. No passado, Krypton era uma utopia hedonista, com robôs fazendo todo o trabalho, enquanto os kryptonianos viviam vidas quase imortais em busca de prazer, divertimento e até ciência, de vez em quando.
Eu digo quase imortais, pois eles eram como elfos de Tolkien, imortais se ninguém tentar matá-los. No caso, assim como a Feiticeira, não era magia, era tecnologia. A Ciência Médica em Krypton era avançadíssima, e cada kryptoniano quando nascia ganhava três clones, que ficavam armazenados em câmaras protegidas.
Os clones eram mantidos em perfeita saúde física e, caso o kryptoniano precisasse de sangue, tecidos ou órgãos completos, eles seriam retirados dos clones. Somente casos extremos, como destruição total do cérebro, tornavam a “morte” permanente.

RoboDoc. Pronto, o nome é meu, aguarde a série (Crédito: Reprodução/DC Comics/Warner Bros.)
Claro, nem tudo eram flores e, com o passar dos milênios, foi surgindo um movimento que achava errado o uso dos clones. Alguns chegaram a chamar o uso de clones médicos de escravidão e, na época da história de Byrne, manifestações violentas defendiam o direito dos clones.
Os partidários do uso dos clones argumentavam que eles não tinham mente, eram projetados para existir sem qualquer consciência ou senciência, eram meros corpos biológicos ou, como chamaríamos hoje, “sacos de órgãos”.
A coisa desandou quando uma mulher chamada Nyra anunciou o noivado de seu filho, Kan-Z, com uma jovem chamada Kayla. Eles já estavam namorando fazia algum tempo, e Nyra, conhecida por ser temperamental e possessiva, estava estranhamente feliz com o relacionamento de Kan-Z, a quem era extremamente apegada.
Durante o anúncio do noivado, Kan-Z entra no salão transtornado, mata a própria mãe e tenta se matar, mas é detido. É um escândalo, essas coisas simplesmente não acontecem em Krypton.

Tipo Matrix do Bem, mas não muito (Crédito: Reprodução/DC Comics/Warner Bros.)
Quase ao mesmo tempo, o corpo de Kayla é descoberto. Havia sido morta por Kan-Z pouco antes do matricídio. Eis que um dos robôs médicos faz uma revelação: um exame genético demonstrou que Kayla era geneticamente idêntica a Nyra.
Ela violou várias Leis kryptonianas, roubou um de seus clones e por métodos pouco explicados, fez com que ela desenvolvesse consciência, personalidade e identidade. Se nenhuma mulher era boa o suficiente para seu filho, ela o seria.
Fora o fato de transformar Krypton no Alabama do Espaço e tentar pagar um Édipo Reverso, Nyra inadvertidamente entregou para os Clonies, os defensores dos direitos dos clones, tudo que precisavam: a prova de que sim, com o tratamento correto os clones eram humanos - ok, kryptonianos - perfeitamente viáveis, e mantê-los presos e usá-los como fonte de peças de reposição era além de cruel.
O resultado foi uma guerra civil que durou mil anos, e eventualmente levou à destruição de Krypton, mesmo depois de a paz ter sido alcançada e os clones abolidos.
John Byrne trouxe à tona uma discussão ética fascinante, com paralelos com temas como aborto e eutanásia.
Historicamente estamos avançando. Hoje em dia experimentos com grandes primatas, como chimpanzés e orangotangos são proibidos praticamente no mundo todo, eles têm mais Direitos do que boa parte da população mundial de 250 anos atrás, mas outras espécies não contam com tanta consideração.
O campo dos xenotransplantes está avançando bem rápido. Técnicas como CRISPR são usadas para modificar geneticamente porcos para diminuir a rejeição de seus órgãos, vários porcos geneticamente modificados já foram produzidos -inclusive no Brasil- e a esperança é que tenhamos órgãos produzidos rapidamente, em quantidade e com baixa rejeição.
O argumento aqui é que porcos são criados para servir de comida, e se você vai fazer uma costelinha na AirFryer...
Sal, pimenta em flocos, alho, um limão espremido, azeite, deixe marinando por até um dia na geladeira, transfira para uma folha de papel alumínio, em formato de casulo para não vazar, coloque ¼ de copo de água, feche, 40 min na potência máxima, tire do papel alumínio, mais 15 min para dourar virando na metade do tempo. Me agradeça depois.
Por que não usar o mesmo animal para salvar vidas?
O povo contra-argumenta que porcos são inteligentes, amorosos, evoluídos e merecem o direito de existir em paz. Mesmo não concordando, admito que a argumentação é desconfortavelmente próxima dos defensores dos clones de Krypton, mas agora é a hora em que o fiofó cai do derrière: um X9 que participou de uma apresentação exclusiva para investidores diz ter ouvido planos assustadores de John Schloendorn, fundador da tal Startup R3.
Ele propôs criar clones sem cérebro para reposição de órgãos e tecidos, e eventualmente transplante total de cérebro, dando uma nova vida a pessoas com muito dinheiro, claro.
Na apresentação, ele usou como exemplo casos extremos de hidrocefalia, uma condição neurológica em que o feto não consegue drenar normalmente o fluido cérebro-espinhal, que se acumula no crânio, o que impede o desenvolvimento de todas as áreas nobres do cérebro. A criança acaba sem um telencéfalo altamente desenvolvido, nos casos extremos apenas as funções vitais básicas funcionam, não há cérebro para pensar, sentir ou existir.

Caso extremo de hidrocefalia (Fonte: Upward Migration of a Peritoneal Catheter Following Ventriculoperitoneal Shunt - Scientific Figure on ResearchGate. )
Schloendorn quer induzir artificialmente hidrocefalia nos embriões clonados e depois mantê-los vivos em cápsulas que cuidarão de nutrição, excreção, etc. Só que para isso, eles precisam nascer antes.
Ainda não há tecnologia para criar úteros artificiais A solução? Óbvio, mães de aluguel. Ele vai pagar mulheres para gestarem os fetos clonados. Mas só no começo.
Depois das primeiras safras, ele pretende usar clones de mulheres sem cérebro (não necessariamente loiras, pare com isso) para produzir as novas gerações de embriões sem cérebro.
É um cenário de filme de terror, que invoca a questão do que nos faz humanos, pois por mais que o clone sem cérebro não seja uma pessoa, o ato de intencionalmente criar o clone assim não seria a suprema desumanização?
Experimentos como os propostos por Schloendorn são proibidos em quase todo lugar, mas sabe-se lá o que acontece nos laboratórios secretos. Interesse não falta e, para tornar a coisa mais próxima ainda de um plano de um supervilão, foi revelado pelo The Wall Street Journal que Vladmir Putin alocou US$ 26 bilhões em pesquisas para ampliar a longevidade humana.
Não acho que vamos chegar a uma guerra civil mundial por causa de clones, nem a um cenário estilo Meninos do Brasil, com clones de ditadores perpetuando-os no poder, mas as perspectivas não deixam de ser perturbadoras.

Bons tempos em que o futuro colocava a gente apenas como baterias... (Crédito: Reprodução/Village Roadshow Pictures/Groucho II Film Partnership/Silver Pictures/Warner Bros.)
Uma alternativa otimista é que há pesquisas avançadas em bioimpressão 3D e clonagem de órgãos. Afinal, nossos órgãos se desenvolvem do zero uma vez, com o uso de células-tronco, ao menos em teoria, é possível induzir o crescimento de um órgão novo.
Se você perder a pontinha do dedo e for bem jovem, há grandes chances dele se regenerar, mas chegou na falangeta, já era. Outras espécies são bem melhores nisso. Lagartixas perdem o rabo sem nenhuma preocupação, salamandras e paulistinhas conseguem regenerar membros, nadadeiras, coluna espinhal, coração, olhos e parte do cérebro.
Planárias podem ser picotadas em pedacinhos e cada um se desenvolve em um animal completo. Chifres de cervos são órgãos vascularizados que se regeneram rotineiramente.
Kurt Connors, o vilão do Homem-Aranha conhecido como Lagarto é um cientista amputado que estava pesquisando uma fórmula ativadora para tentar regenerar seu braço. Mais uma vez a Ficção Científica com uma visão de um futuro possível.
Por enquanto somos vítimas de nossa complexidade. Só conseguimos regenerar naturalmente dois órgãos, a pele e o fígado (meus garçons agradecem), mesmo assim quanto mais velhos, mais ficamos com cicatrizes. Se for possível ativar esses genes, um paciente com doença renal receberá uma semente com células-tronco que produzirão um órgão novo geneticamente modificado para resistir à doença original, e ele se desenvolverá no próprio corpo.
Ou em um porco, confirmando mais uma vez que Bacon é Vida.