Ronaldo Gogoni 28/05/2026 às 14:35
Elon Musk gosta de bradar aos quatro ventos que vai fazer da humanidade uma espécie interplanetária, mas qualquer um que já tenha estudado o assunto, ou que simplesmente já tenha consumido obras de ficção científica suficientes, sabe: nada que envolva o Espaço é simples. Adicione o fator humano e as coisas tendem a se complicar ainda mais.
Um dos problemas com os quais teremos que lidar, em um futuro em que longas viagens pelo Espaço profundo se tornem possíveis, é o isolamento por longos períodos, e um estudo recente confirmou que a solidão extrema pode ser bem prejudicial, mas conviver por muito tempo com as mesmas pessoas em um espaço limitado é tão nocivo quanto.

Viagens interplanetárias, se possíveis, não serão tão tranquilas quanto as da Enterprise (Crédito: Reprodução/Secret Hideout/Weed Road Pictures/H M R X Productions/Roddenberry Entertainment/CBS Studios/Paramount)
Fato: todo mundo precisa de um tempo para ficar sozinho, mas permanecer solitário e isolado por muito tempo é bem ruim, ainda mais contra a vontade ou por força das circunstâncias. Se no futuro dominarmos a viagem interplanetária e conseguirmos viajar a lugares distantes, mas sem tecnologia de dobra, viagens levarão em média vários anos.
Só para dar uma ideia, se tivéssemos hoje uma nave que alcançasse a mesma velocidade da sonda Voyager (~61 mil km/h) e partíssemos rumo a Plutão, a viagem só de ida duraria de 8 a 12 anos, devido ao formato e posição de sua órbita. Uma cápsula lançada pelo SLS em direção a Marte? De 7 a 9 meses até chegar lá.
É por isso que a maioria dos pesquisadores acredita que, no máximo, só seremos capazes de ocupar os planetas do nosso próprio Sistema Solar. Qualquer destino mais distante seria inviável para humanos, a menos que tenhamos até lá um sistema de criogenia eficiente para nos congelar e trazer de volta, como visto no livro Devoradores de Estrelas de Andy Weir, que recentemente foi adaptado para um filme.
Não só as viagens, as missões nos destinos distantes tenderão a se estender por anos, até mesmo décadas, com uma tripulação que terá que aprender a conviver entre si, e apenas entre si. Estes teriam que passar muito tempo sozinhos, dependendo da necessidade, mas também estariam limitados a interações sociais com o mesmo grupo de indivíduos, sabe-se lá por quanto tempo.
Um grupo de pesquisadores da Universidade de Zurique, na Suíça, resolveu testar os efeitos psicológicos em equipes de futuros exploradores nessas condições extremas de isolamento. Uma equipe de voluntários foi deslocada para a Base Concórdia, na Antártica, um dos locais mais isolados do planeta, onde as temperaturas podem chegar a -80º C no inverno, o período escolhido propositalmente para enfiá-los lá, um local onde o Sol não dá as caras por QUATRO MESES inteiros.
Os voluntários passaram 10 meses por lá, e coisas interessantes, por assim dizer, foram notadas.

Base Concórdia, na Antártica, um dos locais mais isolados do planeta, foi essencial no estudo (Crédito: Jessica Struder/IPEV/PNRA/ESA)
Os voluntários receberam funções que deveriam realizar, na maioria dos casos permitindo que eles operassem de forma independente uns dos outros, de certa forma similar ao trabalho dos astronautas de hoje, mas com um pouco mais de espaço. O estudo observou que aqueles que tinham mais contato frequente com outros "tripulantes" eram os mais propensos a apresentar performances piores, mas também eram os que mais reportavam conflitos e situações de desconfiança crescente.
Segundo o Dr. Jan Schmutx, professor do departamento de Psicologia da Universidade de Zurique e supervisor do estudo, quando uma equipe é pequena e inserida em uma situação extrema (no caso, total isolamento da civilização), "mais contato não quer dizer automaticamente mais apoio social". Pelo contrário: maior interação entre pessoas no limite leva ao escalonamento das tensões e agravamento do quadro geral de estresse entre os indivíduos.
Basicamente, ficar sozinho por muito tempo é ruim, mas estar "preso" ao mesmo grupo reduzido de pessoas por anos ou décadas não é lá muito melhor. Total isolamento significa estar completamente sozinho e ter só a você mesmo para culpar mas, quando você amplia a situação para um grupo, é inevitável que uns comecem a apontar dedos para outros, colocando a culpa pelo que quer que seja em outros que não você mesmo.
O estudo também derrubou uma noção de que uma tripulação formada por pessoas de origens e nacionalidades diferentes tende a ser cooperativa: foi observado que os voluntários se organizaram em grupos separados por idioma ou nacionalidade, o que em uma situação extrema acirraria o risco de fragmentação social e polarização entre os indivíduos.
Agora imagine uma base isolada nos confins do cosmos, cheia de gente de diferentes nações que, por um motivo ou outro, começam a se organizar em "panelinhas" de americanos, russos, chineses, japoneses, israelenses, palestinos, brasileiros, argentinos, e por aí vai. Ou melhor, nem é preciso imaginar:
Entre 1991 e 1993, o experimento Biosphere 2 encerrou oito pesquisadores em um bioma fechado, em que todos teriam uma dieta controlada e quase totalmente baseada em vegetais, a maioria das culturas trabalhosa de manter e que demorava a dar frutos; ao invés de um jardim farto, os voluntários se viram em uma situação de subsistência, além de uma baixa concentração de oxigênio disponível, e não parou por aí.
Mesmo em um grupo reduzido, o time se dividiu em duas facções sobre como o experimento deveria ser conduzido; amigos de longa data se tornaram inimigos ferrenhos, que mal se olhavam na cara um do outro. A escassez de comida, agravada pela morte das poucas criações no bioma, chegou a tal ponto que os pesquisadores chegaram a comer sementes reservadas para o cultivo.
Embora o experimento da Biosphere 2 seja taxado como um fracasso pela mídia, ele foi crucial ao mostrar até que ponto um cenário de isolamento total e escassez de recursos pode influenciar até mesmo grupos formados pelos mais qualificados profissionais em suas áreas; o novo estudo apenas reforçou que há muito o que levar em conta sobre a psicologia humana antes de enfiar uma cabeçada de gente em uma nave e despachá-los para o fim do Universo, esperando que tudo vá correr bem.
Spoiler: não vai.
CANTISANI, A., SCHMUTZ, J. B., MARQUES-QUINTEIRO, P., WALTHER, S. Social interactions in isolated, confined, and extreme environments: A study of Antarctic winter teams using wearable sensors. PNAS (2026), Volume 123, Edição 22, 26 de maio de 2026.
Fonte: ExtremeTech