Ronaldo Gogoni 18/05/2026 às 15:05
O câncer acompanha a humanidade desde o início dos tempos, isso é fato. Da mesma forma, disputando o troféu de infortúnios estão as doenças autoimunes, condições em que nosso sistema imunológico passa a ver o próprio organismo como uma ameaça, ao confundir células saudáveis com invasoras.
De vez em quando, tratamentos desenvolvidos para uma condição podem servir para outra, o Viagra é um bom exemplo disso; outro mais recente é o da terapia celular CAR-T, que "hackeia" células para enfrentar o câncer, sendo adaptada para lidar com males como esclerose múltipla, vasculites e lúpus, entre outras.

Não por muito tempo, Dr. House (Crédito: Reprodução/Heel and Toe Films/Shore Z Productions/Bad Hat Harry Productions/NBCUniversal/Comcast)
A CAR-T é uma terapia celular bem recente, tendo sido aprovada pela FDA (Food and Drug Administration) em 2017 para o tratamento de certos tipos de câncer, no caso, formas agressivas de leucemia. Ela consiste na extração, modificação, cultura e reinserção das células T de um paciente, de modo que elas sejam devidamente programadas para combater e eliminar tumores.
Se você se lembra das aulas de Biologia, a célula T citotóxica, também chamada de linfócito e de killer T cell em inglês, é um leucócito (célula branca) especializado em combater invasores que os neutrófilos, direcionados a conter principalmente infecções bacterianas, não conseguem parar. Eles são voltados para descer o sarrafo especificamente em vírus e células alteradas por eles, como no caso de uma gripe.
Células cancerígenas também estão na lista negra das células T. Essas surgem quando um processo de divisão celular dá errado, resultando em uma cópia danificada que começa a se multiplicar sem controle e, em certas situações, dependendo de onde o câncer se manifesta, as células T conseguem despachar os "defeitos" nos primeiros estágios.
No entanto, alguns tipos de carcinoma, como o colorretal, não disparam o alarme do sistema imunológico; pelo contrário, os "comandantes" tratam as células problemáticas como parte do organismo... o que não deixa de ser verdade.
Células especializadas como as T reguladoras, cuja função é inibir a atividade exacerbada do sistema imunológico, não as deixam fazer seu trabalho de aniquilar as células cancerígenas que só crescem. Não por acaso, reguladoras são encontradas aos montes nesses tumores, que as "sequestram" para que ajam como seus guarda-costas.

Basicamente, é isso que acontece em um câncer colorretal (Crédito: Reprodução/David Production/Aniplex/ Crunchyroll/Sony)
Outra célula que pode se tornar problemática é o linfócito B, responsável por criar anticorpos para combater doenças. Certos tipos de linfoma são causados quando essa célula em particular começa a se multiplicar sem controle, e é aqui que entra a terapia CAR-T; ela consiste em dar uma espécie de "mandado de prisão" a uma célula T, específico contra esse tipo de câncer.
Uma amostra das células é removida do sangue e editada com a inserção de um gene extra, uma proteína recombinante chamada Receptor de Antígeno Quimérico, ou CAR na sigla em inglês. A modificação é interna e externa; a proteína, que reúne componentes de diversas fontes em uma única molécula (daí ser uma "quimera") cria receptores na membrana da nova célula CAR-T, capazes de se ligarem a antígenos específicos em células B cancerígenas; por dentro, sinalizadores enviam ordens diretas de buscar e destruir tudo o que for identificado como um carcinoma.
As células editadas são cultivadas na escala de milhões e reinjetadas no paciente, preferencialmente os que não respondem a tratamentos padrão como quimio e radioterapia, transplantes de medula e afins. O tratamento tem sido especialmente eficaz em casos de leucemias linfoblásticas agudas, linfomas não-Hodgkin e mielomas múltiplos.
Acontece que os linfócitos B também são responsáveis por diversas doenças autoimunes, quando começam a produzir anticorpos voltados a atacar células saudáveis, que por algum motivo eles identificam como doentes ou invasoras. Médicos começaram então a racionalizar o óbvio: se o CAR-T funciona contra cânceres causados por essas células, deve também ser útil no tratamento de lúpus e cia.
Os primeiros testes do CAR-T em doenças autoimunes, realizados em 2021 na Alemanha justamente em uma paciente com a doença que o Dr. House tanto queria tratar, mostrou resultados promissores e, desde então, o método vem sendo adaptado para tratamentos experimentais de outras doenças autoimunes. Um desses está sendo realizado na Universidade de Colorado Anschutz, nos Estados Unidos, mirando em uma condição rara chamada síndrome da pessoa rígida (SPR), uma crise neurológica que causa rigidez do tronco e pernas, e espasmos dolorosos.
A Dra. Amanda L. Piquet liderou um estudo financiado pela companhia terapêutica Kyverna, envolvendo 26 voluntários com vários graus de SPR, vários apresentando uma "marcha mecânica" e 12 deles dependendo de andadores e bengalas para se locomoverem. O tratamento, que ainda não tem aprovação pela FDA, durou 16 semanas e, ao término do período, 8 dos voluntários dispensaram o uso de equipamentos para andar.
Em abril de 2026, a Kyverna informou que todos os 26 voluntários não mais faziam uso de nenhuma outra imunoterapia após um ano de acompanhamento, após a aplicação da terapia CAR-T.
Um ponto interessante a se mencionar: em alguns casos, o tratamento pode não ser aplicável por conta da condição médica do paciente, é preciso que as células T sejam dele próprio para que tudo funcione, mas é aí que o CRISPR entra: a "tesoura" de edição da enzima Cas9 pode remover inibidores de "exaustão" dos linfócitos, aumentando sua produtividade, e até mesmo extirpar marcadores de modo a viabilizar a doação por outras pessoas.
Pesquisadores consideram que a combinação do CAR-T com o CRISPR representa a "próxima geração" da terapia celular, basicamente conferindo-lhe superpoderes (mas não no nível de um soro do supersoldado, calma).

O linfócito B (aqui, apanhando da mastócito) é confiável até o momento em que começa a ver todos ao seu redor como inimigos (Crédito: Reprodução/David Production/Aniplex/Crunchyroll/Sony)
Claro, há alguns poréns. Primeiro, o CAR-T pode causar outros quadros indesejáveis, como febres e queda da pressão arterial, que podem ser preocupantes dependendo da saúde do paciente e, se a infecção atingir o cérebro, o processo pode causar vertigens e náuseas.
Além disso, o método derruba sem misericórdia a imunidade do indivíduo, que tem todo ou quase todo o seu esquadrão de linfócitos B dizimado; não por acaso, o CAR-T é acompanhado por quimioterapia intensa, para derrubar as defesas e intensificar os resultados; aqui, antibióticos, vacinas e antivirais são cruciais para reforçar o sistema imunológico temporariamente debilitado.
Há também evidências de outras doenças desencadeadas pela edição genética, como Mal de Parkinson e, essa é a grande ironia, linfoma de células T. Sim, as CAR-T também podem dar chabú, afinal, Biologia não é 100% exata. Mesmo assim, pesquisadores acreditam que os benefícios compensam os riscos e há quase uma década de artigos e tratados na área, com procedimentos bem sucedidos.
Com o tempo, conseguiremos contornar os problemas e entregar terapias celulares com grande precisão e efeitos colaterais reduzidos ao máximo, mas de algum lugar precisamos sair.
Fonte: Ars Technica.