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DNA, Pompeia, e os mortos que não são o que pensávamos

Análise de DNA reescreve história dos mortos de Pompeia enterrados pelo Vesúvio, e desafia narrativas antigas

1 ano e meio atrás

As histórias dos mortos de Pompeia, pela erupção do monte Vesúvio em 79 EC, estão sendo revistas graças ao DNA: um estudo recente, que analisou os traços genéticos dos cadáveres de quase 2 mil anos, revela que certas narrativas populares entre arqueólogos e estudiosos, sobre quem eles eram e como viviam, não condizem com a realidade.

A pesquisa também mostrou que boa parte dos cidadãos de Pompeia eram descendentes de imigrantes, vindo principalmente do Oriente Próximo.

Quadro de 1822 "A Destruição de Pompeia e Herculano", de John Martin, após restauração de 2011 (Crédito: Tate Britain)

Quadro de 1822 "A Destruição de Pompeia e Herculano", de John Martin, após restauração de 2011 (Crédito: Tate Britain)

DNA revela história de Pompeia

Nós hoje sabemos muita coisa sobre o que aconteceu naquele fatídico dia em Pompeia, Herculano, e nos assentamentos vizinhos de Oplontis e Estábia, principalmente por culpa do próprio Vesúvio. A erupção de 79 EC é tida como uma das mais violentas da História, tendo liberado 100 mil vezes mais energia térmica que as bombas nucleares jogadas em Hiroshima e Nagasaki.

A população mal teve tempo de reagir, os que não foram soterrados em segundos pelo fluxo piroclástico, foram literalmente cozidos vivos, por uma onda de calor de mais de 600 °C, ou morreram asfixiados pela nuvem de gás e cinzas, que se estendeu por quilômetros. Milhões de toneladas de rocha e detritos soterraram as cidades por séculos, ao ponto de que elas foram consideradas míticas, até serem redescobertas e gradualmente escavadas por arqueólogos.

O vulcão acabou por congelar as cidades romanas no tempo, as construções de Pompeia e arredores são as mais bem preservadas estruturas do mundo antigo, cujos afrescos, mosaicos, utensílios, etc., ensinam muito dos costumes da época. Haviam até mesmo popinae ou termopólios, o que seriam a versão antiga de um "bandejão".

Os restos mortais dos moradores de Pompeia, preservados pelo Vesúvio, também contam histórias, embora elas tenham sido interpretadas na base do achismo pelos arqueólogos. Como os corpos foram encontrados, da sua disposição aos utensílios, como joias e outras coisas, levaram pesquisadores a atribuírem narrativas se guiando por seus próprios valores e percepções, sobre o que deveria ser uma sociedade romana da Antiguidade.

Dos cerca de 1.000 corpos encontrados nas ruínas, 104 foram preservados graças a uma técnica, desenvolvida por um arqueólogo chamado Giuseppe Fiorelli, que consistia em preencher os espaços onde os tecidos moles estavam, com gesso, mantendo os ossos no lugar. Por volta de 2014, uma pesquisa começou a analisar 86 dos modelos, e descobriu que muitos deles foram manipulados, incluindo remoção de ossos, mudança na forma dos corpos originais, e inclusão de pinos de metal para manter a estabilidade dos modelos.

A suposta família da "Casa do Bracelete Dourado"; DNA revelou serem todos do sexo masculino, e não eram parentes (Crédito: Archeological Park of Pompeii)

A suposta família da "Casa do Bracelete Dourado"; DNA revelou serem todos do sexo masculino, e não eram parentes (Crédito: Archeological Park of Pompeii)

Isso jogou uma série de dúvidas sobre as histórias contadas ao longo dos anos, de que elas teriam sido fabricadas, assim, os pesquisadores usaram métodos para extrair traços de DNA dos ossos, o que já se sabia ser possível; os resultados foram interessantes, para dizer o mínimo.

Uma das "histórias" mais conhecidas é a da suposta família que vivia na "Casa do Bracelete Dourado", chamada assim porque um dos corpos encontrados dentro dela estava usando o acessório, um bracelete de 600 g de ouro maciço, em que uma serpente de duas cabeças segura um medalhão com efígie de Selene, a deusa romana da Lua.

Por muito tempo, acreditava-se que o "dono" do bracelete era uma mulher, encontrada com o corpo de outro adulto, e de uma criança (que a "mulher" teria sido encontrada o abraçando), perto das escadarias da casa, buscando proteção; um quarto infante foi encontrado perto, no que pesquisadores atribuíram serem uma só família, composta pelo pai, mãe, e dois filhos.

A pesquisa recente, que analisou o DNA dos quatro corpos, contudo, revelou que todos eram do sexo masculino, e sequer eram aparentados entre si; por outro lado, foi possível determinar que ancestralidade de todos eles tinham origem no Oriente Próximo, uma região que compreende o Levante (Síria, Líbano, Israel, Palestina, e territórios próximos), a Anatólia (Turquia), os Bálcãs, a Trácia Oriental (território que hoje equivale à Turquia europeia, e partes da Grécia e Bulgária), o Egito, e o Crescente Fértil, que se estende até a Mesopotâmia (Irã, Iraque, e Kwait).

O "casal" encontrado na "Casa do Criptopórtico" eram dois homens, de ancestralidade norte-africana (Crédito: Archeological Park of Pompeii)

O "casal" encontrado na "Casa do Criptopórtico" eram dois homens, de ancestralidade norte-africana (Crédito: Archeological Park of Pompeii)

Outro caso, relatado no estudo, envolve os dois corpos encontrados na "Casa do Criptopórtico", cujo nome deriva de ter uma passagem do tipo para uma área subterrânea. Os moldes de dois adultos, em uma posição que faz parecer que estariam se abraçando, já foram referidos como um casal, mãe e filha, ou duas irmãs. O DNA revelou, entretanto, se tratarem de dois homens não aparentados, descendentes de imigrantes do norte da África, provavelmente do Egito.

Essa pesquisa é importante, ao revelar que Pompeia, assim como outras regiões interiores do império romano, tinham uma natureza cosmopolita, e reuniam gente de diversas províncias e territórios mais afastados, que emigravam por diversos motivos.

Outro corpo, presente na área chamada "Vila dos Mistérios", graças a vários afrescos dedicados a Baco, deus romano do vinho (havia uma vinícola ali), que usava um anel de ferro e cornalina, que não era um membro da família como se pensava, mas provavelmente um guarda, sem relações de parentesco com os demais corpos, e também com ancestralidade do Oriente Próximo.

Segundo o Dr. David Reich, professor de Genética e Biologia Evolucionária Humana da Universidade de Harvard, e um dos co-autores do estudo, diz que "os dados científicos (providos pela pesquisa) nem sempre se alinham com pré-concepções corriqueiras", e que seus resultados "desafiam narrativas familiares e de gênero" no campo arqueológico, quando muito do que é passado para a frente é meramente chute e achismo.

Já a Dra. Alissa Mittnik, do Departamento de Arqueogenética do Instituto Max Planck, e também co-autora, o estudo "terá implicações significativas na interpretação de dados e compreensão das sociedades antigas", e que além de ressaltar a natureza cosmopolita de Pompeia, ele "destaca a importância de integrar estudos arqueológicos com dados genéticos", para uma análise mais precisa do passado.

Referências bibliográficas

PILLI, E., VAI, S., MOSES, V. C. et al. Ancient DNA challenges prevailing interpretations of the Pompeii plaster casts. Current Biology, 7 de novembro de 2024.

DOI: 10.1016/j.cub.2024.10.007

Fonte: Ars Technica

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