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NASA: Congresso dos EUA barra cortes de Trump no orçamento

Proposta de orçamento da NASA para 2026 rejeita cortes da Casa Branca; Mars Sample Return rodou, e Observatório Chandra quase garantido

21 semanas atrás

Quem diria, o ano de 2026 começou com boas notícias para a NASA: o Congresso dos Estados Unidos apresentou uma proposta final de orçamento para a agência durante o ano fiscal vigente (que lembrando, começou em outubro de 2025), que rejeita quase que completamente todos os cortes propostos pelo gabinete do presidente Donald Trump.

O montante de US$ 24,438 bilhões (~R$ 132,3 bilhões, cotação de 06/01/2026) representa uma redução de apenas 1% em relação ao budget de 2025; a proposta ainda precisa ser votada em plenário e só então seguirá para sanção, mas dificilmente a Casa Branca colocará novos entraves na questão.

Orçamento final do Congresso para a NASA em 2026 ainda vai passar por votação e sanção presidencial, mas dificilmente será revisto a essa altura (Crédito: Jessie Hodge/Flickr)

Orçamento final do Congresso para a NASA em 2026 ainda vai passar por votação e sanção presidencial, mas dificilmente será revisto a essa altura (Crédito: Jessie Hodge/Flickr)

Orçamento da NASA reduzido em apenas 1%

Vamos dar uma repassada na história até o momento:

A Casa Branca havia proposto inicialmente um corte violento no orçamento da NASA, de 24,838 bilhões (~R$ 134,4 bilhões) em 2025, para US$ 18,809 bilhões (~R$ 101,8 bilhões) em 2026, uma redução geral de 25% na grana; a paulada desceria com mais força sobre o setor de Ciência, com um corte violento de 47% na verba.

Com uma redução de US$ 7,3 bilhões (~R$ 39,5 bilhões) para US$ 3,9 bilhões (~R$ 21,1 bilhões), diversas missões ligadas a Ciências Terrestres, principalmente as voltadas a mudanças climáticas, que Donald Trump abomina ("golpes verdes", segundo o presidente dos EUA), e de observação do Espaço, seriam reduzidos ou, preferencialmente, cancelados e encerrados.

A proposta da Casa Branca incluía cancelamentos de missões como New Horizons e Juno, fechamento e consolidação de centros de pesquisas, demissões em massa, e interrupção imediata de todos os programas de DEI (Diversidade, Equidade, e Inclusão), a exemplo das demais agências governamentais, conforme dita o Projeto 2025 da Heritage Foundation, uma idiotice completa que está sendo implementada à risca mesmo assim.

A NASA não teria grana nem para o básico, todos os esforços deveriam ser voltados à exploração espacial, especialmente missões tripuladas rumo a Lua e Marte, enquanto todo o trabalho pesado seria terceirizado para companhias como SpaceX e Boeing; em suma, a agência espacial seria convertida em uma mera fretadora.

O problema, o Congresso não gostou do plano de Trump. São os senadores e representantes quem definem e autorizam o orçamento, e o presidente só assina, e o gesto da Casa Branca foi entendido como interferência no Legislativo; ambas casas apresentaram propostas divergentes, com valores próximos ao do orçamento total de 2025, mas com diferenças na distribuição da grana.

O desentendimento entre as partes (Trump estaria inclusive propenso a passar por cima do Congresso, com apoio da Suprema Corte) foi mais um dos motivos que levaram ao mais longo shutdown que os EUA já enfrentaram (43 dias), e a decisão final sobre o orçamento da NASA ficou para agora, o que surpreendeu todo mundo: com uma redução prática de apenas US$ 400 milhões (~R$ 2,2 bilhões), ou −1%, quase nada foi mexido.

Até o orçamento para iniciativas de DEI permaneceu o mesmo, e se a decisão sobre o Departamento de Saúde servir como um norte, a Casa Branca desistiu de implicar com isso.

Proposta final do Congresso saiu melhor do que qualquer um esperava (Crédito: Grant Tremblay/X)

Proposta final do Congresso saiu melhor do que qualquer um esperava (Crédito: Grant Tremblay/X)

O astrofísico Grant Tremblay, ligado ao projeto do Observatório de Raios-x Chandra (mais sobre isso a seguir), publicou em seu perfil no X a proposta final de US$ 24,438 bilhões do Congresso, que ainda deverá ser votada, mas já parece promissora.

Ele não reverte os cortes de pessoal executados durante o programa de demissões voluntárias, nem as dispensas executadas pelo Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), mas como disse Casey Dreier, chefe de Políticas Espaciais da ONG Sociedade Planetária, "há muito para quase nada sobre o que não gostar" na proposta.

O setor de Ciência, originalmente o mais afetado pela proposta de Trump, terá uma redução irrisória de 1,14% na grana dedicada, e receberá US$ 7,25 bilhões (~R$ 39,24 bilhões); a Fundação Nacional da Ciência (NSF), que originalmente levaria uma martelada de 57%, ficará com um orçamento apenas 4% menor em relação a 2025, com US$ 8,75 bilhões (~R$ 47,4 bilhões).

Até mesmo o Smithsonian, que está no meio de uma pendenga com congressistas do estado do Texas pela posse do ônibus espacial Discovery, sofreu um corte de apenas 1%, ao invés dos 12% planejados pelo gabinete de Trump; já o de exploração espacial, o único que receberia um aumento substancial na proposta da Casa Branca, receberá um reajuste de apenas US$ 117 milhões (~R$ 633,2 milhões), ou +1,5%.

Vendo por programa, ainda não há consenso sobre quanta grana o Observatório Chandra vai receber (Crédito: Grant Tremblay/X)

Vendo por programa, ainda não há consenso sobre quanta grana o Observatório Chandra vai receber (Crédito: Grant Tremblay/X)

Mesmo com as boas notícias, a proposta de orçamento da NASA para 2026 teve uma casualidade, que todo mundo sabia que aconteceria, enquanto outro projeto ainda não está completamente definido.

Mars Sample Return cancelada, Chandra quase OK

A missão Mars Sample Return (MSR) era, de longe, o maior elefante branco da NASA. O plano conjunto com a Agência Espacial Europeia (ESA) consistia originalmente em um lander, com um rover dedicado a coleta de materiais do solo marciano, um braço robótico para transferir as amostras, e um MAV (Mars Ascension Vehicle, ou Veículo de Ascensão Marciana), basicamente um foguetinho, para despachar o material até uma sonda em órbita (vinda de um segundo lançamento), que o coletaria e o redirecionaria para a Terra.

A ideia girava em torno de estudar amostras de Marte o mais rápido possível, para não depender de uma futura missão tripulada que ninguém sabe quando vai acontecer (e não, Elon Musk querer para ontem não é o bastante), mas com o tempo, o projeto acumulou uma penca de penduricalhos e módulos adicionais, incluindo dois landers e até dois drones (dado o bom desempenho do Ingenuity), que atrasaram a missão e claro, foram deixando-a cada vez mais cara.

Quando a NASA percebeu, os custos com P&D já estavam na casa de US$ 1 bilhão por ano, e o escopo final alcançou a cifra insana de US$ 11 bilhões, um bi a mais que o ticket final do Telescópio Espacial James Webb (JWST). Os principais envolvidos no projeto foram dispensados, e o JPL foi ordenado a rever a bagaça de alto a baixo.

Nisso, surgiram duas opções: cancelar tudo e deixar a cargo de uma missão tripulada resgatar as amostras em um futuro distante, ou terceirizar a empreitada, no que a Boeing ofereceu seu "martelo" SLS e um lander próprio, mas os custos continuavam altos.

Com um orçamento original maior que o do James Webb, missão Mars Sample Return foi podada sem cerimônia (Crédito:NASA/JPL-Caltech)

Com um orçamento original maior que o do James Webb, missão Mars Sample Return foi podada sem cerimônia (Crédito:NASA/JPL-Caltech)

Agora, com a proposta final do orçamento, o Congresso tomou a decisão mais óbvia e sensata e cancelou o MSR. A ESA pode e provavelmente vai reclamar, mas it is what it is, o projeto saiu totalmente do controle.

Como tecnologia nunca é desperdiçada, o que foi aprendido no processo, inclusas as novas tecnologias propostas, serão aprimoradas e adaptadas para outras missões em Marte, e até mesmo na Lua; o orçamento proposto reservou inclusive US$ 110 milhões para "futuras missões" focadas no planeta vermelho, voltadas a "sistemas de radar e espectrografia, e de entrada na atmosfera, descida e pouso", os Sete Minutos de Terror.

O documento também reserva US$ 10 milhões para uma proposta de uma sonda em órbita de Urano, mais US$ 150 milhões dedicados a um novo telescópio chamado Observatório de Mundos Habitáveis (HWO), e mantém os planos para a DAVINCI (antes DAVINCI+) em Vênus.

Outro que também não está muito bem na foto no orçamento para 2026 da NASA é o Observatório de Raios-X Chandra. Lançado em 1999, ele foi projetado para uma missão de apenas 5 anos, mas como tudo que envolve a agência e suas redundâncias de redundâncias, ele opera com total tranquilidade há mais de 26 anos. É o instrumento mais sensível para observações nesse espectro, e já captou imagens estonteantes do Cosmos, como um timelapse da nebulosa de Caranguejo, e a pulsar PSR B1509−58, cujas emissões ficaram conhecidas como a "mão de Deus".

Infelizmente para a NASA e pesquisadores ligados ao projeto, o gabinete de Donald Trump expressou o desejo específico de cancelar a missão do Chandra, redesignar a equipe em solo, e deixá-lo sozinho no Espaço, sem monitoramento algum.

Pense na tirinha mais triste do mundo, mas com o observatório como protagonista; é a mesma ideia.

Projetado para uma missão de 5 anos, Chandra opera desde 1999 sem problemas (Crédito: NASA/Chandra X-ray Center)

Projetado para uma missão de 5 anos, Chandra opera desde 1999 sem problemas (Crédito: NASA/Chandra X-ray Center)

O grande problema para o Chandra, o Senado e a Casa de Representantes parecem não ter chegado a um acordo sobre quanta grana direcionar a ele. O primeiro defende os mesmos US$ 63 milhões destinados em 2025, enquanto o segundo "apoia a continuidade da missão", mas nenhuma das partes estabeleceu uma quantia definitiva.

As declarações não são contraditórias, ambas casas concordam que o observatório deve continuar operando e fornecendo imagens do Espaço, o único ponto destoante é a proposta de Trump, que previa efetivos US$ 0 e o cancelamento da missão. O argumento da Casa Branca é o de poupar verba sendo gasta com "uma missão de mais de 10 anos", mas dado que o Chandra é o único instrumento avançado de visualização de emissões de raios-x em atividade, o fim do projeto causaria um "evento de extinção em massa" de pesquisas relacionadas.

De qualquer forma, a previsão é de que a Casa de Representantes vote a proposta durante a primeira semana de janeiro, com o Senado fazendo o mesmo na próxima; no melhor cenário possível, Trump assinaria o orçamento até o fim do mês, que entraria em vigor imediatamente.

Dado todo o rolo até aqui, perder a MSR foi um preço pequeno, considerando que o projeto tinha perdido completamente a mão.

Fonte: Ars Technica

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