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China e NASA em vias de iniciar nova corrida espacial

Bill Nelson, diretor da NASA, alerta para ambições da China buscando controlar partes da Lua, usando a pesquisa como desculpa

05/01/2023 às 10:37

A NASA se prepara para encarar uma segunda corrida espacial, mas desta vez contra a China, ao menos é o que diz Bill Nelson, administrador da agência espacial norte-americana. Em entrevista concedida no último domingo (1.º), a Administração Nacional do Espaço da China (CNSA) planeja assumir o controle de áreas da Lua, sob o pretexto de "pesquisa científica".

Embora hajam tratados que impeçam nações de clamar soberania sobre territórios lunares, Nelson não acredita que Pequim irá respeitá-los, citando exemplos de violações similares na Terra, por parte dos chineses.

Bill Nelson desconfia que a China usará o argumento de pesquisa para assumir controle de regiões da Lua, infringindo acordos internacionais (Crédito: Getty Images)

Bill Nelson desconfia que a China usará o argumento de pesquisa para assumir controle de regiões da Lua, infringindo acordos internacionais (Crédito: Getty Images)

As preocupações de Bill Nelson parecem exageradas, mas há alguns pontos que merecem atenção. Nos últimos anos, a China ampliou seus planos de exploração espacial, investindo pesado em pesquisa de longo prazo, focando especialmente na Lua e na Estação Espacial Tiangong (TSS), esta tendo recebido expansões recentes e com outras planejadas para o futuro.

Sobre a Lua, há planos concretos para mandar uma equipe de taikonautas ao satélite até o fim da década, e a médio prazo, a construção de uma base permanente de pesquisa, no que a Rússia estaria interessada em uma parceria (nota: isso foi antes da guerra com a Ucrânia). Esta seria aberta a pesquisadores de outros países, preferencialmente, os que não assinarem os Acordos Artemis.

Esse tratado estabelece os EUA e a NASA como os "guardiões" do satélite (basicamente, os caseiros) para exploração científica e comercial, no que nenhuma outra nação que concorde com o estipulado poderá fazer nada sem o consentimento de Washington; os Acordos Artemis visam também a padronização dos veículos espaciais, o que a Rússia se negou a assinar, pois as cpásulas Soyuz foram totalmente postas de fora pelos ianques.

De fato, o então diretor da Roscosmos Dmitry Rogozin acusou o projeto de ser "americano demais", opinião compartilhada por Zhang Kejian, diretor da CNSA. No fim, tanto Rússia quanto China se recusaram a assinar os Acordos Artemis, partindo para projetos próprios de exploração da Lua.

Com a Rússia agora ocupada demais com a Ucrânia para pensar no Espaço, a China continuou trabalhando por conta própria, e as atenções se voltaram para o País do Meio recentemente, quando a missão Chang’e-5 descobriu um novo mineral lunar com traços de Hélio-3, o dito "combustível do futuro" que viabilizará a fusão nuclear comercial, um dia quem sabe.

As falas de Nelson se alinham com o sucesso recente da missão Artemis 1, em que uma cápsula Orion não-tripulada fez uma volta ao redor da Lua e retornou (sim, finalmente o SLS saiu do chão), abrindo caminho para o retorno de astronautas americanos ao satélite, o que se tudo correr bem, deverá acontecer em 2025, um prognóstico ainda não levado a sério por muitos; há quem diga que a primeira missão tripulada da NASA só deverá ser lançada por volta de 2030.

A última coisa que os EUA querem é a China (ou qualquer outro país) declarando soberania sobre territórios na Lua (Crédito: Reprodução/James Vaughan)

A última coisa que os EUA querem é a China (ou qualquer outro país) declarando soberania sobre territórios na Lua (Crédito: Reprodução/James Vaughan)

Ao mesmo tempo, Nelson não ficou muito contente com a mais recente rodada de investimentos que o Congresso liberou para a NASA, a ser usado em 2023: foram alocados US$ 25,4 bilhões, US$ 1,3 bilhão a mais que em 2022, mais US$ 554 a menos do que a agência havia solicitado. O dinheiro necessário para as missões Artemis 2 e 3 estaria garantido, mas outros empreendimentos terão que ser analisados caso a caso; é quase certo que a SpaceX será, de novo, colocada em segundo plano.

O que anda preocupando Nelson, no entanto, é a pressa da China em estender sua influência rumo à Lua, principalmente depois da descoberta de Hélio-3 em uma região específica, de Oceanus Procellarum, cujo solo é em média 1 bilhão de anos mais jovem do que as áreas analisadas anteriormente por EUA e União Soviética, onde nada foi encontrado.

Ainda que, segundo pesquisas recentes, o Hélio-3 seja dez vezes mais comum na Terra do que se pensava, o elemento é abundante na Lua, estimulando o interesse em minerar o satélite. Sob a ótica de Bill Nelson, a China estaria interessada em despachar equipes permanentes para o satélite, em específico para regiões onde elementos interessantes podem ser extraídos, e declarar soberania territorial, impedindo quaisquer outras nações de chegarem perto. Especialmente os Estados Unidos.

Tecnicamente, nenhuma nação pode fazer isso. O Tratado do Espaço Sideral, elaborado em 1967 por EUA, URSS e Reino Unido, e assinado por 111 países (Brasil incluso), limitam o uso da Lua e todos os demais corpos celestes do Sistema Solar a fins pacíficos; na teoria, nenhum governo da Terra pode chegar em um deles, cravar sua bandeira e dizer "agora é meu".

Na prática, a coisa é bem diferente. Primeiro, o tratado não levou em conta a possibilidade de exploração espacial por empresas particulares (na época, ninguém considerou que isso seria possível), e segundo, papel aceita qualquer coisa. A China é signatária, mas não quer dizer que, uma vez que o país se estabeleça na Lua antes dos demais, a conversa não mude.

Nelson cita como exemplo a situação atual em diversas ilhas do Mar da China Meridional, como as ilhas Spratly, em que instalou bases militares em territórios disputados, sem contar o estranhamento e aumento de tensão entre Pequim e Taipei, nos anos recentes, com o premiê Xi Jinping tendo inclusive ameaçado unificar Taiwan à força.

A Lua pode ficar um pouco mais vermelha no futuro (Crédito: ktphotography/Pixabay)

A Lua pode ficar um pouco mais vermelha no futuro (Crédito: ktphotography/Pixabay)

Nelson foi taxativo:

"Isso é um fato: nós estamos em uma corrida espacial (...). E é verdade que é melhor nós (a NASA) tomarmos cuidado para que eles (a China) não tomem um pedaço da Lua, usando a desculpa de pesquisa científica."

Em 2019, a China estabeleceu planos para a criação de uma "zona econômica espacial" entre a Terra e a Lua, com a meta de extrair bens do satélite em valores de US$ 10 trilhões, por ano. Na época, analistas americanos alertaram para a clara intenção do governo chinês de "estipular regras próprias" sobre quem teria acesso à Lua, e como, sem dar a mínima para os tratados vigentes.

Agora, Nelson aponta que a obrigação da NASA, e dos EUA, é manter os planos para não ficar para trás, algo que alguns dentro do governo dizem ser possível. A tenente-general Nina Armagno, chefe de gabinete da Força Espacial, disse ser "perfeitamente possível" que a China ultrapasse os americanos na exploração da Lua, dado que seu desenvolvimento em tecnologias para o espaço "está progredindo muito rápido".

Resta saber se a NASA vai pagar para ver, ou vai correr para não ficar chupando o dedo, até porque é claro que há o interesse de explorar comercialmente a Lua por parte do governo americano, com ou sem tratados.

Fonte: Politico

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