Ronaldo Gogoni 28 semanas atrás
Yuka, um espécime incrivelmente bem preservado de um filhote de mamute-lanoso (Mammuthus primigenius), encontrado por caçadores de marfim das tundras siberianas (sim, isso existe) em 2010, não cansa de impressionar a comunidade científica: desta vez, a carcaça de quase 40 mil anos permitiu pela primeira vez que cientistas sequenciassem RNA antigo, o que até então era considerado impossível.
Muito mais frágil que o DNA, o RNA é uma macromolécula essencial para o funcionamento adequado das células, que até então acreditava-se que invariavelmente se deteriorava horas após a morte, e exatamente por isso, as amostras coletadas de Yuka descrevem, com detalhes, seus momentos finais.

2013: Yuka é exibido em Yokohama, Japão, única vez em que o espécime saiu da Rússia (Crédito: Kazuhiro Nogi/AFP/Getty Images)
Yuka é considerado o espécime de mamute mais bem conservado já encontrado, pois o permafrrost preservou desde uma série de tecidos moles, como toda a tromba, orelhas, patas, presas, músculos e cérebro, como até a pelagem característica da espécie perdurou.
O mamutinho era um filhote por volta de 6 e 8 anos, media 3 metros de altura e pesava 5 toneladas, e teria sido atacado por leões-das-cavernas, outra espécie do Pleistoceno também extinta, e parente dos leões modernos. O caso particular da carcaça de Yuka permitiu a cientistas sequenciarem totalmente seu DNA, e chegaram inclusive a testar amostras genéticas, mas não conseguiram estimular divisão celular.
A questão é que o DNA é consideravelmente resistente, não o suficiente para recriar dinossauros (foi mal, criançada), mas o bastante para oportunistas clamarem ser possível trazer espécies extintas de volta. O RNA, por sua vez, é bem mais frágil. Essencial para a expressão genética, ele é tão delicado que cientistas acreditavam que ele só resistiria algumas horas após a morte do indivíduo.
Só que uma equipe de pesquisadores da Universidade de Estocolmo e do Museu de História Natural da Suécia resolveram testar a hipótese, e não há nenhum exemplar tão antigo e tão bem preservado quanto Yuka, o que fez dele o candidato perfeito.

Perna de Yuka, com a pele removida; note o nível de conservação dos tecidos (Crédito: Valerii V. Plotnikov/National Library of Medicine)
Amostras de tecido de Yuka foram removidos de um de suas pernas (acima), incrivelmente preservada após milênios enterrada no permafrost, e conseguiram identificar mais de 20 mil genes ligados à produção de proteínas, vários deles inativos. Eventualmente, a equipe conseguiu identificar moléculas de RNA ligados à formação de músculos e regulação metabólica relacionada ao estresse, o que se alinha com evidências do que vitimou o mamutinho.
Segundo Emilio Mármol-Sánchez, pós-doutorando do Departamento de Paleontologia da Universidade de Estocolmo, e um dos co-autores do estudo, a expressão das moléculas se adequa à hipótese do ataque de leões-das-cavernas, que feriram Yuka o suficiente para causar sua posterior morte.
Conforme o prof. Love Dálen, também do Departamento de Paleontologia da Universidade de Estocolmo, e outro co-autor do estudo, Yuka estava estressado quando morreu, o que pode ter sido por conta do ataque, ou por ficar preso na lama ao fugir dos leões, e tentar se soltar.
Os pesquisadores também encontraram microRNAs, pequenas moléculas não codificantes, mas que regulam a expressão de outros genes, por exemplo, se ligando a RNAs mensageiros (mRNA).
Outra informação interessante sobre o estudo, foi corrigir um erro que perdurou por anos: ao contrário de análises anteriores, Yuka era um mamute macho, não uma fêmea. Um estudo de 2021 concluiu que Yuka era fêmea via “uma análise morfológica” da região da virilha, mas uma análise do DNA ancestral identificou sem sombra de dúvidas que o espécime era cromossomicamente XY, ou seja, macho.
Para o prof. Dálen, Yuka “poderia ter se desenvolvido como uma fêmea mesmo sendo XY (o que não é tão incomum assim), mas o provável, vamos colocar dessa forma, é que ‘certas partes morfológicas críticas’ estavam faltando, quando o mamute foi submetido a uma inspeção visual”.
De todo modo, o caso de Yuka ilustra que é possível analisar o RNA de amostras ancestrais, que é como ver uma “fotografia” do processo celular de espécimes extintos a muito tempo, no exato momento quando morreram, milhares de anos atrás.
Assim como Yuka permaneceu séculos enterrado no permafrost, é bem possível que outros espécimes tão ou melhor conservados estejam à espera de serem encontrados, portando informações valiosas do mundo antigo.
MÁRMOL-SÁNCHEZ, E., FROMM, B., OSKOLLKOV, N. et al. Ancient RNA expression profiles from the extinct woolly mammoth. Cell, Volume 189, 41 páginas, 14 de novembro de 2025.
DOI: 10.1016/j.cell.2025.10.025
Fonte: Live Science, Popular Science