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Palantir vai "vigiar os vigilantes" do Reino Unido

Controversa IA de vigilância da Palantir é usada para monitorar policiais de Londres; três oficiais são presos e centenas serão investigados

27/04/2026 às 12:56

Quando Peter Thiel, um dos investidores mais controversos do Vale do Silício (e não só por saber tudo sobre o Anticristo), fundou em 2003 a Palantir Technologies, ele escolheu o nome de forma deliberada. Ela fornece soluções de Inteligência Artificial (IA) e ferramentas de análise de dados a governos, agências federais e companhias privadas, tendo assim acesso a uma quantidade enorme de informações em todas as esferas, tal qual os orbes descritos por J.R.R. Tolkien em O Senhor dos Anéis.

A Palantir é a principal fornecedora de tech para o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) dos Estados Unidos, que desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca, a usa para perseguir imigrantes ilegais e legais, algo que até seus funcionários andam questionando, se estão do lado certo ou não.

Logo da Palantir estilizado com um olho humano, passando a ideia de que a companhia observa a tudo e a todos (Crédito: Reprodução/Palantir Technologies/Electronic Frontier Foundation)

A Palantir, companhia de vigilância que fornece soluções de IA para o ICE nos EUA, vai ficar na cola também dos oficiais de segurança (Crédito: Reprodução/Palantir Technologies/Electronic Frontier Foundation)

A mais recente empreitada da Palantir envolve um teste realizado pela Polícia Metropolitana de Londres, no Reino Unido, mas voltado não contra criminosos ou cidadãos, mas mirando na própria força: o objetivo era detectar atos de má conduta entre os oficiais, o que levou a prisões e investigações contra centenas de policiais, por motivos que variam de abuso de poder a mau uso de recursos estatais.

Palantir de olho também na polícia

Segundo o The Guardian, o teste durou uma semana e envolveu o uso de uma ferramenta de IA da Palantir para analisar se os "mets", que não são lá o melhor exemplo de polícia, estavam fazendo seu trabalho da forma que se espera, e os resultados foram desconcertantes, por assim dizer.

O algoritmo identificou 42 casos de manipulação de turnos e violações da regra de trabalho híbrido entre oficiais, com patentes de inspetor-chefe a superintendente-chefe, que são exigidos permanência nos escritórios por 80% do tempo; estes diziam estar em modo presencial, enquanto permaneciam em casa ou estavam em outros lugares.

Segundo o gabinete da Polícia Metropolitana, 98 policiais serão investigados por "abuso do sistema de TI para ganho pessoal" ao manipularem turnos, enquanto outros 500 foram notificados preventivamente pelo mesmo motivo; a acusação mais grave, no entanto, envolve três oficiais presos por infrações que variam de assédio sexual e abuso de autoridade para fins sexuais, fraude, má-conduta nos escritórios e mau uso dos recursos da polícia.

A IA da Palantir também identificou 12 infrações cometidas por oficiais, que não informaram à Polícia Metropolitana de Londres serem... maçons. Embora a corporação permita a presença de tais indivíduos, é obrigatório que seus membros informem ao órgão sua filiação à Maçonaria, algo que se tornou obrigatório recentemente e não ficou livre de polêmicas por si só.

Policiais metropolitanos de Londres a serviço nas ruas da cidade (Crédito: Justin Tallis/AFP/Getty Images)

Os "mets" nem de longe são o melhor exemplo de polícia, mas profissionais de segurança de dados acham que a vigilância provida pela Palantir passou dos limites (Crédito: Justin Tallis/AFP/Getty Images)

Embora a ferramenta da Palantir tenha mostrado resultado ao identificar centenas de casos de má-conduta dentro da polícia em apenas uma semana, de forma mais eficiente que outros softwares e custando bem menos, especialistas que defendem a privacidade dos dados apontam ser este o exato problema: a conveniência por resultados e economia coloca poder demais nas mãos de uma só empresa, em uma das cidades mais vigiadas por câmeras de segurança do mundo.

Há uma preocupação legítima de que a concentração de informações sensíveis de todo o tipo de pessoas, como a Palantir reúne, pode evoluir no futuro para o desenvolvimento de ferramentas efetivas de vigilância e controle populacional; basta lembrar que, não muito tempo atrás, o Ministério da Justiça do Reino Unido revelou estar trabalhando em uma IA preditiva similar à chinesa, voltada a adivinhar quando um cidadão vai cometer um crime, de modo a agir antes do fato.

A Palantir fez muito dinheiro quando Peter Thiel, fundador e presidente da companhia (que entrou em evidência ao destruir o antigo Gawker, por ter sido tirado do armário à força), foi um dos poucos investidores do Vale do Silício a apoiar Donald Trump durante a campanha de 2016, quando a maioria absoluta de seus pares se alinhou a Hillary Clinton e os democratas. Como de praxe, Trump privilegia quem é leal a ele, e a companhia acumulou quase US$ 1 bilhão em contratos federais nos anos seguintes; hoje, cerca de 42% da receita vem dessa parceria.

O recente manifesto da Palantir publicado pelo CEO Alex Karp, que delineia a missão do Vale do Silício como o braço tech da Casa Branca, urgindo as companhias a desenvolverem soluções bélicas de IA para garantir a supremacia dos EUA, declarou o pluralismo como "um discurso oco" ao dizer que certas culturas são inferiores, enquanto defende a remilitarização da Alemanha e Japão e a volta do alistamento obrigatório de norte-americanos, para combater a China e qualquer nação que não se submeter a Washington.

O economista e ex-ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, classificou o manifesto como "o que o Mal tuitaria"; várias autoridades e personalidades se manifestaram, dizendo que a mensagem da Palantir possui claras inclinações tecnofascistas, racistas e xenofóbicas, sem contar que o documento não menciona absolutamente nada sobre direitos civis/individuais e liberdade de expressão e, por tabela, de imprensa.

Há quem diga que Peter Thiel errou feio ao nomear sua empresa de Palantir, apontando que seu destino é acabar como Saruman ou Denethor II de Gondor, quando na verdade é o contrário: ele vê sua companhia, e a si mesmo, como Sauron.

Nos livros, as Palantiri foram corrompidas quando o Senhor do Escuro colocou as mãos em uma das pedras da visão, usadas por reis do passado para "verem tudo a qualquer momento, em qualquer lugar"; a partir daquele momento, qualquer um de posse de um dos outros artefatos só veria o que Sauron decidisse mostrar, levando-os à loucura e servidão, por acharem estar testemunhando a verdade.

Thiel, que sem ironia tentou ensinar ao Vaticano como rezar a Missa, busca, por meio de sua empresa, exercer tal nível de controle e influência, ganhando muito dinheiro sob a tutela do presidente Trump; monitorar policiais é apenas mais uma forma de demonstrar que, no que depender do futuro, nada escapará a seu olhar.

Fonte: The Guardian

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