Ronaldo Gogoni 30/04/2026 às 11:00
Os neandertais, nossos primos extintos que vieram da árvore vizinha, não eram burros, e isso é um fato comprovado por tudo o que eles deixaram para trás, de ferramentas a pinturas rupestres. Eles dominaram o fogo, teciam roupas, realizavam ritos funerários, podem ter conhecido o conceito de antissépticos e tinham técnicas de caça eficientes.
O argumento da "burrice" dos neandertais se baseia em puro discurso de superioridade, de que o Homo sapiens seria mais evoluído e levou à extinção dos nossos parentes, por competição de recursos ou conflitos diretos, embora evidências em nosso DNA mostrem que houveram constantes relações interraciais entre as duas subespécies, que geraram descendentes híbridos.

Mesmo diferentes na aparência e tamanho do cérebro, neandertais não eram mais burros que o Homo sapiens, e tampouco mais inteligentes (Crédito: Cinema International Corporation/AMLF/Disney)
Um estudo mais recente volta a abordar esse tema, mostrando com evidências que as diferenças entre o nosso cérebro e o dos neandertais não eram tão significativas; embora o caminho evolutivo percorrido por ambos hominídeos tenha sido diferentes, os dois chegaram no mesmo lugar em condições basicamente iguais, com diferenças meramente estéticas.
O Homo neanderthalensis, embora extinto há mais de 40 mil anos, foi a primeira espécie de hominídeo a se estabelecer na Europa de forma permanente, muito antes dos Cro-magnons, os primeiros humanos modernos, surgirem na região. Mesmo depois de tanto tempo, seus crânios mantêm um registro de como era o formato de seus cérebros, característica que nossos ossos também possuem. Esse "negativo" permite a criação de um modelo tridimensional dos miolos que lá existiam, o que cientistas chamam de endocast, um molde interno de um objeto oco.
Há até mesmo um modelo natural de endocast craniano, a Criança de Taung: um exemplar jovem de Australopithecus africanus cujo crânio foi preenchido por sedimentos ao longo de milênios, que se fossilizaram como um "cérebro de terra", por assim dizer. O molde resultante permitiu a análise de quão complexos os miolos de um de nossos parentes mais antigos eram.
Sobre neandertais, um estudo mais antigo comparou endocasts criados por ressonância magnética de exemplares deles e de humanos contemporâneos e demonstrou que, embora a caixa craniana de nossos primos fosse bem maior, eles possuíam cerebelos menores. Esse órgão do sistema nervoso central, localizado na base do cérebro, é responsável pela coordenação motora, equilíbrio, tônus muscular e aprendizado motor, e responde também por funções cognitivas, como emoções e capacidade de manter a atenção.
Muitos tomaram esse estudo como uma suposta prova de que o H. sapiens é mais inteligente, mas um artigo recente de pesquisadores da Universidade de Indiana mostra que, como tudo na Ciência e principalmente no que tange à Biologia e Evolução, as coisas não são tão simples.

Acredite, há mais variação no tamanho dos cérebros dos humanos de hoje do que entre os contemporâneos dos neandertais (Crédito: Wikimedia Commons)
O Dr. P. Thomas Schoenemann, professor de Antropologia e um dos coautores do estudo, afirma que pesquisas anteriores não levaram em conta a população humana atual; assim, o mais recente experimento comparou os resultados da pesquisa de 2018 com ressonâncias magnéticas de 400 pessoas, sendo 200 norte-americanos de descendência europeia e 200 chineses Han, o maior grupo étnico do mundo (17% da população global, com 1,4 bilhão), todos voluntários do Projeto Conectona Humano.
Os resultados mostram que as diferenças entre os cérebros dos neandertais e os nossos estão dentro do esperado das variações apresentadas entre etnias contemporâneas, 9 de 13 regiões do órgão avaliadas apresentaram diferenças de volume mais pronunciadas entre indivíduos de hoje do que entre neandertais e H. sapiens que conviveram com eles no mesmo período.
Mesmo com um cerebelo menor e um cérebro maior, a equipe do prof. Schoenemann concluiu que "as diferenças estruturais e de cognição ficam dentro do esperado das diferenças encontradas entre humanos modernos". Em resumo, os neandertais não eram nem mais nem menos capazes que nós; apenas chegaram ao mesmo patamar que o nosso pegando um caminho evolutivo diferente.
O estudo recente também desmonta a ideia de que somos inteligentes por conta de nossas cabeças grandes, o que, se fosse verdade, significaria que os neandertais eram superiores a nós, e mesmo assim acabaram extintos. Outros estudos mostraram que seus miolos poderiam funcionar em "overclock" por serem menos plásticos, graças a uma diferença em um gene chamado NOVA1. Simplificando a coisa, o cérebro neandertal trabalhava mais para entregar a mesma capacidade computacional (por assim dizer) que o do H. sapiens.
Outra pesquisa recente revelou que o NOVA1 humano pode ter funcionado como um agente da Seleção Natural, ao regular em humanos modernos um longo envenenamento por chumbo presente no ambiente, que teria afetado muito mais os neandertais do que nós. Os efeitos nocivos do metal no organismo são bem conhecidos, o que pode ter prejudicado as capacidades de nossos primos de se organizarem como uma sociedade.
Sobre as óbvias diferenças entre neandertais e humanos, o prof. Schoenemann diz que elas eram basicamente estéticas, e mesmo o formato divergente dos cérebros tem mais a ver com a estrutura óssea dos rostos dos dois hominídeos; os neandertais acabaram com crânios alongados e baixos por suas faces mais semelhantes às de outros grandes primatas, enquanto a nossa face reta favoreceu um formato redondo e mais alto.
O prof. Schoenemann diz que "implicações cognitivas ligadas a diferenças de tamanho neuroanatômicas são muito fracas na população humana moderna, se não inexistentes", a versão acadêmica para o velho "tamanho não é documento", o que também vale para os neandertais; basta olhar para os chimpanzés, com cérebros bem menores e capazes de realizar atividades muito semelhantes às nossas, o que inclui travar guerras.
SCHOENEMANN, P. T., HOLLOWAY, R. L., GAO, J. H., YANG, G. Neanderthal brain and cognition reconsidered. PNAS (2026), Volume 123, Edição 19, 27 de abril de 2026.
Fonte: Ars Technica