Ronaldo Gogoni 10 semanas atrás
Há uma expressão em inglês que compara notívagos e matutinos, pessoas que trabalham de forma mais produtiva durante a noite ou o dia, respectivamente, com corujas e cotovias. Hoje a Ciência sabe que, mais do que uma escolha, há uma série de fatores biológicos que influenciam na predisposição de cada um.
O que muita gente não sabe é que tais "parâmetros" não são fixos, costumam mudar durante o decorrer de nossas vidas, em que podemos ser mais produtivos durante a noite enquanto jovens, e de dia quando ficamos mais velhos.

Cronotipo, elementos externos, idade, tudo influencia na produtividade durante o dia ou noite (Crédito: Reprodução/acervo internet)
A frase "Deus ajuda quem cedo madruga" não vale para todo mundo; isso a gente já sabia. O fator que determina se você é uma "coruja" ou uma "cotovia" é seu cronotipo, uma predisposição genética natural para a manifestação comportamental do ciclo circadiano, nossa inclinação natural para dormir e acordar em horários específicos.
O cronotipo é determinado pela melatonina, o hormônio responsável por induzir o sono, que é liberado pela glândula pineal quando estamos no escuro. Nos matutinos, o pico de produção começa antes da meia-noite, e esses costumam dormir entre as 22:00 e as 6:00 do dia seguinte. Nos vespertinos ou notívagos, seus períodos de maior atividade são à noite (o pico de produção de melatonina se dá por volta das 6:00) e costumam dormir entre 3:00 e 11:00, mas não necessariamente trocam o dia por atividades madrugada adentro.
A grande maioria da população são os "intermediários", com pico de melatonina às 3:00; esses costumam dormir entre meia-noite e 8:00. A produção de melatonina diminui conforme a idade, o que explica por que idosos dormem pouco; quem sofre com distúrbios do sono também costuma apresentar deficiência de melatonina e, em ambos os casos, a reposição por complementos é indicada para melhorar a qualidade do sono.
O básico é entender qual é seu cronotipo e adaptar sua agenda a ele de modo a ser mais produtivo, mas alguns pesquisadores argumentam que a classificação não só pode ser um pouco mais complexa, como uma série de fatores pode mudar seu cronotipo ao longo da vida. Por exemplo, é normal sermos matutinos durante a infância e nos tornarmos notívagos quando entramos na adolescência, outra consequência das mudanças hormonais, que perduram até os 35 anos; quando a produção de melatonina cai, voltamos a ser matutinos.
Pegou a ideia? Ótimo, porque agora as coisas começam a se complicar.
Segundo o Dr. John Saito, professor e representante da Academia da Medicina do Sono dos Estados Unidos, afirma que as classificações clássicas como "corujas", "cotovias" e "intermediários" são simplificações que não levam em conta o ambiente. Por exemplo, pessoas que moram nos grandes centros e ficam expostas por grandes períodos a luzes externas acabam tendo a produção de melatonina suprimida; o ato de assistir TV à noite, ou ficar surfando no celular (doomscrolling, no caso), também mexe com seu relógio interno e atrasa o sono.
Isso sem contar a genética, em que uma pesquisa de 2019 identificou 351 fatores distintos que podem determinar se você é um notívago ou um matutino; há a possibilidade de que diferentes cronotipos evoluíram graças à Seleção Artificial: nossos ancestrais precisavam de membros de tribos que conseguissem ficar acordados à noite sem se cansar, para agirem como sentinelas enquanto os demais dormiam. Esses deixaram descendentes com características semelhantes, para continuarem o trabalho.
Já o Dr. Michael Breus, psicólogo e também especialista da medicina do sono estabeleceu "subcronotipos" baseados em comportamentos mais específicos, que ele nomeou como "animais do sono": nesse diagrama, pessoas que são "ursos" (de 50% a 55% da população global) funcionam dentro do ciclo solar, "leões" (15%) acordam muito cedo, mas já estão capotando por volta das 20:00 (a maioria dos CEOs seria assim), "lobos" (de 15% a 30%) são mais notívagos, e "golfinhos" (de 10% a 15%) têm sono leve, geralmente diagnosticados com insônia.
Não há um cronotipo melhor que outro; aqueles com hábitos diurnos possuem melhor saúde física, enquanto notívagos demonstram ter melhor memória; o único alerta feito é para os madrugadores, que correm maiores riscos de desenvolverem diabetes tipo 2, além de estarem mais sujeitos a quadros de depressão e obesidade.
Fonte: Popular Science