Ronaldo Gogoni 40 semanas atrás
Parece que o Google está em uma maré de sorte. Nos Estados Unidos o juiz Amit Mehta, que conduzia o processo antitruste movido pelo Departamento de Justiça (DoJ), desobrigou a companhia de vender o Chrome, e a permitiu continuar pagando empresas para que o Search, seu motor de busca, seja o padrão em dispositivos e sistemas de terceiros, o mesmo valendo para soluções de Inteligência Artificial (IA).
O Google ainda terá que compartilhar dados com competidores, e fica proibida de fechar contratos de exclusividade; a gigante das buscas deve recorrer e escalar o caso para a Suprema Corte, no que o processo se arrastará por anos, e levar a uma reversão das imposições mínimas do veredito a seu favor, e não ter que mudar seu modus operandi em nada.

Google se safou de vender o Chrome nos EUA, e pode escapar de multas pesadas na UE (Crédito: Dado Ruvic/Reuters)
Na União Europeia (UE), as coisas também estão mudando a favor de Mountain View: o longo processo antitruste, sobre práticas abusivas envolvendo o Google Ads, deveria resultar em uma multa bilionária a ser aplicada, o que até agora não aconteceu, pelo motivo que você já adivinhou: medo de que o presidente dos EUA, Donald Trump, responda ao ato com mais tarifas.
O Google já foi multado pela UE no passado devido ao Google Ads, ex-AdSense, e levou diversas outras bordoadas ao longo dos anos, por práticas desleais envolvendo o Android e o Google Shopping. No entanto, a companhia receberia uma nova sanção por violações antitruste contínuas com seu negócio de anúncios, um processo em curso desde 2021.
O motivo, o Google estaria em uma situação de conflito de interesses, ao atuar dos dois lados do mercado, como fornecedora de ferramentas de anúncios E anunciante, ou seja, ela compra e vende ads. A punição prevista seria ainda mais pesada que a anterior, uma multa de mais alguns bilhões de euros, e forçar a empresa a vender o Ads, parcial ou inteiramente.
Na última sexta-feira (29), o Google teria sido notificado sobre a conclusão do processo, com um resultado desfavorável à empresa, anotando também que as sanções seriam anunciadas nesta segunda (1.º), o que não aconteceu. O que se comenta, uma série de discussões internas entre os legisladores europeus, que não fizeram parte da investigação, se deram durante o fim de semana, levando ao adiamento do anúncio horas antes do prazo limite.
Segundo o site MLex, quem primeiro comentou o ocorrido, a decisão foi tomada por puro medo de enfurecer Trump, no prospecto de recentes negociações entre a UE e os EUA, visando redução nas tarifas de importações de diversos bens, exceto automóveis; caso o Google fosse martelado agora, havia o risco do presidente norte-americano não só dar para trás no acordo, como impor mais tarifas aos 27 países-membros do bloco.
Não que o Topknot Man não dê motivos, claro. Em uma recente postagem na sua rede social TRUTH, Trump disse que responderá a quaisquer países que multarem big techs do Vale do Silício com tarifas, independente do motivo ou infração, onde ele entende que as leis antitruste locais foram "criadas para prejudicar e/ou discriminar tecnologias americanas".

Ato não é unanimidade entre legisladores europeus; alguns o veem como covardia e submissão a Donald Trump (Crédito: Evan Vucci/AP/Ronaldo Gogoni/Meio Bit)
O presidente dos EUA acrescentou, dizendo que "a América e suas companhias de tecnologia não mais serão o 'cofrinho', nem o 'capacho' do resto do mundo", parte de sua retórica de que Google, Apple, Microsoft, Amazon, Meta, OpenAI e cia. devem ser livres para fazerem o que quiserem, onde e como acharem melhor e sem serem punidas por isso, uma exacerbação do laissez-faire combinada à diplomacia do porrete, mas batendo com poder econômico ao invés do bélico.
A Comissão Europeia não deu qualquer declaração a respeito do porquê o anúncio da multa foi adiado, e nem quando (ou se) ele será feito no futuro. E como esperado, nem todos os legisladores do bloco receberam a notícia com bom humor.
Tomaso Duso, presidente da Comissão de Monopólios da Alemanha, se referiu à decisão como "um precedente alarmante" para a aplicação das leis antitruste da UE, e disse que o órgão para a proteção de um mercado competitivo e justo no continente "não pode se tornar um peão do governo Trump"; já Stéphanie Yon-Courtin, política francesa e membro do Parlamento Europeu desde 2019, disse no X que "se isso for verdade (sinalizando que a decisão não foi discutida em plenário), isso é um mau sinal", e que "'as leis digitais (do bloco) são inegociáveis".
Teresa Ribera, a atual VP para a Competição da Comissão Europeia, disse recentemente que a UE estava se tornando "indulgente demais" frente à pressão tarifária de Trump em busca de vantagens para as companhias americanas, e que o bloco "continuaria impondo sua Lei" a tais empresas, o que coloca em dúvida se mesmo a política que só responde à presidente Ursula von der Leyen se envolveu no rolo, que resultou no adiamento das sanções.
O Google, que também não emitiu comentários sobre a notícia, por enquanto vai se safando ao contar indiretamente com Donald Trump para protegê-lo com a ameaça de tarifas, mas resta saber por quanto tempo essa estratégia continuará surtindo efeito.