Ronaldo Gogoni 11 semanas atrás
A NASA tem um baita abacaxi nas mãos, que responde por Mars Sample Return. A missão, uma joint venture com a Agência Espacial Europeia (ESA), visa coletar, armazenar, e enviar amostras do solo de Marte de volta à Terra, de forma autônoma.
A missão, sofreu vários atrasos e mudanças no escopo, para garantir a segurança, só que as alterações fizeram o custo estimado, que já era alto (US$ 4,4 bilhões), dobrar.
Conceito do módulo NASA Sample Retrieval Lander, que teria o tamanho de uma garagem para dois carros (Crédito:NASA/JPL-Caltech)
Missões autônomas de coleta e recuperação de amostras de solo de outros corpos celestes não são uma novidade, já conseguimos trazer material da Lua, a primeira sendo a Hayabusa da Agência Espacial Japonesa (JAXA) em 2010, e depois a chinesa Chang'e 5, em 2020. Já a sonda OSIRIS-REx recuperou amostras do asteroide 101955 Bennu, em 2016.
As coisas complicam quando o alvo é Marte, que o diga a missão Phobos-Grunt. A maioria das missões do tipo consistem em rovers e laboratórios estáticos, como a Viking 1, coletando amostras e as armazenando por tempo indeterminado, até o dia em que uma missão tripulada passe pelas sondas e colete os materiais.
A China já tem a missão Chang'e 6 agendada para 2024, de modo a repetir em Marte o bom resultado na Lua, enquanto a NASA e a ESA tentam desenrolar o Mars Sample Return. Os estudos da NASA começaram em 2001, mas apenas em 2018 as agências norte-americana e europeia firmaram um compromisso de cooperação.
Thomas Zurbuchen, que de 2016 a 2022 foi o administrador associado (na prática, o chefe) da Diretoria de Missões Científicas (SMD) da NASA, era responsável por definir um escopo e etapas da missão, e a proposta era bem ousada.
Originalmente, a Mars Sample Return consistiria em um lander, equipado com um rover para a coleta, um braço robótico para transferência do material e um MAV (Mars Ascention Vehicle), o veículo de ascensão, basicamente um foguetinho. Um lançamento acessório colocaria uma sonda em órbita, para capturar o MAV e mandar as amostras em direção à Terra.
O lançamento original estava programado para 2026, mas o projeto foi alterado para aumentar a segurança, e passou a contar com dois landers. Um deles, chamado SLR1, conteria o MAV e o braço robótico, enquanto o segundo, de nome SL2, comportaria o rover. Há também um projeto para dois helicópteros coletores, similar ao Ingenuity.
Posteriormente, o lander foi abandonado em prol de usar exclusivamente a Perseverance, já em Marte, mas como ela pode apresentar problemas, afinal nunca se sabe, o projeto incluiu dois helicópteros, baseados no Ingenuity, para retirar materiais do solo.
Vendo assim, a Mars Sample Return é um pesadelo, pois depende de uma série de veículos e sondas independentes, onde nada pode dar errado, e o Espaço não perdoa (não tanto quanto o fundo do mar, que a gente conhece bem menos, mas divago).
O uso de dois landers, ao invés de um, justifica a cautela da NASA e da ESA, mas essa preparação para cobrir todas as chances de zica esbarrou na Realidade: a brincadeira vai ficar MUITO cara.
Zurbuchen conta que, durante o período em que esteve à frente da SMD, foi a Mars Sample Return a missão que o fazia passar noites em claro, pois o escopo ameaçava devorar todo o orçamento da NASA, e os legisladores não estão nada felizes. Originalmente, o custo do projeto foi orçado em US$ 4,4 bilhões, mas isso foi antes de avaliarem o projeto e concluírem que precisavam de dois landers, para minimizar os riscos.
Corta para 2023: segundo duas fontes próximas, os diretores da missão Richard Cook (JPL) e Jeff Grambling (NASA), estimaram o novo custo do projeto na última semana, que deve girar agora entre US$ 8 bilhões e US$ 9 bilhões.
A título de comparação, o orçamento total da agência norte-americana para 2023 é de US$ 25,4 bilhões, considerando o incremento autorizado pelo presidente Joe Biden, para dar à Blue Origin de Jeff Bezos a oportunidade de desenvolver o segundo lander lunar da missão Artemis.
Ah, sim: esses valores envolvem apenas os custos de construção, excluindo os de lançamento, operacionais a longo prazo, pois o retorno das amostras estaria agora previsto para 2033, se a data de 2028 para chegada à Marte for mantida, a construção de laboratórios para lidar com os materiais...
Em média, o valor total chegaria fácil aos US$ 10 bilhões, o mesmo do Telescópio Espacial James Webb, que atrasou anos e custou muito mais do que o originalmente orçado.
A NASA sabe que uma missão como a Mars Sample Return é complicada, e consequentemente cara, mas entusiastas e até mesmo gente próxima entende que, talvez, os responsáveis tenham metido os pés pelas mãos.
Projeto inclui dois landers, dois helicópteros, o MAV, e um orbitador para coletar e lançar as amostras rumo à Terra. A Perseverance, que aparece na imagem, trabalharia em conjunto (Crédito:NASA/JPL-Caltech)
Zurbuchen cita que "erros técnicos horrendos" foram cometidos durante o planejamento, o principal sendo o lander único, depois entendido como uma vulnerabilidade gigantesca; a grana extra seria direcionada para consertar tais hagadas, o que inclui a segunda plataforma.
Em 2023, foram direcionados US$ 822 milhões para o projeto, no que a agência pediu mais US$ 949 milhões para 2024; em abril, o administrador Bill Nelson tentou levantar mais US$ 250 milhões.
Não obstante, o projeto está consumindo tempo de desenvolvimento da NASA JPL, o que levou inclusive ao atraso no lançamento da missão Psyche, para o estudo do núcleo do asteroide de mesmo nome. Programada originalmente para 2022, ela ficou para 5 de outubro de 2023, se nada mais der errado.
Há a preocupação dentro da JPL envolvendo a construção do lander, a maior ferramenta que ela já produziu. Quando totalmente aberta, ela medirá 7,7 metros de largura e 2,1 m de altura, basicamente uma garagem para dois carros. A maioria da massa de 3,4 toneladas métricas será combustível, claro.
Hoje, estima-se que o lançamento vai atrasar, ficando apenas para 2030, e os custos continuarão aumentando; em média, a Mars Sample Return está consumindo US$ 1 bi por ano, e não restam muitas opções a não ser controlar os gastos.
Uma alternativa seria abrir o projeto para competição, ao invés da NASA (leia-se, o governo dos EUA) bancar tudo. Landers já estão sendo desenvolvidos por companhias parceiras como SpaceX, Lockheed Martin e Blue Origin, além de Astrobotic e Intuitive Machines.
Outra envolve dispensar os dois helicópteros e contar exclusivamente com a Perseverance para a coleta de amostras, no que ambas plataformas já são compatíveis. O risco é se o rover morrer nesse meio tempo, o que deixaria a NASA sem um backup; o Ingenuity, embora possa continuar funcionando até lá, não foi equipado para retirar materiais do solo, é só uma (ótima) câmera voadora.
Segundo Zurbuchen, se o projeto está escalando para US$ 10 bilhões agora, durante a fase de pré-produção, as agências americana e europeia precisam urgentemente considerar um plano de contenção de custos, ou mesmo paralisar o projeto, "caso esta não seja a década ideal para isso", se a empreitada acabar queimando pontes.
Para o ex-diretor da SMD, "é preciso ter coragem para dizer não; é o único meio que nos dá o direito posterior de dizer sim".
Fonte: Ars Technica