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Rapidinhas da NASA: JPL na pista e explosão do New Glenn

JPL sob nova direção no futuro e a mais espetacular explosão de um foguete desde o N1: essa foi a semana da NASA

29/05/2026 às 10:35

A NASA teve uma semana, digamos, interessante. Enquanto a ameaça de cortes do governo Trump paira no ar, a agência anunciou que não irá renovar o contrato de administração do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL), responsável pelos rovers Curiosity e Perseverance, e que vai abrir o controle da instituição para a concorrência.

Enquanto isso, uma pane no foguete New Glenn da Blue Origin causou a mais espetacular explosão de um foguete em solo, desde o desastre de Nedelin e a detonação catastrófica do N1.

Logo da NASA no Centro Espacial Kennedy, na Flórida (Crédito: Jessie Hodge/Flickr)

A NASA teve uma semana bem movimentada (Crédito: Jessie Hodge/Flickr)

JPL: NASA não vai renovar contrato com Caltech

Fundado em 1936, o JPL é um centro de P&D financiado com verba federal que pertence à NASA, mas nasceu dentro do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), a entidade que efetivamente o administra, sob contrato. Sua principal função envolve a construção e operação de sondas não tripuladas, que incluem desde os programas Viking, Galileo e Voyager e os rovers robóticos Pathfinder, Spirit e Opportunity, até os atuais Curiosity e Perseverance, a sonda Juno e as futuras missões DAVINCI e VERITAS.

No começo, o "Esquadrão Suicida" (sim, era esse o apelido) de cientistas do Caltech era tratado como uma excentricidade, e eram doidos mesmo: Jack Parsons, um dos fundadores e pioneiro no desenvolvimento de combustíveis sólidos e líquidos de foguetes, foi expluso do JPL em 1994, oficialmente, por fazer uso de "metodologias de trabalho inseguras e nada ortodoxas"; extraoficialmente, ele era promíscuo, usuário de drogas (várias delas) e membro do Thelema, movimento religioso fundado por Aleister Crowley.

A situação do JPL melhorou e muito quando a Segunda Guerra Mundial estourou: o governo dos Estados Unidos passou a ver utilidade no desenvolvimento de foguetes e injetou muito dinheiro no desenvolvimento de mísseis balísticos, como o MGM-5 Corporal e o MGM-29 Sergeant. Em 1958, o departamento transicionou do Exército para a NASA, já sob o comando de Wernher von Braun, após o sucesso do primeiro satélite americano, o Explorer 1, alguns meses antes.

Até recentemente, o casamento entre a NASA e a Caltech seguiu uma fórmula bem-sucedida: a agência apenas coordena os trabalhos, enquanto o serviço pesado fica por conta dos pesquisadores do instituto, mantido por verba federal. O acordo começou a fazer água com a volta de Donald Trump à Casa Branca, que estabeleceu um plano de cortar violentamente o orçamento em pesquisa terrestre e tudo o que não envolva american boots on the Moon and Mars.

O departamento realizou várias ondas de demissões, a fim de reduzir o consumo de verba na esperança de ser poupado, mas a ordem da Casa Branca é "focar em eficiência, fortalecer o desempenho e realizar missões mais rápido e gastando menos".

Instalações do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA (JPL) na Califórnia, EUA (Crédito: Divulgação/NASA)

Instalações do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA (JPL) na Califórnia, EUA (Crédito: Divulgação/NASA)

O que vai acontecer: na última sexta-feira (22), a NASA anunciou que não vai renovar o contrato de administração do Caltech, que expira em 2028. Ao invés disso, irá abrir uma licitação de concorrência aberta entre outros institutos, de modo a selecionar qual é o melhor para manter os programas do jeito que Trump quer e, claro, gastando o mínimo possível.

Resumindo, o governo acha que o instituto da Califórnia gasta demais e entrega de menos, ou foca naquilo que o presidente não tem interesse, onde tudo que não envolva astronautas americanos na Lua e em Marte deve ser depreciado, descartado e encerrado. Ao mesmo tempo, o governo dos EUA quer repetir a fórmula de disputa pelo lander das missões Artemis entre SpaceX e Blue Origin, a fim de estimular o desenvolvimento de tecnologias mais rápido e com custos mais controlados.

A Caltech muito provavelmente irá disputar a licitação, mas agora enfrentará concorrência real de outros institutos e até mesmo de companhias privadas, que estão muito atentas à possibilidade de assumir o comando da JPL, o que seria o cenário ideal para Trump, tudo para conter os custos ao máximo.

A espetacular explosão do New Glenn

Todo mundo reconhece que a Blue Origin está bem atrasada em relação à SpaceX, uma companhia fundada anos depois. O próprio Jeff Bezos admitiu isso, quando deixou o comando da Amazon para focar no desenvolvimento de suas plataformas para lançamento de cargas no espaço e, no futuro, para transportar astronautas.

Bezos entende que não vai ganhar contratos no grito para sempre e, de uns tempos para cá, a Blue Origin começou a mostrar serviço com o Blue Moon, o lander lunar, em que a NASA já está testando módulos em solo (Starship HLS? Ninguém sabe, ninguém viu), e com o New Glenn, seu foguete para cargas pesadas, que é uma opção à Starship e ao SLS (o único funcional no momento) para missões lunares e/ou para lançamento de sondas em direção a Marte.

Dito isso, nesta quinta-feira (28), Blue Origin e Jeff Bezos foram lembrados de que o Espaço é difícil, e que nossa aventura rumo ao Cosmos será repleta de problemas e eventualmente pavimentada com o sacrifício de muitos, vide a missão Apollo I, o desastre da Soyuz 1 que vitimou Vladimir Komarov, a explosão dos ônibus espaciais Challenger e Columbia, e por aí vai.

Durante um teste de ignição do New Glenn na Flórida, algo deu muito errado durante a ignição, e uma reação em cadeia levou à espetacular explosão do bólido, talvez a mais intensa desde o segundo teste do N1, que calcula-se ter atingido a potência de 1 quiloton. Ninguém se feriu, graças ao que a catástrofe de Nedelin nos ensinou: ninguém fica perto durante testes estáticos.

O que se sabe até o momento: a falha ocorreu no primeiro estágio, onde estão localizados os motores BE-4. Em uma publicação no X, Bezos disse que "ainda é cedo" para saber com certeza as causas da falha, mas garantiu que todo o pessoal da Blue Origin estava seguro, pouco tempo após a explosão.

A base de lançamento foi seriamente danificada, e vai levar tempo até ela ser colocada "nos trinques" novamente. Some a isso a investigação colossal que a FAA (Federal Aviation Administration, o órgão equivalente à ANAC no Brasil) irá promover, e a Blue Origin ficará de castigo, sem autorização para lançar nem mesmo um buscapé por um bom tempo, o que traz alguns problemas para a NASA.

A agência conta com os landers desenvolvidos por terceiros, no caso Blue Origin e SpaceX, para levar astronautas à Lua; embora a Orion continue sendo usada (é preciso justificar os gastos com a plataforma e o SLS), ela não tem módulo de pouso; ninguém nem sabe se a versão HLS da Starship estará pronta para a missão Artemis III, agendada para o próximo ano, e o Blue Moon está visivelmente mais adiantado.

Com o chabú do New Glenn, e com a SpaceX ainda por acertar o pouso da Starship normal em solo, quanto mais a apresentação do HLS, a NASA não tem no momento nenhuma plataforma viável para pousar na Lua e trazer a equipe de volta; embora seja prematuro estipular quaisquer consequências, a explosão do New Glenn jogou um monte de chaves inglesas nas engrenagens do plano de Trump, que queria a volta de americanos à Lua até o fim de seu mandato.

O mais certo a afirmar nessa história é que o Topknot Man não deve estar nada contente.

Fonte: ExtremeTech, Ars Technica

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