Ronaldo Gogoni 14 semanas atrás
A Microsoft realizou nos últimos dias mais uma dança das cadeiras, desta vez mirando na divisão Gaming/Xbox: o CEO Phil Spencer, que comandou o departamento por 13 anos e trabalhou na companhia por quase quatro décadas, e a presidente Sarah Bond, que alguns apontam como uma liderança controversa (mais sobre a seguir), estão ambos de saída.
Ambas as vagas serão preenchidas por Asha Sharma, executiva vinda do departamento de, wait for it, Inteligência Artificial (IA) da gigante de Redmond.
Por mais que Spencer já desse indícios de que iria se aposentar em algum momento, a mudança abrupta pegou todo mundo de surpresa; não somente, a escolha especificamente de Sharma para liderar a Microsoft Gaming está sendo entendida, inclusive pelo co-criador do Xbox original Seamus Blackley, como um indício de que o CEO da Microsoft, Satya Nadella, não vai mais permitir que nenhum setor da empresa se desvie de sua visão/obsessão de tudo girar em torno da IA.
A mudança no comando da Microsoft Gaming foi traumática e chocante, para dizer o mínimo. Embora fosse evidente que Phil Spencer, funcionário da Microsoft desde 1988 e no comando da divisão de games de 2013 até o presente, iria sair para curtir sua merecida aposentadoria, mas ninguém esperava por um anúncio feito de forma tão atabalhoada.
Conforme apurado por Tom Warren do site The Verge, a Microsoft teve que se apressar para anunciar as mudanças porque as informações a respeito da dança das cadeiras havia vazado, e o portal IGN já se preparava para publicar uma matéria exclusiva anunciando a "novidade"; o consenso é que todo mundo sabia que O CEO da Microsoft Gaming iria sair em algum momento, mas a companhia pretendia revelar a mudança nos seus termos.
O vazamento levou à sucessão de informes e trapalhadas que todo mundo viu na última sexta-feira (20), quando tudo havia sido planejado para esta terça-feira (24). Porém, o que ninguém esperava e foi realmente recebido com surpresa, foi a partida da presidente Sarah Bond, que assumiu o cargo de presidente da Microsoft Gaming em 2023. Ele era vista como a sucessora natural, mas a verdade é que a executiva não era muito querida dentro da divisão Xbox.

Saída de Sarah Bond teria sido recebida com "alívio" por funcionários; Phil Spencer, após 38 anos de Microsoft, ganhou um anúncio de aposentadoria atabalhoado (Crédito: Divulgação/Microsoft)
Antes de entrar na Microsoft em 2017 como VP executiva de Parcerias da divisão Xbox, Bond trabalhou na T-Mobile e talvez por conta disso, tinha uma visão mais corporativista que Spencer; fontes internas dizem que ela era "difícil de lidar" e impôs um regime de trabalho basicamente ditatorial na divisão, e demitia qualquer um "que não seguisse sua visão ou a questionasse".
A visão em questão? Dissociar a marca Xbox de hardwares proprietários e publicar games de franquias antes exclusivas em plataformas outrora rivais, o que foi entendido pelo público como a companhia trabalhando para depreciar seus consoles próprios, mesmo com Bond jurando de pés juntos que a próxima geração está garantida (note, isso foi antes da explosão de preços da memória RAM e outros componentes).
No entanto, há um pequeno problema que Bond e mesmo Spencer tinham que enfrentar, com nome e sobrenome: Satya Nadella.
Em um artigo publicado em maio de 2025 pelo site Bloomberg, Charles Lamanna, presidente da divisão que gerencia o Copilot, relatou ter ouvido o CEO da Microsoft dizer que "nada que a companhia construiu nos últimos cinco anos (de 2020 até então) tem mais importância", e tamanho é o medo dele que a empresa não sobreviva à ascensão da IA se ela não tomar a frente das inovações, que ele teria dado ordem a todos os gerentes e SVPs da gigante, de Windows e Office ao Xbox, a "queimarem os navios".
O primeiro a ser afundado foi o Skype, que a Microsoft gastou US$ 8,5 bilhões para comprar e no fim o substituiu pelo Teams, em parte (finja surpresa) por não conseguir, ou não se dar ao trabalho, de atualizá-lo com ferramentas generativas. O Windows 11 e o pacote Office, hoje Microsoft 365, também receberam sua cota de soluções de IA, mesmo em situações inusitadas como o Paint e o Bloco de Notas. A única divisão com a qual Nadella muito provavelmente não implica é a Azure, já que nuvem é essencial aos esforços de tudo centrado em IA.

Satya Nadella estaria tão obcecado com o boom da IA, que para ele NADA que a Microsoft criou em meio século tem mais valor, seja Windows, Office, ou Xbox (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)
E então há a divisão Xbox/Microsoft Gaming. Nadella já havia declarado que IA será essencial no futuro dos games, tanto do lado do desenvolvedor quanto do jogador, mas não só devs e público demonstram resistência, como Sarah Bond, abordando uma estratégia de distribuição descentralizada de jogos não necessariamente voltada a soluções generativas, e Phil Spencer atuando como um executivo mais próximo à visão dos jogadores, não estavam devidamente alinhados com aquilo que o CEO espera de todos os setores da Microsoft: IA primeiro e no centro, e tudo o mais é secundário.
Então surge Asha Sharma, executiva que até recentemente era a VP corporativa da plataforma de IA da Microsoft, e uma evangelista da tecnologia, tendo recentemente defendido que soluções generativas resolverão problemas referentes à baixa natalidade, apresentando números tirados do éter e ignorando o fato de que pessoas têm menos filhos hoje porque crianças custam caro, todos estão ganhando menos, o custo de vida é altíssimo, e ninguém sabe se continuará empregado no próximo mês, mesmo fazendo um bom trabalho.
A executiva até disse no comunicado oficial que não pretende atochar o Xbox com "IAs ruins e sem alma", mas vale lembrar que nem ela, nem Satya Nadella, consideram os esforços da Microsoft na área como AI slop, ao contrário do que o público em geral acha.
Quando criticada nas redes sociais por não ser uma gamer, Sharma compartilhou sua gamertag na plataforma Xbox, no que muitos apontaram que a evolução em certos jogos seria artificial, e que alguém na Microsoft teria manipulado os dados ou jogado por ela, a lá Elon Musk pagando a outros para jogarem Path of Exile 2 e Diablo IV em seu perfil (UPDATE: ela explicou posteriormente que sua conta é compartilhada com membros de sua família).
A título de comparação, seu primeiro achievement foi conquistado no dia 15/01/2026, justamente o troféu "Your Journey Begins" de Halo: The Master Chief Collection.
Para Seamus Blackley, co-criador do Xbox original, a escolha de Sharma para ocupar o cargo de chefe da Microsoft Gaming não foi aleatória, mas uma escolha consciente de Satya Nadella para forçar a divisão Xbox a rezar por sua atual cartilha onde tudo deve girar em torno da IA, mas como você aplica a visão de implementar soluções generativas em uma mídia tão centrada na criação e consumo de conteúdos autorais, e na interação direta do jogador?

Asha Sharma é uma evangelista de IA, o que vem sendo entendido como um meio de forçar a divisão Xbox a se adequar à atual missão da companhia (Crédito: Divulgação/Microsoft)
Blackley foi enfático ao dizer que Sharma teria sido designada para resolver um problema: verificar se IA pode se tornar a mola motriz da divisão Xbox, e em caso negativo, encerrar os esforços da Microsoft em games, por não se adequarem ao futuro projetado por Nadella:
"Satya Nadella apostou muito e investiu uma quantidade astronômica de dinheiro e credibilidade no modelo de futuro transformador da IA. (A divisão) Xbox, assim como vários negócios que não são centrados em IA, será encerrada. Eles (a Microsoft) não vão admitir, mas é o que está acontecendo. Eu acredito que a missão da nova CEO, Asha Sharma, é ser uma médica de cuidados paliativos que vai conduzir o Xbox gentilmente noite adentro (...).
É como aquele problema do martelo e os pregos, que é incrivelmente verossímil na Microsoft no momento. Todo problema é um problema para IAs generativas. Games, claro, são um problema de IAs generativas. É por isso que faz sentido. Do ponto de vista do Satya, ele tem um martelo chamado IA e vê todos os problemas como pregos.
Então, quem colocar no comando de games? Um gamer? Não, porque no mundo do Satya, tudo é um problema de IA, então você coloca alguém de IA no comando de games com um modelo de treinamento, com campos para ela treinar como se treina um modelo de IA, para trazer a IA generativa a uma posição para revolucionar os games.
Acreditar ou não se é possível é na verdade acreditar ou não se a IA terá sucesso (em reestruturar o Xbox ao redor dela). Essa crença é o fator que determinará se você acredita que o Xbox vai sobreviver, e o que a Microsoft fará com ele. Nossa forma antiga de pensar não serve mais, porque a mentalidade de todos na cadeia de comando mudou.
Eles vivem em um mundo onde a IA é a solução para todos os problemas, assim, sua aplicação é a única solução em que conseguem pensar."
Blackley aponta uma diferença crucial de pensamento entre a equipe de que fez parte e a responsável pelo Xbox 360, e a missão de Asha Sharma: no passado, a divisão foi estabelecida e conduzida por pessoas que gostavam de jogar e acreditavam que a Microsoft deveria conquistar seu espaço no mercado, ao lado da Sony (que vem cometendo suas próprias presepadas) e da Nintendo.
Para Sharma, ela está cumprindo uma ordem de Nadella apenas porque o CEO quer que jogos sejam "movidos a IA, o que é algo completamente diferente", sem contar que a nova chefe não tem o carisma de um Phil Spencer.
Mas vendo pelo lado bom, Asha Sharma não parece ser outra Sarah Bond.