Ronaldo Gogoni 11 semanas atrás
Os neandertais, nossos extintos "primos" vindos de outra árvore, eram hominídeos inteligentes, isso é fato; não só eram capazes de tecer roupas e fabricar ferramentas, como criavam arte e realizavam ritos funerários. Eles também dominaram o fogo e, por serem mais robustos que o Homo sapiens, se espalharam por diversas regiões da Europa durante a Era do Gelo.
Agora, um novo estudo levanta a possibilidade de que, assim como tribos indígenas modernas, os neandertais podem ter usado elementos da natureza como antissépticos para o tratamento de seus ferimentos, sendo o mais provável o alcatrão extraído da casca de árvores conhecidas como bétulas e vidoeiros.

Estudo levanta hipótese de que neandertais sabiam como evitar infecções em seus frequentes ferimentos (Crédito: Cinema International Corporation/AMLF/Disney)
O Homo neanderthalensis foi a primeira espécie de hominídeo a ocupar a Europa de forma permanente, mas também se aventurou pelo Levante, Ásia Central e Crimeia. Extinto há pelo menos 40 mil anos, ele interagiu com nossa espécie e por conta das similaridades genéticas, deixou descendentes; os europeus modernos herdaram de 1,5% a 2,6% de genes neandertais, em média.
Mais recentemente, descobrimos que o cérebro deles operava em "overclock" em relação ao nosso, que funciona em um ritmo mais lento, porém mais eficiente; essa seria uma das explicações para seus miolos serem maiores, pois precisavam de mais massa (e mais energia) para trabalharem no mesmo patamar.
Outra pesquisa revelou que o mesmo gene responsável pela diferenciação cerebral, que era diferente nos neandertais, protegia nosso cérebro de um longo envenenamento por chumbo no ambiente de forma melhor que o de nossos "primos", de modo que eles podem não ter sido capazes de desenvolver uma linguagem. Assim, a Seleção Natural tomou seu curso e o mais organizado e coordenado H. sapiens selou o destino do H. neanderthalensis.
A ideia de que os neandertais eram "burros", o que justificaria sua extinção, não faz jus à sua engenhosidade, que lhes permitiu prosperarem em um ambiente gelado por aproximadamente 90 mil anos (excluindo pré-neandertais). Eles eram exímios caçadores e, consequentemente, viviam se machucando de formas bem sérias, o que aponta a necessidade de manter suas feridas tratadas, livres de infecções e infestações por vermes e insetos.
Foi sobre esse aspecto que pesquisadores liderados por Tjaark Siemssen, doutorando em Arqueologia da Universidade de Oxford, no Reino Unido, se debruçaram: considerando o ambiente, é bem possível que neandertais tenham usado elementos naturais ou seminaturais como antissépticos. O alcatrão de bétula, extremamente simples de ser extraído e usado por diversas comunidades indígenas do hemisfério norte, era o candidato ideal.

Passo a passo do meio mais simples para extrair alcatrão de bétula: queimar a casca da árvore sobre rochas e raspar o material (Crédito: Tjaark Siemssen, CC-BY 4.0)
Os neandertais já usavam o alcatrão como adesivo, principalmente para fixar as pontas de suas flechas. O método mais simples de extrair o material é coletar cascas de bétulas, queimá-las sobre rochas e raspar o material; outro é encher um pote de barro (ou uma lata, como algumas tribos modernas fazem hoje em dia) cheio de cascas, enterrá-lo e aquecê-lo.
As tribos de hoje usam o alcatrão de bétula como ornamento, fixador e também como antisséptico, mas restava saber se as variações europeias proveriam as mesmas capacidades anti-infecções. O método óbvio foi produzir alcatrão da maneira arcaica e testá-lo em culturas de duas bactérias bem conhecidas: nossa velha amiga Escherichia coli, causadora de intoxicações alimentares, e a Staphylococcus aureus, responsável por infecções sérias e por certas linhagens desenvolverem resistência a alguns de nossos antibióticos mais potentes.
Os cientistas constataram que, apesar de o alcatrão não ter efeito significativo sobre a E. coli, ele desacelerou o processo de divisão da S. aureus, com resultados diversos conforme a espécie testada; a considerada mais eficiente foi a resina extraída das cascas do vidoeiro-branco (Betula pendula), que cresce por quase toda a Eurásia.
Do ponto de vista químico, bactérias gram-positivas como a S. aureus não contam com uma membrana adicional ao redor, como as gram-negativas, grupo do qual a E. coli faz parte. Dessa forma, o grupo da primeira é muito mais suscetível aos efeitos antissépticos providos pelo alcatrão, tal qual qualquer outro antibiótico moderno do tipo, embora compostos concentrados como a gentamicina sejam obviamente mais eficientes, funcionando até contra a E. coli.
No estudo, a equipe especula que isso explicaria tribos como os Mi’kmaq no Canadá (que usam uma versão do alcatrão que chamam de maskwio'mi), os Saamis na Escandinávia, e os Yakuts na Sibéria, todos empregam a substância como antisséptico há provavelmente centenas, até milhares de anos; costumes arcaicos passados de geração em geração, herdados de nossos primos há muito extintos.
SIEMSSEN, T., OLUDARE, A., SCHEMMEL, M., PUSCHMANN, J., BIERENSTIEL, M. Antibacterial properties of experimentally produced birch tar and its medicinal affordances in the Pleistocene. PLoS One, 12 páginas, 18 de março de 2026.
DOI: 10.1371/journal.pone.0343618
Fonte: Popular Science