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ISS: políticos propõem ideia maluca para preservar estação

Membros do Congresso dos EUA sugerem que ISS seja movida para órbita mais alta; o problema, não temos tecnologia para isso

16 semanas atrás

A NASA se prepara para dar adeus à Estação Espacial Internacional (ISS) daqui a alguns anos. Se tudo correr conforme o planejado, ela deverá fazer uma reentrada controlada na atmosfera da Terra por volta de 2035, para de preferência mergulhar no Oceano Pacífico.

No entanto, um projeto proposto por membros do Congresso dos Estados Unidos sugere que a estação seja preservada, de modo a ser recomissionada no futuro se necessário, dando a entender que a NASA deveria estudar meios de deslocar a ISS para uma órbita mais alta, ou MUITO mais alta.

Congresso dos EUA deve liberar orçamento para plano de descida controlada da ISS... mas alguns representantes têm outras ideias (Crédito: Divulgação/NASA)

Congresso dos EUA deve liberar orçamento para plano de descida controlada da ISS... mas alguns representantes têm outras ideias (Crédito: Divulgação/NASA)

O problema, a tecnologia para tal empreitada não existe no momento, o que nos traz de volta ao dilema de não-técnicos querendo administrar o que não entendem.

ISS, de estação a pepino espacial

O rolo começou quando o Comitê de Ciência, Espaço e Tecnologia da Câmara dos Representantes votou a favor da Lei de Reautorização (NASA Reauthorization Act of 2026), um projeto que é basicamente uma "carta de autorização", que dá controle fino aos legisladores sobre a direção estratégica da NASA, ao invés do Congresso apenas liberar a verba e deixar os técnicos fazerem seu trabalho.

O projeto recebeu mais de 40 emendas na última votação, que recebeu aprovação unânime e seguirá para votação na Casa por todos os representantes; se passar, ela segue para votação no Senado, para só então chegar à mesa do presidente dos EUA Donald Trump, que ao que tudo indica, deverá sancionar o projeto.

As emendas tratam de assuntos diversos, por exemplo, desenvolvimento de tecnologias de carga para destinos no espaço profundo (muito provavelmente Marte) e o estabelecimento de uma base lunar permanente até dezembro de 2030, mas a mais curiosa e inusitada é a Emenda N.º 36 (cuidado, PDF), apresentada pelos representantes George Whitesides (DEM/Califórnia) e Nick Begich (GOP/Alaska), sobre procedimentos a serem considerados para uma possível preservação de longo prazo da ISS.

Conforme mencionamos no passado, a estação está se aproximando do fim do seu ciclo de vida útil, e sua órbita está decaindo pouco a pouco; a estimativa é que a ISS passe do ponto de não retorno entre 2030 e 2031, quando não poderá mais ser recuperada, culminando na reentrada na atmosfera e choque na superfície (de preferência, no oceano) por volta de 2035.

Os EUA tentam há anos desenrolar o projeto da estação Lunar Gateway, que Trump quer cancelar de todo jeito, enquanto a China, que não quis participar da construção, se voltou para uma empreitada própria com a parcialmente funcional Estação Espacial Tiangong. Os russos, que também se recusaram a colaborar até querem uma nova estação, onde planejam reutilizar o módulo da ISS, mas terão que combinar a desacoplagem com os ianques primeiro.

Diagrama da Lunar Gateway e quem vai construir cada módulo... se o projeto vingar, claro (Crédito: NASA)

Diagrama da Lunar Gateway e quem vai construir cada módulo... se o projeto vingar, claro (Crédito: NASA)

A emenda N.º 36 impõe ao administrador da NASA (no caso, Jared Isaacson) a responsabilidade de executar um plano para averiguar "a viabilidade técnica, operacional e logística de transferir a ISS para um porto orbital (uma altitude em que ela permaneceria em estado seguro, sem haver riscos de uma reentrada descontrolada)" após o período de vida útil da estação, o que, na prática, seria antes do decaimento de sua órbita atingir o ponto de não retorno.

A comissão do Congresso justifica tal empreitada da maneira mais óbvia possível, a ISS consumiu mais de US$ 150 bilhões (mais de R$ 780 bilhões, cotação de 10/02/2026) em dinheiro dos contribuintes, e não seria interessante jogar esse empreendimento no fundo do mar, por mais que toda a lógica aponte que esse é o curso correto das coisas, simplesmente por não ter mais o que fazer com a estação para estender seu tempo de uso.

De modo sábio, a emenda não sugere uma mudança na política de descarte da ISS, mas impõe a necessidade de que discussões e avaliações sejam realizadas (e consequentemente, dinheiro público seja gasto) para ao menos estudar a possibilidade de preservar a estação para as futuras gerações, conforme apontado pelo representante Whitesides.

A ideia poderia ser conduzida com base em estudos já conduzidos pela NASA, durante o desenvolvimento do plano que envolverá uma cápsula Dragon da SpaceX agindo como "rebocador" e condutor da ISS para uma reentrada controlada. Ao usar propulsores para deslocar a massa para uma altitude maior, em torno de 420 km, a estação permaneceria em órbita estável por pelo menos 100 anos; se movida ainda mais alto, por volta de 2 mil km, ela ficaria quietinha circulando a Terra por aproximadamente 100 mil anos.

O problema desse plano é que papel aceita tudo, mas na hora de aplicar, a Realidade fala mais alto: mover as mais de 400 toneladas da ISS para uma órbita de entre 640 e 680 km consumiria entre 18,9 e 22,3 t de propelente, o dobro do necessário para derrubá-la com estilo sobre o Pacífico, e 2 mil km exigiria 133 t de combustível.

Falando em português bem claro, não temos a tecnologia. Tal missão envolveria o desenvolvimento de novos motores de propulsão e tanques de combustível grandes e resistentes o bastante para elevar a ISS a uma órbita mais alta, lembrando que ela se encontra no momento a entre 400 km e 420 km de altitude em relação ao nível do mar.

Representação artística do "rebocador espacial" (oficialmente, "veículo de desorbitação") da SpaceX, desenvolvido com base na cápsula Dragon, encarregadoo de derrubar a ISS (Crédito: SpaceX)

Representação artística do "rebocador espacial" (oficialmente, "veículo de desorbitação") da SpaceX desenvolvido com base na cápsula Dragon, e encarregado de derrubar a ISS (Crédito: SpaceX)

Na sua análise, a NASA anota que existem "desafios proibitivos de engenharia" que impedem a aplicação dos planos de acoplar um veículo, que decididamente seria enorme, e empurrar a ISS mais para cima. Só o processo de desenvolvê-los consumiria vários anos, entre prototipagem, construção e certificação, e a estação não tem tanto tempo hábil assim; além disso, não há nenhum meteoro vindo na nossa direção para nos forçar a apressar planos de desenvolvimento aeroespacial, ao ponto de passar por cima da segurança.

Além disso, elevar a órbita da ISS exporia a estação a detritos perigosos, que transitam a partir dos 800 km, e sem uma equipe permanente para remanobrá-la, as chances de algo dar muito errado seriam muito enormes. Basta lembrar de um incidente recente, culpa de russos sendo russos, que já causou dores de cabeça na tripulação a bordo.

É fato que a ISS consome muita grana (mais de US$ 3 bi/ano), e o programa de estações comerciais anda a passos de tartaruga e com pouco dinheiro, mas preservar a ISS quando ela está praticamente no bico do corvo é um pouco demais. Ninguém questiona sua utilidade e importância, mas é preciso agir como o Dr. Henry Jones Sr. nos ensinou, e exercitar o desapego.

De resto, a única coisa a lamentar é que a ISS nunca terá o mais digno dos destinos, como mostrado na melhor abertura de um filme de todos os tempos:

Fonte: Ars Technica

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