Ronaldo Gogoni 39 semanas atrás
Demorou um pouco mais que o normal, mas a União Europeia (UE) enfim anunciou, na última quinta-feira (4), que multou o Google por práticas competitivas envolvendo o Google Ads (antigo Adsense), ao abusar de sua posição dominante e favorecer seus próprios anúncios, em detrimento da concorrência.
A Comissão Europeia (CE) fixou o valor da multa em € 2,95 bilhões (~R$ 18,75 bilhões, cotação de 08/09/2025), um ato que foi imediatamente respondido por Donald Trump.
O presidente dos Estados Unidos prometeu não só uma nova rodada de tarifas sobre importações da UE, mas também abrir uma investigação contra o bloco comercial por práticas desleais, similar à em curso contra o Brasil.
Esta não é a primeira vez que o Google é punido na UE devido ao Google Ads. Em 2019, a companhia teve que pagar € 1,49 bilhão (~R$ 9,5 bilhões) quando o serviço ainda se chamava AdSense, por impor contratos de exclusividade a editores de sites entre 2006 e 2009, de modo que eles não pudessem veicular adas de plataformas concorrentes.
Quando a medida foi revogada, o Google ainda assim exigia a porção mais lucrativa de um site ou blog para colocar anúncios e banners do AdSense, a fim de abocanhar a maior parcela da receita com propaganda gerada por cliques; não obstante, qualquer allteração dew layout de um domínio tinha que ser aprovada pelos técnicos de Mountain View, tudo sob o risco de corte da monetização.
Todas as práticas foram revogadas em 2016, mas o Google ainda assim foi multado pelo tempo em que elas estiveram vigentes; segundo a CE, a gigante das buscas controlou 70% do mercado de anúncios online da Europa, entre 2006 e 2016, sob seu entendimento, de forma artificial, com modelos e táticas antiéticas.
De volta para o presente: a nova acusação, oriunda de um processo aberto em 2021, acusa o Google de operar em modo de conflito de interesses, ao atuar dos dois lados do mercado, como anunciante E fornecedora das ferramentas de marketing digital AdX, voltada para clientes de grande porte, esta favorecida em conjunto com suas demais ferramentas, à frente dos concorrentes.
A punição maior em comparação à multa aplicada em 2019 seria pelo fato do Google obrar e se locomover para atuar como um concorrente que respeita as leis europeias, e manter práticas e procedimentos considerados desleais, mesmo após inúmeras punições, que hoje somam mais de € 11,59 bilhões (~R$ 73,9 bilhões), juntando as duas do Ads/AdSense com as envolvendo o Android e o Google Shopping.
O Google tem 60 dias, contados a partir de 05/09/2025, para "encerrar todas as práticas que a autobeneficiam" e "para implementar medidas de modo a encerrar conflitos de interesse inerentes, ao longo da cadeia de suprimentos"; Teresa Ribera, VP para a Competição da Comissão Europeia, disse em nota oficial que a gigante "precisa apresentar uma solução séria" para evitar que isso não se repita, e caso isso não aconteça, "nós (a UE) não hesitaremos em impor sanções pesadas".
E completou:
“Os mercados digitais existem para servir as pessoas, e devem ser baseados em confiança e justiça. Quando estes falham, as instituições públicas devem agir para impedir que companhias dominantes abusem de seu poder.”
Em nota enviada ao The Wall Street Journal, o Google anunciou que obviamente irá recorrer da decisão, e acrescentou que ''não há nada anticompetitivo em prover serviços para anunciantes e clientes", além de dizer que "há mais serviços" disponíveis.

Além de tarifas, Trump prometeu retaliar com investigação por práticas desleais, similar à aberta contra o Brasil e contestada pelo Itamaraty (Crédito: Chip Somodevilla/Getty Images)
Quem também não gostou nem um pouco do Google ser outra vez martelado pela UE, foi Donald Trump. Mais de uma vez, o presidente dos EUA e membros de seu gabinete deixaram claro que companhias norte-americanas devem ser permitidas a fazerem o que quiserem, onde quiserem, e como quiserem, sem serem punidas por absolutamente nada.
Qualquer país que, no entendimento de Trump, "perseguir injustamente" big techs e outras empresas de seu país, sofrerá retaliações na forma de tarifas adicionais e outras punições, onde o Brasil foi eleito para servir de "laboratório", e exemplo para o resto do mundo.
O processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro vem sendo usado por Trump, seu aliado ideológico, como base para impor sanções contra autoridades, como o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), uma manobra considerada ilegal (a Lei Magnitsky foi criada para punir terroristas) por autoridades mundo afora.
Em outra frente, o presidente norte-americano acusa o Brasil de se valer de táticas de comércio injustas, enquanto mantêm negócios com países considerados inimigos, como Irã, Síria e Venezuela, além de laços de proximidade com nações hoje não muito benquistas, como Rússia e China. Isso fez com que o país fosse sobretaxado em 50%, acima dos 10% outrora anunciados, sobre todas as exportações para os EUA, um de seus maiores clientes, que afetam quase toda a cadeia produtiva brasileira.
Não obstante, Trump abriu uma investigação contra o Brasil, com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 dos EUA, que autoriza o presidente a impor quaisquer tipos de sanções, envolvendo tarifas ou não, a países que violem tratados internacionais de comércio; uma das acusações envolve o PIX, que prejudicaria operadoras de crédito americanas.
O Itamaraty contesta a medida; Trump e aliados sinalizam que a única forma de rever todas as sanções, é retirando as acusações contra Bolsonaro e reinstaurando seus direitos políticos, de modo que ele possa concorrer à presidência do Brasil em 2026 para, em um cenário ideal, vencer o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (quem Trump já deixou claro que não gosta), e voltar ao Planalto; o governo brasileiro acusa a Casa Branca de usar táticas comerciais para interferir na política interna, a versão 2025 da diplomacia do porrete.
Agora, o Topknot Man anunciou que pretende usar a mesma tática contra a UE.
Em uma postagem na sua rede social TRUTH, o presidente dos EUA acusa a Comissão Europeia de impor uma multa injusta contra o Google, que "tirará dinheiro destinado a investimentos e geração de empregos" internos, e foi além, dizendo que todas as punições passadas impostas contra a gigante das buscas, bem como a multa de € 13 bilhões (~R$ 83,1 bilhões) aplicada contra a Apple por sonegação, são ilegais e, desta forma, todo o dinheiro deveria ser devolvido.
Trump já havia ameaçado a UE com tarifas, caso o bloco continuasse "injustamente" atacando companhias como Apple, Google, Microsoft, Amazon, Meta e outras, mas agora promete abrir uma investigação baseada na Seção 301, de modo a nulificar todas as multas aplicadas nos últimos anos, e forçar o bloco a devolver toda a grana.
O rolo envolvendo o Google, Trump e a Comissão Europeia chega em um momento tenso, de negociações entre a UE e os EUA para a remoção de tarifas em exportações, exceto automóveis, motivo pelo qual políticos do bloco teriam tentado derrubar a multa, para não enfurecer Trump, o que se provou como um cenário inevitável.
Assim como acontece no processo movido contra o Brasil, uma investigação baseada na Seção 301 pode levar à restrição de vistos a autoridades, mesmo envolvendo a participação em assembleias da ONU, normalmente visando nações consideradas "problemáticas", como o Irã.
Se a situação vai escalar com autoridades da UE, formada por 27 países-membros e economias de grande porte como Alemanha, França, Espanha e Itália, da mesma forma que o governo Lula e associados vêm sendo tratados, é esperar para ver.
Fonte: European Commission, The Wall Street Journal, Bloomberg