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NASA e Pentágono não querem depender de Elon Musk

Arranca-rabo entre Donald Trump e Elon Musk levou NASA e Pentágono a pedirem para competidores desenvolverem alternativas à SpaceX

51 semanas atrás

O arranca-rabo público travado entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o bilionário Elon Musk, fez a NASA e o Pentágono entrarem no modo gerenciamento de crise: sempre contar com contingências para todas as ocasiões, traçando planos de A a ZZZ para cobrir situações desfavoráveis.

De modo a não dependerem de soluções de um único fornecedor, que pode perder contratos governamentais do dia para a noite, ambas agências pediram a concorrentes da SpaceX para apressarem o desenvolvimento de foguetes e cápsulas espaciais, para que a agência espacial não fique na mão de uma hora para outra.

O foguete Atlas V da ULA, e mesmo a problemática cápsula Starliner da Boeing, seriam opções viáveis à NASA (Crédito: AFP)

O foguete Atlas V da ULA, e mesmo a problemática cápsula Starliner da Boeing, seriam opções viáveis à NASA (Crédito: AFP)

NASA e Pentágono querem opções

Os ânimos entre Elon Musk e Donald Trump se alteraram a partir do dia 4 de junho de 2025, quando o bilionário começou a criticar a One Big Beautiful Bill Act (ao pé-da-letra, "Um Projeto de Lei Grande e Belo"), de alterar profundamente o sistema tributário norte-americano, o que inclui mais cortes de gastos, incentivos e subsídios.

Um dos objetivos da Casa Branca é cortar os subsídios da indústria de veículos elétricos em prol dos tradicionais a combustão, o que afetará diretamente a Tesla Motors, montadora de Musk, e favorecerá empresas tradicionais como GM e Ford. Enquanto estava no governo à frente do DOGE, o departamento criado para enxugar a máquina pública, o bilionário não teceu nenhuma crítica ao projeto de Trump, mas tudo mudou tão logo ele deixou o cargo.

Musk começou a criticar os gastos do governo, que continuavam altos (em verdade, o DOGE consegue gastar mais verba do que economiza, mas divago), e criticou diretamente a One Big Beautiful Bill Act (vamos abreviar como OBBBA para facilitar), no que o presidente respondeu, dizendo que "a melhor forma de economizar bilhões de dólares, é cortar todos os subsídios e contratos federais" de Musk.

Este, que não sabe a hora de enfiar o pé na boca, escalou a lavagem de roupa suja, ao ameaçar com o descomissionamento da cápsula Crew Dragon, da qual a NASA depende para missões relacionadas à Estação Espacial Internacional (ISS), e ao dizer que o nome de Trump é citado nos documentos referentes à investigação de Jeffrey Epstein, magnata acusado de manter uma rede de prostituição infantil que contava com várias celebridades como "clientes", morto em 2019.

Musk apagou posteriormente a postagem referente ao caso Epstein, e retrocedeu na ameaça de aposentar a Crew Dragon, mas a NASA e o Pentágono não gostaram nem um pouco do comentário, e começaram a se mexer.

Ainda que a lavação de roupa suja entre Musk e Trump tenha desescalado, NASA e Pentágono não querem depender de uma única opção (Crédito: Matt Rourke/AP)

Ainda que a lavação de roupa suja entre Musk e Trump tenha desescalado, NASA e Pentágono não querem depender de uma única opção (Crédito: Matt Rourke/AP)

Quando a SpaceX começou a pressionar por mais espaço em lançamentos aeroespaciais, ela o fez apontando o dedo para a United Launch Alliance (ULA) de Tory Bruno, que usava foguetes russos com os seus. Ao apresentar a Crew Dragon, um projeto que só foi para a frente porque a Boeing entrou no páreo de lançamentos suborbitais com a Starliner, os EUA se livrariam da dependência das Soyuz, que a Roscosmos, a agência espacial russa, cobrava caro por assento.

Na época, o então diretor Dmitry Rogozin ironizou a pretensão dos malditos ianques em querer andar com as próprias pernas, e em protesto pelas sanções cada vez maiores impostas à Rússia:

"Após revisar as sanções contra nosso programa espacial, sugiro aos Estados Unidos que mandem seus astronautas para a Estação Espacial usando um trampolim."

Musk, que não perde uma oportunidade, devolveu na mesma moeda quando a Dragon foi lançada, ao dizer que "o trampolim está funcionando", um gracejo que Rogozin odiou; o problema, de lá para cá a NASA não tem nada similar como backup, a Starliner só deu dores de cabeça, e a Boeing estaria tentando se livrar dela.

Ainda que os ânimos entre Musk e Trump tenham arrefecido, a agência espacial e o Pentágono não podem se dar ao luxo de dependerem das flutuações de humor de um bilionário histriônico e um presidente egocêntrico em conflito. Assim, ambas agências teriam contactado pelo menos três companhias, Rocket Lab, Stoke Space, e a Blue Origin de Jeff Bezos, sobre a atual situação de seus projetos, e se eles poderão ser usados em missões futuras do governo.

Já no Capitólio, um comitê (provavelmente o de Comércio, Ciência, e Transporte do Senado presidido por Ted Cruz, que defendeu a permanência do SLS e do Projeto Artemis) levantou questões sobre o estado da Starliner, se ela pode voltar a ser usada em missões fuituras sem dar chabú; a NASA pretende dar um segundo passeio com ela em 2026, de modo a certificá-la para uso em missões de transporte de passageiros e carga para a ISS, em paralelo com a Dragon.

Por fim, a ULA também é considerada uma opção, principalmente para missões confidenciais que eram sua principal área de atuação, até a SpaceX abocanhar algumas missões.

O New Glenn da Blue Origin subiu, agora é conseguir cadência (Crédito: Blue Origin/Twitter)

O New Glenn da Blue Origin subiu, agora é conseguir cadência (Crédito: Blue Origin/Twitter)

Por muito tempo, a NASA foi paranoica a ponto de manter redundâncias de todo tipo, a SpaceX conseguiu tanto espaço por garantir a segurança de seus foguetes reutilizáveis, o que lhe permite muito mais cadência nos lançamentos, a preços muito baixos. ULA e Boeing não conseguem concorrer nesse sentido, e a Blue Origin demorou pacas para fazer o mesmo com o New Glenn, equivalente aos Falcon da concorrente; o New Armstrong, análogo ao Falcon Heavy, ainda vai demorar um pouco para dar as caras.

De qualquer forma, a agência espacial e o Pentágono se tocaram, antes tarde do que nunca, que "quem tem dois, tem um; quem tem um, não tem nenhum", mas resta saber quanto tempo vai levar até as outras companhias alcançarem a SpaceX, se isso for possível.

Até lá, é esperar que o "trampolim" não fique indisponível, seja por uma canetada de Trump, ou por uma reação de Musk ao agora não tão amigo presidente.

Fonte: The Washington Post

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