Ronaldo Gogoni 44 semanas atrás
Como vivemos tempos interessantes, todo dia tem uma nova notícia maluca envolvendo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, principalmente no que diz respeito a Inteligência Artificial (IA).
A bola da vez, Nvidia e AMD finalmente conseguiram fechar um acordo com o governo, e foram autorizadas a retomar as vendas de chips especializados para a China, mas com uma condição: ao invés de conceder subsídios, a Casa Branca ficará com 15% da receita, basicamente uma "taxa de exportação".

Não é piada: um Projeto de Lei propõe colocar Trump na nota de US$ 100 (Crédito: Reprodução/Fox News)
Claro, críticos de Trump e especialistas em comércio e finanças têm outro nome para isso: extorsão.
AMD e especialmente Nvidia estão em uma queda de braço com o governo norte-americano desde a gestão de Joe Biden, que endureceu as regras para a exportação de chips avançados e impediu efetivamente empresas da China de colocarem as mãos (de modo legal, que fique claro) em qualquer chip avançado de IA voltado a data centers e pesquisa, e até mesmo em produtos para o usuário final, como as RTXs 5090 e 5090D, potentes o bastante para serem usadas em projetos de larga escala.
Ambas companhias vinham perdendo muito dinheiro, o mercado chinês é um dos maiores do mundo e em expansão, e empresas e clientes locais não queriam ficar restritos a produtos de gerações passadas e de desempenho inferior; o que se seguiu foi um esforço local para fomentar o desenvolvimento interno, bancado pelo governo e privilegiando empresas que foram alvos de sanções dos EUA, como a Huawei, a foundry SMIC, e outras.
Quando Trump voltou à Casa Branca, Jensen Huang, CEO da Nvidia, fez parte do grupo de executivos tech que doaram US$ 1 milhão cada (~R$ 5,39 milhões, cotação de 13/08/2025) para a cerimônia de posse, e mais um milhãozinho por um lugar em um jantar privado, tudo para convencer o presidente a reverter as restrições impostas por Biden, o que ele não estava a fim de fazer, devido às desavenças comerciais escaladas com o governo do premiê chinês Xi Jinping.
Não se sabe se a Dra. Lisa Su, CEO da AMD, chegou a desembolsar grana para ter a atenção de Trump, mas tanto ela quanto Huang estavam presentes no discurso que anunciou o Plano de Ação de IA, que entre outras coisas, propõe que as grandes empresas de IA norte-americanas (OpenAI, Perplexity, Microsoft, Google, Meta, etc.), e somente elas, sejam permitidas a coletar todo o tipo de dados existentes na internet, protegidos ou não por direitos autorais, sem ter que pedir permissão, e sem pagar nada a ninguém.
Corta para a última sexta-feira (8), quando o governo Trump começou a emitir licenças de exportação de chips selecionados da Nvidia para a China, a saber o H20, abaixo dos mais potentes e ainda restritos H200 e H100, mas considerado um "campeão de eficiência" e de preço mais comedido, US$ 14,6 mil (~R$ 78,6 mil) por unidade, contra aproximadamente US$ 30 mil (~R$ 161,5 mil) do modelo topo-de-linha. A AMD também teria sido agraciada com a permissão de voltar a vender seus produtos avançados a empresas chinesas, especialmente o chip MI308.
No entanto, Nvidia e AMD teriam aceitado uma condição inegociável: segundo um oficial do governo Trump, que seria uma das fontes ouvidas pelo Financial Times, ambas terão que ceder 15% da receita (bruta, provavelmente) à Casa Branca; segundo pessoas próximas, o gabinete de Donald Trump ainda não decidiu como o dinheiro será aplicado, de forma similar a promessas não cumpridas sobre o destino da grana levantada com o tarifaço.
As tarifas teriam rendido mais de US$ 30 bilhões (~R$ 161,6 bilhões) no primeiro mês, e Trump disse que usaria o dinheiro para o pagamento da dívida pública, e de dividendos aos cidadãos; até agora ele não fez nem um, nem outro.
Especialistas em comércio exterior ficaram simplesmente abismados com o desenrolar da história: nunca, na história dos Estados Unidos, uma companhia aceitou tais condições para ter acesso a um mercado específico. Em situações normais, é o governo quem concede subsídios às grandes companhias (a Nvidia, a empresa mais valiosa do mundo, com certeza é uma delas) como forma de manter o equilíbrio da balança comercial entre as nações.
No entanto, neste segundo mandato de Trump, estamos muito longe de uma situação normal. Especialistas apontam que a estratégia do presidente inverteu a noção, agora são as companhias, nacionais ou não, que devem abrir a carteira, se quiserem serem permitidas a fazer negócios com a América.
Foi assim que Trump forçou gigantes como Apple, Samsung, e a foundry taiwanesa TSMC, a investirem bilhões de dólares no mercado interno com fábricas de chips e contratações, e a trazerem seus processos de litografia mais avançados aos EUA, o que deve ser feito AGORA, não depois, sob ameaça de mais tarifas, atos que inevitavelmente encarecerão os produtos finais.
Vale lembrar que nesse cenário, nada impede Trump de dar o mesmo tratamento a qualquer outra empresa norte-americana para que elas possam fazer negócios com outras nações, consideradas por Trump como desafetos, atuais e futuros, enquanto conta a grana e agradece. Não foram poucas as críticas à negociação imposta, vista por opositores do governo dos EUA como extorsão, pura e simples.
Mesmo em uma situação inédita, tanto a Nvidia quanto a AMD poderiam sair por cima ao voltarem a vender para a China... não fosse o governo de Pequim estar pressionando empresas locais a darem preferência a soluções chinesas, e não comprarem nada de fora.
Segundo um informe da Bloomberg, autoridades chinesas teriam despachado informes a diversas companhias, com foco nas estatais e privadas que trabalham com soluções de Segurança Nacional, a não comprarem nada de fora, se opondo especialmente à GPU H20 da Nvidia. Ao mesmo tempo, companhias locais querem esses chips, dado o alto desempenho deles em comparação a produtos locais, onde novamente a Huawei, vista como uma "campeã do povo chinês", seria a escolha "natural".
Dado esse cenário, ainda que não seja um ban nas compras de chips da Nvidia e AMD, é esperado que ambas empresas enfrentem certa resistência na competição, não por parte dos clientes interessados, mas porque o premiê Xi fará de tudo para dificultar os negócios de ambas, e por tabela, forçar a mão de Trump por condições mais favoráveis em um possível acordo comercial frente à guerra de tarifas, travada pelos dois países.
Fonte: Financial Times, Bloomberg