Ronaldo Gogoni 40 semanas atrás
A Nvidia acaba de se dar mal no mais recente capítulo da guerra comercial entre os Estados Unidos e a China. A Administração Chinesa do Ciberespaço (CAC), o órgão regulador da internet, e administradora dos esforços nacionais voltados à Inteligência Artificial (IA), proibiu a aquisição e o uso de chips da companhia de Santa Clara, ordem esta imposta às companhias tech locais.
A medida visa um modelo de placa gráfica específico, a RTX Pro 6000D, e se alia a uma recomendação já em vigor para que empresas chinesas não comprem a H20, e recorram a soluções nacionais.

Jensen Huang cedeu 15% da receita da Nvidia a Donald Trump para ter acesso à China... que está barrando seus chips (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)
Graças à sua aposta de longo prazo na tecnologia CUDA e investimento pesado voltado à IA, a Nvidia saiu de uma posição complicada no mercado para se tornar a empresa mais valiosa do mundo, em menos de 5 anos. Seus chips dominam com folga o setor de soluções generativas, principalmente porque ninguém possui produtos tão especializados.
Hoje, quase 90% da receita da Nvidia vem dos chips de IA voltados a servidores de clientes com bolsos muito fundos, como corporações e governos. Mercado gamer? Menos de 9%, e encolhendo ano a ano. Empresas chinesas, como o conglomerado Alibaba e a ByteDance, dona do TikTok, são algumas de suas principais compradoras.
Isto é, até o governo de Joe Biden engrossar para o lado da Nvidia e outras companhias fabricantes de chips, como a rival AMD e a taiwanesa TSMC, e de maquinário especializado para a impressão de semicondutores, como a ASML. Na época, a Casa Branca cortou completamente o acesso da China a soluções mais recentes e potentes, de modo a frear a evolução dos esforços em IA do País do Meio.
O CEO da Nvidia, Jensen Huang, chegou a ser repreendido por Gina Raimondo, a então secretária de Comércio norte-americano, por tentar contornar as medidas com o lançamento de chips diferenciados e menos potentes, que tiveram suas vendas para a China restritas do mesmo jeito. Na era Biden, a ordem era clara: a China não poderia jamais colocar as mãos em tecnologias de ponta, e as empresas, nacionais ou não, que se ralassem com a redução nas vendas.
Só que o tempo passou, o mandato de Biden se encerrou, e Donald Trump voltou à Casa Branca. O atual presidente iniciou uma guerra comercial e tarifária, distribuindo taxações distribuídas para inúmeros países, onde o Brasil está sendo feito de "laboratório", e exemplo para qualquer nação que prejudicar empresas americanas, ou ameaçar seus aliados políticos.
A China foi alvo de taxas que escalaram acima de 100%, respondidas de forma recíproca por Pequim, além do embargo na exportação de chips ter sido mantido. Só que como Trump adora dinheiro, e a Nvidia depende do mercado chinês, o governo emitiu licenças de venda para produtos específicos, como o chip H20 e a RTX Pro 6000D, esta uma versão voltada à China de seu modelo mais potente de placa de vídeo voltada para workstations.
A RTX Pro 6000 original, que possui 96 GB de VRAM GDDR7 e alcança até 380 TFLOP/s (trilhões de operações em ponto flutuante por segundo), custa por volta de US$ 8 mil (~R$ 42,4 mil, cotação de 17/09/2025); a 6000D, que teria o codinome B40 (mas não seria da geração Lovelace), sai por menos e ficaria abaixo em custo até da H20, mas tem especificações mais modestas.
A pegadinha, Trump garfou 15% da receita da Nvidia com as vendas destinadas à China, o que críticos classificam como extorsão, mas Huang, sem muitas opções, aceitou mesmo assim (a AMD teve que se sujeitar ao mesmo acordo).

Nvidia RTX Pro 6000 Blackwell para Workstations; modelo chinês, com um "D" no final, custa menos que os US$ 8 mil da original (Crédito: Divulgação/Nvidia)
O grande problema para Huang, o governo da China está trabalhando ativamente para minar o alcance da Nvidia no país, em mais de uma frente.
Primeiro, a companhia foi processada pela Administração Estatal para a Regulação do Mercado (SAMR), o órgão chinês que atua como regulador antitruste, e recentemente condenada, de descumprir um acordo para a aquisição da Mellanox Technologies, uma empresa californiana especializada em soluções de rede, que incluiam continuar suprindo a China, e evitar práticas anticompetitivas.
Segundo, tão logo Trump aprovou a venda da H20, o CAC emitiu uma recomendação a empresas locais, que evitassem comprar o chip e dessem preferência a soluções de empresas como Huawei e a foundry SMIC, por estar supostamente terem alcançado níveis de desempenho similares aos dos produtos da companhia de Santa Clara.
Como a orientação não era uma proibição, gigantes locais teriam manifestado o desejo de continuar fazendo negócios com a Nvidia, o que agora está sendo cortado de vez pelo CAC, que responde diretamente ao gabinete do premiê Xi Jinping.
O banhammer teria descido com força devido ao risco de a 6000D vender bem mais que a H20 (cuja produção estaria em vias de ser encerrada), e se tornar dominante nos setores de P&D fora da esfera governamental, fora acusações de que os chips da empresa conteriam backdoors a fim de viabilizar espionagem, um caso clássico de "chumbo trocado não dói" (nota: os EUA nunca apresentaram provas contra as supostas ações da Huawei).
Tanto a ByteDance quanto a Alibaba teriam sido diretamente alertadas pelo CAC a cancelarem todos os pedidos da 6000D, e interromperem todos os testes com as placas da Nvidia que já têm em mãos; ambas gigantes cumpriram as ordens de Pequim, segundo informes.
Em nota, Jensen Huang disse estar "desapontado" com a proibição de importações da GPU por companhias da China, que será "paciente" quanto a futuras resoluções do CAC, e que "há vários lugares em que nós (a Nvidia) não podemos ir, e está tudo bem", se resignando ao fato que vai perder muito dinheiro nessa brincadeira.
Fonte: Financial Times, Reuters, BBC