Ronaldo Gogoni 50 semanas atrás
A União Europeia (UE) vem acelerando o passo para diminuir a dependência de tecnologias e serviços relacionados provenientes dos Estados Unidos, desde que os ânimos entre o bloco e o presidente norte-americano, Donald Trump, se acirraram. A disputa comercial que levou no "tarifaço", e o investimento na OTAN são dois dos pontos de divergência.
A diplomacia recentemente entrou no balaio de desavenças, após uma ordem executiva de Trump, impondo sanções à Corte Penal Internacional, por esta expedir um mandado de prisão contra o Primeiro-Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, que (oficialmente) forçou a Microsoft a bloquear o e-mail do promotor-chefe do órgão, Karim Ahmad Khan.

UE vem tentando diminuir dependência de tecnologia dos EUA desde o caso Snowden (Crédito: yayimage/Pngtree)
O ato levou a um aumento no esforço da UE para reduzir ao mínimo, até o ponto de eliminar por completo, o uso de produtos e serviços tech de empresas dos EUA por membros do governo, mas a tendência é de seguir a mesma filosofia em outras esferas.
A UE vem tentando diminuir o uso de ferramentas dos EUA desde 2013, quando Edward Snowden expôs como a NSA coletava e monitorava dados de serviços em todo o mundo, com colaboração voluntária de empresas americanas. O programa PRISM foi criado para frustrar ataques terroristas antes de serem executados, ao custo de vigiar praticamente cada usuário de soluções da Apple, Microsoft, Yahoo!, Meta, Google, Dropbox...
Mesmo dignatários não escaparam, o celular da então presidente do Brasil, Dilma Rousseff, foi grampeado, mas isso porque ela e seus ministros, em um ato de completa inaptidão técnica, dispensaram criptografia.
O problema, como sempre, é ter serviços equivalentes na Europa, o que dificulta os esforços. Os ânimos entre os EUA e a UE se acalmaram nos anos seguintes, com o último assumindo compromissos junto a governos para não espiarem o que não lhes diz respeito, mas o caldo tornou a azedar quando Trump voltou à Casa Branca.
Em seu segundo mandato, o presidente dos EUA vem sendo bem mais agressivo sobre defender a hegemonia global de seu país sobre o resto do mundo, principalmente na cena tech; seu governo defende que suas companhias não devem ser cerceadas por regulações, um ataque direto à DMA (Lei de Mercados Digitais) e à DSA (Lei de Serviços Digitais), que vem dando dores de cabeça à Apple, Google, X, Meta, e outras. O "tarifaço" aumentou ainda mais as rusgas.
O outro ponto de desavença é a diplomacia. Recentemente, a Corte Penal Internacional emitiu mandados de prisão contra Benjamin Netanyahu, Primeiro-Ministro de Israel, e Yoav Gallant, ministro da Defesa, por entender que os ataques incessantes à Faixa de Gaza, que teriam matado mais de 56 mil palestinos (até o momento da publicação deste post), contra os 1.139 israelenses mortos no ataque do Hamas, em outubro de 2023, são crimes contra a humanidade.
Donald Trump tomou as dores do aliado, e expediu uma ordem executiva impondo sanções a Karim Ahmad Khan, procurador-geral da corte; em cumprimento ao determinado pelo presidente, a Microsoft bloqueou o e-mail do jurista, que também teve contas bancárias no Reino Unido, seu país de origem, congeladas, o que acabou paralisando os trabalhos do tribunal.
Khan, que também expediu o mandado de prisão ao presidente da Rússia, Vladimir Putin, está no momento licenciado, enquanto responde a acusações de assédio sexual e tentativa de acobertar o caso, que ele nega.

Ordem executiva de Donald Trump contra Karim Khan foi represália ao mandado de prisão a Benjamin Netanyahu (Crédito: Yuri Gripas/POOL/EFE/EPA)
O ato da Microsoft em derrubar o e-mail de Khan, ainda que forçada a fazê-lo enquanto companhia norte-americana, foi a gota d'água para a UE. De lá para cá, a Corte e o Tribunal Penal Internacional estariam tomando medidas, segundo um porta-voz, para "mitigar riscos" que possam afetar seus membros, e "tomando medidas para garantir a continuidade de todos os serviços e operações relevantes".
Ainda que o episódio tenha afetado mais a Corte Penal Internacional, o caso acendeu o alarme no bloco, mostrando que se o governo pode ser afetado devido à dependência de um serviço externo, o mesmo se aplica a companhias e aos cidadãos. Um dos primeiros atos tomados foi trocar de e-mails, boa parte dos membros do órgão, Khan incluso, migraram para endereços eletrônicos fornecidos pela Proton, uma companhia suíça; embora seu país-sede não seja parte da UE, por ser neutro, ele também não responde aos interesses dos EUA, da China, ou de qualquer outra nação.
Casper Klynge, diplomata que já trabalhou na Microsoft, diz que o causo servirá como catalisador para intensificar o lobby da UE de alcançar a soberania e a autossuficiência em todas as frentes, tornando-o o bloco um exportador de tecnologia e serviços, ao invés de um consumidor. Quatro cenários já estão em curso: semicondutores, nuvem, satélites de internet e ciência aeroespacial, esta mais por rusgas com Elon Musk, dono da SpaceX, do que com as atuais com Trump.
Do outro lado, Microsoft, Amazon, e Google prometem maior investimento no continente europeu, e adequação às leis vigentes; Satya Nadella inclusive prometeu recentemente, em visita aos Países Baixos, "soluções soberanas" para instituições locais, mas especialistas contestam essa afirmação, se tudo o que é preciso para uma gigante tech dos EUA tesourar um europeu, é uma canetada de Donald Trump, ou de qualquer outro presidente norte-americano.
O grande problema para a UE é alcançar a autossuficiência, o que vai levar tempo e custará muito dinheiro; o governo de Bruxelas têm ambos à mão, e muito provavelmente conseguirá reduzir a dependência dos EUA internamente; por outro lado, se a capacidade das companhias locais não atenderem às necessidades, Google, Microsoft e cia. continuarão sendo a preferência de usuários finais e empresas, por muito tempo.
Fonte: The New York Times