Ronaldo Gogoni 19 semanas atrás
A Inteligência Artificial (IA) é o pote de ouro no fim do arco-íris de que todos estão atrás, e governos não são uma exceção. A União Europeia (UE) e o Reino Unido investem, cada um à sua maneira, em meios para reduzir a dependência de produtos e serviços dos Estados Unidos, buscando autossuficiência e concorrer em iguais termos.
O problema, conseguir isso não é fácil. Salvo exceções pontuais como a ASML e a ARM (ainda que esta seja controlada pelo grupo SoftBank, do Japão), empresas como Google, OpenAI, Nvidia, Microsoft, Meta, Anthropic e cia. quase não enfrentam oposição, do design de chips a serviços de data centers, LLMs e outros modelos generativos, tanto no bloco econômico quanto na terra do Rei.

UE lidera esforços pela regulação global das IAs, que os EUA rejeitam em favor de suas big techs (Crédito: Dall-E/OpenAI)
A situação da UE e do Reino Unido no mercado de IA é fácil de explicar. O bloco continental, embora extensamente rico, é bem mais avesso ao desenvolvimento adequado de novas soluções de IA, exatamente devido aos esforços do governo local em regular a tecnologia em suas fronteiras, e promover o mesmo no resto do mundo.
A Lei de IA, um conjunto de diretrizes pioneiro no setor, estabeleceu regras duríssimas voltadas a modelos generativos. As empresas devem:
Quem não se enquadrar será multado duramente, e a Lei não faz distinção entre empresas de fora e startups locais, todo mundo se enquadra igual; ao ser criticada localmente, a Comissão Europeia foi bem clara ao defender sua visão como pró-povo, e não pró-empresas. Como resultado, algumas iniciativas acabaram se deslocando para regiões menos reguladoras, como os EUA, a neutra Suíça, e o Reino Unido.
A nação britânica hoje é um dos polos do Velho Mundo para o desenvolvimento de IAs com mais liberdade que dentro dos 27 países-membros da UE, sendo o 5.º maior mercado global do setor, atrás dos EUA, China, Índia e Coreia do Sul, e considerando países separadamente; a Espanha é o único membro da UE que entrou no Top 10 de nações do relatório anual da Universidade de Stanford, na 7.ª posição.
Mesmo assim, o Reino Unido ainda não possui uma solução local disruptiva o bastante, da mesma forma que a UE; companhias norte-americanas continuam liderando o setor de IA na Europa, concorrendo em termos legais e observando as leis até certo ponto, visto que o governo dos EUA deseja impor uma total desregulação global, para que suas big techs prosperem e continuem liderando o mercado.
Foi então a DeepSeek mudou a cara do jogo.
Lançado em janeiro de 2025, o app chinês pegou os grandes players de IA de surpresa, ao se apresentar como um LLM (grande modelo de linguagem) mais preciso e fácil de usar do que o ChatGPT, da OpenAI, custando bem menos. Mesmo o fato de ter viés político, como imposto pelo governo de Pequim a todas as startups do setor no país, não impediu o algoritmo de causar uma queda acentuada nas ações das principais companhias americanas, ainda que momentânea.
O CEO Liang Wenfeng fundou a DeepSeek (a companhia) em julho de 2023, e num prazo de 18 meses, criou modelos com uma equipe mínima de desenvolvedores, embora extremamente talentosos, e cerca de 10 mil chips A100 da Nvidia, que não são o modelo de ponta permitido a entrar na China, enquanto o governo de Pequim "sugere gentilmente" que desenvolvedores adotem soluções locais, de empresas como a Huawei.
Com opções limitadas, a DeepSeek conseguiu desenvolver um algoritmo de ponta sendo criativa, fazendo uso de soluções fora da caixa durante a fase de desenvolvimento, e se valendo de um olho fechado do governo, que preferiu não implicar com a startup usando componentes dos malditos porcos capitalistas, talvez, pelo gabinete do premiê Xi Jinping ter visto potencial na empreitada; o resultado, todo mundo viu.
O feito tem estimulado empresas europeias a serem igualmente criativas, por exemplo, com startups compartilhando o código-fonte para que qualquer um possa estudá-lo, modificá-lo e melhorá-lo entre startups, e o Reino Unido está caminhando na mesma direção. Há um certo ensaio para que ambos os lados voltem a trabalhar de forma mais próxima em mais frentes, até por não quererem mais contar com os EUA, e o governo de Donald Trump tem dado vários motivos para isso.

Reino Unido é um polo mais fértil para startups que a UE, mas o país e o continente devem trabalhar juntos para concorrer com EUA e China (Crédito: Reprodução/acervo internet)
A dependência dos britânicos e dos europeus das companhias norte-americanas, sejam de IA, aeroespaciais, ou de outros setores, está sendo vista cada vez mais como um ponto fraco que Trump pode explorar; ameaças recentes de retaliação por Washington, quando o Reino Unido ameaçou banir o Grok, e talvez todo o X, pelo uso de IA para "desnudar" mulheres sem permissão, e quando a UE multou a companhia de Elon Musk por violar a Lei de Serviços Digitais (DSA), são bons exemplos.
Claro, perseguir independência é válido, mas conseguir autossuficiência e posteriormente garantir soberania suficiente para passar a ser um concorrente, e não mais um bloco consumidor, demanda investimento pesado do governo, e reconhecimento de que algumas regras terão que ser afrouxadas, principalmente na UE, para garantir o florescimento de novas iniciativas, algo que a Espanha e a França já entenderam e vêm aplicando individualmente; a Índia, o 3.º maior mercado, também.
Fonte: WIRED