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Vaticano abraça a IA, mas Leão XIV mantém dois pés atrás

Vaticano vai usar IA para traduzir missas na basílica de São Pedro para 60 idiomas; papa Leão XIV ainda guarda ressalvas com tecnologia

16 semanas atrás

O Vaticano está timidamente ensaiando como lidar com a Inteligência Artificial (IA), de modo a manter a tradição da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) de seguir as mudanças do tempo, sem ignorar tradições e seus próprios valores.

Enquanto o papa Leão XIV continua fazendo ressalvas em relação ao desenvolvimento desenfreado da IA, que não deve (idealmente) colocar pessoas em segundo plano, a Santa Sé irá implementar, como parte das comemorações dos 400 anos da Basílica de São Pedro, em Roma, um recurso de tradução instantânea em tempo real da missa em 60 idiomas, via web e sem apps dedicados.

Tradução por IA da missa na basílica de São Pedro será acessível via mobile e não depende de apps dedicados (Crédito: Alvesgaspar/Wikimedia Commons) / vaticano

Tradução por IA da missa na Basílica de São Pedro será acessível via mobile e não depende de apps dedicados (Crédito: Alvesgaspar/Wikimedia Commons)

Vaticano.IA

A iniciativa é uma parceria do Vaticano com a Translated, uma companhia italiana, fundada em 1999 e especializada em tradução automatizada, tendo sido uma das primeiras a implementar o recurso de tradução adaptativo via aprendizado de máquina, ou seja, tem credenciais estabelecidas há décadas e anteriores ao boom das soluções generativas.

A Translated é responsável pelo Lara, uma ferramenta introduzida em 2024 que, conforme a empresa, se baseia nos inputs de "mais de 500 mil tradutores profissionais" em diversos idiomas. Segundo o cardeal Mauro Gambetti, arquipresbítero da basílica e presidente da Fábrica de São Pedro, órgão responsável pela manutenção, restauração e conservação do templo, a ideia é fornecer traduções em texto e áudio diretamente para os gadgets dos fiéis, que precisariam apenas escanear um QR code.

A parte interessante é que, entendendo que os visitantes da basílica são gente de todos os tipos e de diversas origens, e que a grande maioria não fala italiano (o rito tridentino em latim é reservado para cerimônias especiais, como a Missa do Galo e as celebrações da Semana Santa), o acesso à ferramenta do Vaticano que usa o Lara não exige a instalação de app nenhum. O QR Code escaneado redireciona para uma página na web, que exibirá a tradução simultânea.

O cardeal Gambetti comentou:

"Durante séculos, a Basílica de São Pedro tem recebido fiéis de todas as nações e línguas. Ao disponibilizar uma ferramenta que ajudará muitos a entenderem o rito litúrgico, nós esperamos atender a missão que define o cerne da Igreja Católica, universal por sua própria vocação (...).

Estou muito contente com a colaboração com a Translated. Neste ano centenário, nós olhamos para o futuro com prudência e discernimento, confiantes que a criatividade humana, quando guiada pela fé, pode se converter em um instrumento de união."

Ainda como parte das celebrações do 4.º centenário da basílica atual, Gambetti explicou que áreas do templo antes restritas serão abertas para visitação pública pela primeira vez, como o terraço e o monumental Domo de Michelangelo, a cúpula principal, além de acesso a obras do acervo do Vaticano até então mantidas longe dos olhares públicos.

Leão XIV: "IAs devem servir humanos, não os substituir"

É fato que a ICAR sempre buscou andar lado a lado com o progresso à sua maneira, um dos exemplos é o Observatório do Vaticano, um dos mais antigos da Europa, dirigido pelo irmão jesuíta Guy Consolmagno, detentor da Medalha Carl Sagan por suas contribuições à Ciência.

Por outro lado, a instituição tem a tendência a condenar novas tecnologias e desenvolvimentos, quando o papa minimamente acredita que sejam opostos à fé cristã. Um dos exemplos mais notórios é o do papa Gregório XVI (1831–1846), extremamente avesso a novas tecnologias, que se opôs abertamente a trens, telégrafos, e iluminação a gás.

Em julho de 1978 o cardeal Albino Luciani, então patriarca de Veneza (mais tarde eleito papa João Paulo I naquele mesmo ano), expressou preocupação com o nascimento de Louise Brown, fruto da primeira fertilização-in-vitro (FIV) bem sucedida da história, por temer que a técnica levasse a mulheres serem usadas como "fábricas de bebês", mas não censurou os pais e desejou votos de felicidade à primeira bebê de proveta do mundo.

Alheio a isso, vários religiosos católicos na época chegaram a dizer que FIV contornava a concepção por meios naturais, e que pais que recorriam ao método para ter filhos desafiavam desígnios divinos (se o Criador assim decidiu, o casal deveria aceitar ou partir para adoção); alguns inclusive disseram que Louise "não tinha alma", por ser gerada "à revelia de Deus".

Hoje, bebês de proveta têm zero estigma e FIV é um procedimento médico comum, tanto que é disponibilizado pelo SUS.

Mesmo com o Vaticano ensaiando uma aproximação com a IA, Leão XIV não recua em sua visão de exigir que desenvolvedores e companhias priorizem humanos acima do lucro (Crédito: Lola Gomez/CNS)

Mesmo com o Vaticano ensaiando uma aproximação com a IA, Leão XIV não recua em sua visão de exigir que desenvolvedores e companhias priorizem humanos acima do lucro (Crédito: Lola Gomez/CNS)

João Paulo II, hoje venerado como santo, disse em 1994 que a TV podia "isolar membros da família, prejudicar relacionamentos, e alienar pais e filhos", e recomendou responsáveis a não tratarem o aparelho como uma babá (o que é até sensato, convenhamos); Francisco parou de assistir TV em 1990 quando ainda era apenas o padre Jorge Mario Bergoglio, e não usava a internet, dependendo de um guarda suíço para mantê-lo atualizado.

O papa Leão XIII chegou a declarar que padres não deveriam andar de bicicleta, mas aqui eu entendo, não só a batina atrapalha, como ciclistas não são confiáveis.

O atual pontífice não chegou a ir tão longe quanto seu homônimo anterior, mas a escolha de "Leão" como nome papal pelo então cardeal Robert Francis Prevost teve como propósito se posicionar como um papa oposto ao que chamou de "Segunda Revolução Industrial", a ascensão das IAs generativas.

Desde maio de 2025, Leão XIV fez várias declarações reprimindo a busca desenfreada das big techs pelo lucro com a IA, que coloca o fator humano em segundo lugar, de preferência no olho na rua, a fim de poupar gastos e maximizar os ganhos. Em uma mensagem recente, o papa alertou companhias que tecnologias que envolvam a coleta de dados pessoais em massa, incluindo voz e aparência, não deve ser feito de modo ou com o intuito de atacar a dignidade humana:

"Coletar rostos e vozes humanas significa coletar sua marca, o indelével reflexo do amor de Deus. Nós não somos uma espécie composta de fórmulas bioquímicas predefinidas. Cada um de nós possui uma vocação insubstituível e inimitável, que se origina de nossas experiências de vida e que se manifesta através da interação com outros.

Leão XIV também destacou que a experiência especialmente das redes sociais, que tendem a agrupar pessoas em "caixas de ressonância", acabam por fomentar a polarização e dificultam o livre diálogo entre pessoas com opiniões divergentes: quando você se cerca de pessoas que pensam igual, a tendência é tratar qualquer divergente como inimigo. Ele também reforça o sentimento que IAs e redes não podem ficar sem regulação, mas menciona que esse é um esforço que deve envolver discussões e opiniões de todos os setores da população global.

Ao reunir pessoas em bolhas de consenso e ultraje simplificados, tais algoritmos reduzem noossa habilidade de ouvir e pensar de forma crítica, e aumentam a polarização social (...).

Nenhum setor pode lidar soozinho com o desafio de guiar a inovação digital e a governança em IA. Salvaguardas devem ser impostas. Todos os responsáveis — da indústria tech a legisladores, de companhias criativas a acadêmicos, de artistas a jornalistas e educadores — devem se envolver na construção e implementação de uma cidadania digital informada e responsável."

O papa Leão XIV menciona a importância de educar as futuras gerações em informação, mídia e IA de forma responsável, de modo a formar profissionais comprometidos com a condição humana em primeiro lugar, de modo a priorizarem o desenvolvimento de sistemas que protejam a dignidade digital dos cidadãos primeiro e busquem lucro depois, que não é muito diferente da posição defendida por Francisco frente ao crescimento das soluções generativas, e o aumento das ocorrências e abusos.

Fonte: Vatican News, CBCEW

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