Ronaldo Gogoni 14 semanas atrás
A Anthropic, startup de Inteligência Artificial (IA) responsável pelo grande modelo de linguagem (LLM) Claude, é uma companhia atípica entre seus pares. Os cofundadores, os irmãos Daniela (presidente) e Dario Amodei (CEO), especialmente o último, são conhecidos por não medirem as palavras e falarem coisas que ninguém quer admitir.
Dario Amodei também não quer ver suas tecnologias sendo usadas para o Mal, o que levou a Anthropic a entrar em conflito com o Pentágono, sobre a aplicação de soluções generativas em situações de combate e para fins de vigilância estatal.

Anthropic é a única startup de IA dos EUA que vem se indispondo com o governo de Donald Trump (Crédito: Morning Brew/Adobe Stock)
Dario Amodei não é um executivo de IA bem visto entre outras companhias do setor, por ter a tendência de falar o que pensa sem rodeios. Foi ele quem admitiu que algoritmos são primariamente usados para cortar custos e tomar empregos, e foi além ao dizer que pelo menos 50% das vagas para jovens entrando no mercado de trabalho vão virar pó.
Sob sua ótica, governos nada poderão fazer para remediar tal situação, onde mesmo os setores mais braçais serão automatizados, e nenhum vai aprovar leis de renda mínima universal quando a maioria dos humanos não qualificados ficar desempregada, sob um argumento simples: quem não produz, não tem direito a nada. Para Amodei, todo mundo (mesmo) tem que aprender a lidar com a IA o mais rápido possível, no melhor estilo "evolua ou morra".
Claro que a Anthropic não é nenhuma santa no meio de pecadores, a empresa foi duramente criticada ao defender acordos com o Qatar e os Emirados Árabes, países do Oriente Médio acusados de violações dos direitos humanos, o que Dario Amodei chamou de "dilema moral" que enriqueceria ditadores, mas embolsou a grana mesmo assim; por outro lado, a startup se recusou a fazer negócios com a Arábia Saudita, citando riscos à Segurança Nacional dos EUA.
Dito isso, o arranca-rabo entre a Anthropic e o secretário de Segurança Pete Hegseth é uma situação no mínimo curiosa: o Claude, um dos LLMs mais avançados do mercado na atualidade, é hoje o único que conseguiu garantir seu espaço nos sistemas confidenciais do governo norte-americano, e foi inclusive elogiado por vários oficiais do Pentágono. Ele foi inclusive usado durante a incursão na Venezuela em janeiro de 2026, que levou à prisão do ditador Nicolás Maduro.
O problema, Amodei não gostou nada desse último caso de uso.

Dario Amodei, CEO da Anthropic, não quer que seus algoritmos sejam usados pelas Forças Armadas ou em soluções de vigilância estatal (Crédito: Reprodução/Council on Foreign Relations)
A Anthropic vem se opondo nos últimos tempos ao uso de sua tecnologia pelas Forças Armadas em situações de combate; Amodei não vê problema em ganhar alguns cascalhos com o Claude gerenciando documentos e o fluxo de trabalho do Pentágono, mas não quer permitir que o LLM seja implementado em armas autônomas, por exemplo.
Da mesma forma, a startup se opõe a fornecer modelos para aplicações voltadas à vigilância estatal, algo ao qual a fabricante de câmeras domésticas Ring, que pertence à Amazon, parece não se opor.
As declarações de Amodei não agradaram o secretário de Defesa dos EUA Pete Hegseth, em parte porque o Pentágono não tem nenhuma outra solução que resolva seus problemas da mesma forma que o Claude, um caso clássico de dependência de um único fornecedor; trocar de LLM criaria uma série de problemas e dessa forma, o recado do governo de Donald Trump veio em sua forma mais ignorante possível:
No dia 16 de fevereiro de 2026, Hegseth ameaçou classificar a Anthropic como um "risco na cadeia de suprimentos", uma denominação normalmente reservada a companhias externas vistas como ameaças ao país, como a Huawei e outras empresas chinesas inclusas na "lista negra" dos EUA. A condição para isso acontecer é se submeter ao governo, e permitir que o Claude seja usado como o Pentágono e o governo Trump, por extensão, quiserem.
A outra opção é sujeitar a Anthropic à Lei de Produtos para Defesa (Defense Product Act, ou DPA), que dá ao governo autoridade para forçar empresas a fornecerem produtos e serviços para expandir ou priorizar a defesa nacional. Foi com ela que a GM e a 3M acabaram compelidas a produzirem, respectivamente, respiradores e máscaras durante a pandemia da Covid.
Dessa forma, a startup seria obrigada a criar versões do Claude para uso militar e de vigilância, por força da Lei.

Recado do secretário de Defesa Pete Hegseth foi bem claro: ou a Anthropic se sujeita, ou será tratada como inimiga da nação (Crédito: Nathan Howard/Reuters)
Do ponto de vista do governo Trump, a Anthropic só tem duas opções: se sujeitar ou ser tratada como uma empresa inimiga da nação; a classificação como um risco à Segurança Nacional virtualmente acabaria com a startup, ao ser impedida de oferecer seus produtos a qualquer empresa que faz negócios com os EUA, da mesma forma que aconteceu com a Huawei.
Só que Dario Amodei não está disposto a ceder. Segundo fontes, a Anthropic não tem a menor intenção de retirar as restrições impostas ao uso do Claude, mesmo com Hegseth dando um prazo até a próxima sexta-feira (27) para tomar uma decisão. Tal agressividade se justifica pelo Pentágono não ter opções, assim, é mais fácil forçar a startup a andar na linha do que trocar de fornecedor e usar um LLM não tão bom.
Fonte: TechCrunch, Reuters