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Combatendo o câncer com a Maldição do Faraó

Fungo mortal encontrado em tumbas está sendo usado em pesquisas para o tratamento de tipos específicos de câncer

51 semanas atrás

O câncer é uma das doenças mais mortais e atravessou toda a história da humanidade. O registro mais antigo vem do Papiro de Edwin Smith, um tratado médico egípcio escrito em 1600 AEC, que descreve um tumor no seio intratável.

Hipócrates descreveu a aparência dos tumores usando a palavra grega καρκίνος (carcinos), caranguejo, por eles apresentarem "veias saltadas para todos os lados", como as patas do crustáceo; ainda hoje o termo médico para esse tipo de câncer, o mais comum, é carcinoma.

A tumba de Tutancâmon, que governou o Egito durante a 18.ª dinastia, continha fungos que mataram vários dos arqueólogos que a descobriram (Crédito: Roland Unger/Wikimedia Commons)

A tumba de Tutancâmon, que governou o Egito durante a 18.ª dinastia, continha fungos que mataram vários dos arqueólogos que a descobriram (Crédito: Roland Unger/Wikimedia Commons)

Pois é também do Egito Antigo que vem uma nova possibilidade de tratamento para tipos específicos de câncer, como a leucemia, usando variantes do fungo Aspergillus flavus, especificamente a que ficou conhecida como a "Maldição do Faraó", que supostamente teria causado a morte de parte da equipe que redescobriu a tumba de Tutancâmon, em 1922.

Fungos mortais contra o câncer

Vamos dar uma repassada rápida: um câncer se manifesta quando uma célula sofre uma mutação, geralmente um erro durante o processo de divisão, em que ela passa a se multiplicar sem controle, superando o Limite de Hayflick (52 divisões, depois disso ela se deteriora). O telômero, uma estrutura do DNA que se degrada a cada nova divisão, é protegido pela expressão demasiada de uma enzima chamada telomerase, que a protege do decaimento.

Cada nova célula gerada pela original defeituosa herdará as mesmas características, e dependendo de onde o câncer assume várias formas, pode ser mais ou menos agressivo, tratável ou não.

Embora a manifestação seja aleatória, fatores externos diversos, como consumo de álcool, fumo, exposição excessiva a raios solares nocivos, má alimentação, obesidade e sedentarismo, poluição, exposição a radiação, doenças agressivas como AIDS e hepatite B, a presença de vírus como o HPV e do herpes, e fatores genéticos (casos na família) contribuem para o aumento das chances.

Em suma: para qualquer pessoa desenvolver um câncer, basta estar vivo, mas comportamentos de risco desempenham um papel relevante nesse cenário.

Como dito antes, câncer é um problema e tanto para o organismo (Crédito: Reprodução/Kodansha/David Production/Aniplex/Crunchyroll/Sony)

Como dito antes, câncer é um problema e tanto para o organismo (Crédito: Reprodução/Kodansha/David Production/Aniplex/Crunchyroll/Sony)

Existem diversos tratamentos para vários tipos de câncer, alguns mais eficientes com uns do que com outros, não há uma panaceia que serve para todos os casos, infelizmente. Quimioterapia, radioterapia, cirurgias, medicamentos sintéticos, transplantes de órgãos e medula óssea, usamos tudo o que temos à disposição.

Ao mesmo tempo, pesquisas para novas soluções seguem descobrindo novas possibilidades promissoras, como a que usa TMF, ou transplante de microbiota fecal, na forma de pílulas devidamente sanitizadas, ainda que usem material literalmente tirado de cocô, mas a alternativa, claro, é muito pior.

Agora, pesquisadores da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, apresentaram um novo estudo usando uma cepa de fungos que foi eficaz em destruir células com leucemia; a parte curiosa é serem a infame "Maldição do Faraó", esporos de uma variante do A. flavus, conhecido por infectar plantações e causar grandes prejuízos à Agricultura, que ficou dormente por séculos em lugares úmidos e escuros, no caso, tumbas.

A redescoberta do local de repouso final do rei Tutancâmon, que continha uma miríade de itens valiosos, incluindo sua famosa máscara mortuária de ouro e pedras semipreciosas (descoberta três anos após a abertura da tumba KV62, em 1922), virou notícia em todo mundo primeiro pelo achado arqueológico em si, um dos mais importantes do século XX, e segundo porque pelo menos três pessoas envolvidas na expedição morreram pouco tempo depois, incluindo o financiador George Herbert, 5.º Conde de Carnarvon.

Quando a tumba do rei Casimiro IV Jagelão da Polônia foi aberta em 1973, 10 dos 12 trabalhadores morreram posteriormente, o que foi atribuído a uma contaminação por uma variante letal do A. flavus; desde então, o mesmo fungo é dito ser o responsável pelas mortes ligadas à tumba de Tutancâmon, embora cientistas ainda contestem tal afirmação.

Cultura de A. flavus usada na pesquisa (Crédito: Bella Ciervo/University of Pennsylvania)

Cultura de A. flavus usada na pesquisa (Crédito: Bella Ciervo/University of Pennsylvania)

O fungo pode causar aspergilose, uma infecção nos pulmões pela aspiração de esporos, e se manifesta mais frequentemente em pessoas com o sistema imunológico enfraquecido. Não por acaso, costumava ser comum em pacientes com AIDS, mas também se manifesta em pessoas fazendo tratamento quimioterápico contra leucemia.

O estudo conduzido pela profa. Dra. Xue "Sherry" Gao, do Departamento de Química e Bioengenharia Molecular da Penn University, consiste em modificar um composto do fungo do mal, um RiPP (Peptídeo sintetizado ribossomalmente e modificado pós-traducionalmente), criado pelos ribossomos. O processo, que não é simples, consiste em dar um "boost" na capacidade dele de matar células específicas, no caso, da leucemia.

RiPPs são mais facilmente encontrados em bactérias, e são empregados em remédios e tratamentos; apenas alguns deles foram identificados em fungos, mas estes causam respostas mais fortes no organismo humano. A penicilina, a primeira classe de antibióticos usada em massa pela Medicina, e que efetivamente mudou o mundo, é um RiPP que veio de diversos fungos do gênero Penicillium.

Os pesquisadores estudaram 12 variantes de Aspergillus, e concluíram que a cepa A. flavus era a mais eficiente, e criaram duas moléculas, chamadas asperigimicinas, que matam mais células, bloqueando microtúbulos criados pelas células cancerosas, essenciais em seu processo de divisão descontrolada. Eles também identificam um gene específico, chamado SLC46A3, que age como um "porteiro": uma vez "sequestrado", ele permite a entrada das moléculas caça-câncer, e de outros peptídeos, aumentando o estrago.

O grande problema, no momento, é aumentar a eficiência das asperigimicinas, permitindo que elas entrem melhor em células, e embora funcionem contra leucemia in vitro, elas não se saíram bem ao combater outros tipos de câncer. Ainda assim, é mais uma amostra de que o mundo natural ainda possui muito a ser descoberto, no que se refere a novos e eficientes tratamentos médicos.

Referências bibliográficas

NIE, Q., ZHAO, F., YU, X. et al. A class of benzofuranoindoline-bearing heptacyclic fungal RiPPs with anticancer activities. Natural Chemical Biology (2025), 23 de junho de 2025.

DOI: 10.1038/s41589-025-01946-9

Fonte: Popular Science

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