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ESA, ArianeGroup, e um foguete Ariane 6 "quase" reutilizável

ArianeGroup apresenta proposta à ESA para atualizar Ariane 6 com boosters recuperáveis; foguete principal continuaria descartável

21 semanas atrás

Levou um tempo, mas a Agência Espacial Europeia (ESA) admitiu que não pode continuar se agarrando exclusivamente ao design de foguetes descartáveis. Para não ficar ainda mais para trás na corrida espacial, o órgão passou a investir em iniciativas diversas junto a companhias locais, de modo a desenvolver projetos baseados em boosters reutilizáveis.

E então há o Ariane 6, a ponta-de-lança da ArianeGroup e da ESA, que por anos foi defendido como o modelo ideal para as necessidades europeias frente aos Falcons da SpaceX, enquanto a próxima geração não chega. Corta para 2026, e a companhia estaria estudando meios de converter o bólido em um modelo reutilizável... ou quase isso.

ESA quer foguetes reutilizáveis, e Ariane 6 deverá ser convertido para atender necessidades da agência (Crédito: Divulgação/European Space Agency)

ESA quer foguetes reutilizáveis, e Ariane 6 deverá ser convertido para atender necessidades da agência (Crédito: Divulgação/European Space Agency)

ESA cansou de comer poeira da SpaceX

A ESA, e a União Europeia por tabela, nunca engoliram a SpaceX oferecendo lançamentos com seus designs reutilizáveis, algo que os locais demoraram para considerar digno de investimento. Essa teimosia permitiu à companhia de Elon Musk garantir seu espaço da maneira correta, concorrendo de forma justa e com preços melhores por missão, o que foi respondido com uma tentativa de puxar o tapete do bilionário; não deu certo, claro.

Com o tempo, o governo europeu entendeu que não adianta dar murro em ponta de faca: foguetes descartáveis são muito mais caros, e você não vai conseguir justificar o injustificável junto aos contribuintes, argumentando que o modelo atual "faz mais sentido". Assim, a ESA começou a financiar múltiplos projetos de designs reutilizáveis, de diversas empresas.

O Themis, do qual falamos antes, é apenas um deles e o mais adiantado; em julho de 2025, cinco startups foram agraciadas com um fundo de € 169 milhões (~R$ 1,06 bilhão, cotação de 14/01/2026) para desenvolver novas soluções para o programa espacial europeu, especialmente boosters recuperáveis.

Uma delas é a MaiaSpace, subsidiária do ArianeGroup, estabelecida em 2021 com um aporte de € 125 milhões (~R$ 782,2 milhões) para o desenvolvimento do Maia, um booster de combustível líquido reutilizável similar ao Falcon 9, equipado com o mesmo motor Prometheus do Themis (98 kN).

O Maia foi projetado para lançar cargas de até 500 kg em órbita heliossíncrona, em que um satélite sempre passará sobre o mesmo ponto todos os dias, no mesmo horário, ideal para que antenas em terra coletem dados com regularidade; o Envisat da ESA opera dessa forma.

Em 2023, o CEO Yohann Leroy admitiu que o trabalho é desafiador, e que os interesses da startup têm que ser alinhados aos da ArianeGroup, que originalmente pretendia substituir, em um futuro não tão próximo, o Ariane 6 pelo sucessor Ariane Next, 100% recuperável.

No entanto, a realidade falou mais alto. A ESA não pode se dar ao luxo de esperar por muito tempo mais, e embora o Maia ainda precise ser testado, não dá para depender de outro foguete caro para sabe lá quando. O Ariane 6, embora tenha tido problemas em seu primeiro lançamento, é uma plataforma estabelecida, e faz muito mais sentido atualizá-la.

O que nos traz à situação atual.

Ariane 6 ½

No fim de 2024, o ArianeGroup fechou um contrato com a ESA ligado à iniciativa Boosters para Transporte Espacial da Europa (BEST!, na sigla em inglês; o ponto de exclamação faz parte), para designs reutilizáveis; a proposta apresentada agora pela joint Airbus e Safran envolve substituir os dois lançadores de combustível sólido usados pelo Ariane 6, por dois de combustível líquido desenvolvidos pela MaiaSpace, muito provavelmente, dois Maias.

De acordo com documentos aos quais o site European Spaceflight teve acesso, submetidos à ESA em 2025 à Conferência Europeia para Aeronáutica e Sistemas Espaciais (EUCASS), substituir os lançadores sólidos pelos líquidos da MaiaSpace seria simples, o Ariane 6 e os módulos teriam sido desenvolvidos sob a lógica plug and play, o que convenhamos, é o mais certo de se fazer; a última coisa de que a ESA precisa é de um foguete de Frankenstein.

Paralelo a isso há a companhia alemã Isar Aerospace, outra que garantiu um contrato via BEST!, para desenvolver um novo booster baseado em seu atual Spectrum, que hoje é descartável; a ESA teria instado tanto a Isar quanto o ArianeGroup a verificarem a viabilidade de seus designs, seus planos de desenvolvimento e os custos envolvidos, a fim de prepararem demonstrações de lançamento quanto antes.

Da esq. para a dir.: conceitos do booster reutilizável da Isar Aerospace, e do Ariane 6 equipado com lançadores recuperáveis da subsidiária MaiaSpace (Crédito: Isar Aerospace/ArianeGroup/European Space Agency)

Da esq. para a dir.: conceitos do booster reutilizável da Isar Aerospace, e do Ariane 6 equipado com lançadores recuperáveis da subsidiária MaiaSpace (Crédito: Isar Aerospace/ArianeGroup/European Space Agency)

Há alguns problemas com os quais a ESA terá que lidar, o primeiro deles, é quando tais plataformas ficarão prontas. O Maia só deverá ser testado em 2027, com um primeiro lançamento programado para ocorrer no centro espacial de Kourou, na Guiana Francesa; já o booster da Isar Aerospace deve demorar ainda mais que isso.

O outro é bastante óbvio, o Ariane 6 ainda é quase que totalmente descartável, e a menos que isso seja resolvido, a substituição dos lançadores representará uma amortização nos custos meramente simbólica. Por ser projetado para lançamentos em órbitas mais altas, o foguete principal queima combustível por 7 minutos durante a ascensão, e atinge qause o dobro da velocidade do Falcon 9, este acionado por 2 minutos e 30 segundos, já que ele também volta.

O módulo principal é equipado com um único motor, contra vários presentes nos designs da SpaceX e até da Blue Origin, e é também descartável, assim como o estágio superior e o escudo da carga, algo que a SpaceX também consegue recuperar; tudo isso se converte em milhões economizados por lançamento pela companhia de Elon Musk, que como consequência, cobra barato por missão para ter mais clientes.

Claro que é preciso partir de algum lugar, mas no design atual o Ariane 6 custa caro, e não cumpriu a promessa de ser mais econômico que o Ariane 5. Usar boosters da MaiaSpace poupará alguns tostões por missão, claro, mas a economia frente ao preço cobrado pela SpaceX por lançamentos do Falcon 9 e Falcon Heavy é o que deve ser priorizado, se a ESA quer mesmo não mais depender de companhias externas.

É isso, ou esperar mais alguns anos pelo Ariane Next, mas até lá é bem provável que a Starship já estará operando.

Fonte: Ars Technica

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