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Sobre X, Grok, e o mundo contra Elon Musk

Grok e X compartilharam deepfakes sem consentimento, inclusive de menores; para Elon Musk, regulação global das redes sociais é censura

17 semanas atrás

A era em que as redes sociais clamavam que "é tudo da lei" acabou. Cada vez mais governos ao redor do mundo se movem para impor limites sobre o que é compartilhado e quem pode ter acesso, e embora esse movimento não seja recente, ele ganhou tração graças ao X e ao Grok, a rede e o assistente de Inteligência Artificial (IA) de Elon Musk.

O bilionário insiste em defender a ferramenta, que recentemente viabilizou a criação de deepfakes (conteúdo sexual falso) sem consentimento, inclusive de menores, o que viola uma série de leis em diversas nações, inclusive no Brasil; autoridades discordam do argumento usado de que a culpa é do usuário, quando o acesso não é restrito e quase nenhum limite foi colocado no algoritmo.

Elon Musk atraiu a ira de autoridades globais contra todas as redes sociais (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

Elon Musk atraiu a ira de autoridades globais contra todas as redes sociais (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

Com Reino Unido, França, Espanha e Grécia propondo o banimento de menores de 16 anos das redes sociais, medida já implementada na Austrália e que passará em breve a valer também no território brasileiro, Elon Musk voltou a atacar autoridades que apontaram o dedo para o X e o Grok, alegando que o controle estatal e a aplicação da Lei são puramente censura, em defesa da sua lógica de "liberdade de expressão absoluta" e livre de consequências.

Elon Musk, deepfakes, e a Lei

Entre o fim de 2025 e o início de 2026, o X foi inundado com milhões de imagens geradas por usuários através do Grok, de solicitações para criar imagens alteradas de fotos compartilhadas na rede social, dos mais diversos, incluindo versões com roupas íntimas ou mesmo nuas, todas sem consentimento dos autores. Os alvos eram mulheres quase na totalidade, mas muitos observaram a criação de deepfakes também de menores de idade, o que é classificado como CSAM (material de abuso sexual infantil), não importa se virtual ou real.

Uma análise realizada por uma pesquisadora independente, cujos dados foram divulgados pelo site Bloomberg, apontam que o Grok gerou cerca de 6,7 mil imagens sexuais não consentidas por hora, todas compartilhadas pelo perfil do assistente no X e em aberto, para qualquer um ver.

O que se seguiu foi uma óbvia reação das autoridades, especialmente em um momento que a liberdade de acesso e compartilhamento de conteúdo nas redes sociais vem sendo questionada e limitada. Desde que comprou o Twitter e o renomeou, Musk tem sido o porta-voz de que qualquer um tem o direito de se expressar como quiser na internet, e que independente de sua opinião ou mensagem, ninguém deve ser punido por isso, o que não faz sentido em nenhum país minimamente sério, e nem nos não sérios (paging Charles de Gaulle), como o Brasil.

Entre ordens judiciais aqui e ali para que o Grok passasse a restringir o acesso e parasse de criar deepfakes sem consentimento, o que a xAI disse ter feito, mas não foi bem assim, autoridades entenderam que enough is enough, e que redes sociais em geral não podem mais ser deixadas correndo soltas; ainda que a discussão para a regulação das mesmas inclua argumentos contra designs viciantes como scroll infinito, ou táticas Máfia-like como venda de proteção contra anúncios, compartilhamento de pr0n e CSAM não solicitados foram a gota d'água.

Elon Musk, através do X, jogou toda a culpa da criação de tais conteúdos nos usuários, mas ninguém comprou tal desculpa, por entender que o Grok deveria ser programado de forma responsável, ele deveria negar tais solicitações para início de conversa.

Ani, o avatar animado do Grok que "definitivamente" não é uma cópia da Misa Amane, do mangá/anime Death Note, por motivos de "porque sim" (Crédito: Grok/xAI)

Ani, o avatar animado do Grok que "definitivamente" não é uma cópia da Misa Amane, do mangá/anime Death Note, por motivos de "porque sim" (Crédito: Grok/xAI)

A Austrália, como já dissemos, foi o primeiro país a proibir o acesso de menores de 16 anos a redes sociais, uma medida que afetou inclusive o YouTube e a Twitch, mesmo ambos sendo por definição plataformas de VODs (vídeos sob demanda) e streaming, ainda que ofereçam interações sociais; ambos caíram na malha por hoje serem muito parecidos com o TikTok, também bloqueado para crianças e adolescentes na terra dos emus.

O Reino Unido anunciou recentemente que estuda implementar uma medida parecida, e recentemente o Grok chegou a ser bloqueado temporariamente na Malásia e na Indonésia; a Índia estuda tomar medidas similares, e órgãos brasileiros deram prazo ao X e xAI para removerem todas as ferramentas de criação de deepfakes não consentidos do Grok, sob pena de banimento do algoritmo do país.

A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), o Ministério Público Federal (MPF), e a Secretaria Nacional do Consumidor do Ministério da Justiça (Senacon) não descartam inclusive que o X acabe novamente bloqueado no país, e a plataforma e Elon Musk formalmente processados por crime federal (criação e compartilhamento de CSAM), caso se recusem a atender as exigências.

Agora a França, que fez uma busca recente no escritório do X em Paris, e intimou Musk e a ex-CEO Linda Yaccarino a prestarem depoimentos, a Espanha e a Grécia, países-membros da União Europeia, devem fazer o mesmo, com o primeiro considerando baixar a idade limite para 15 anos. As propostas incluem o monitoramento de tudo o que é postado por usuários acima da idade limite, o armazenamento de dados para eventuais solicitações da Justiça, e na terra do Rei, a aplicação das mesmas medidas também a VPNs, o que esbarra em questões sobre vigilantismo estatal.

No Brasil, o ECA Digital que entrará em vigor em março de 2026 adota medidas similares às aplicadas na Austrália, e contas de menores deverão ser obrigatoriamente vinculadas às dos pais; no entanto, há uma discussão sobre meios de evitar que crianças e adolescentes driblem as restrições, o que já vem acontecendo.

Elon Musk, para variar, ataca qualquer um que ouse propor regulação estatal para o X e o Grok (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

Elon Musk, para variar, ataca qualquer um que ouse propor regulação estatal para o X e o Grok (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

Para variar, Elon Musk não anda nada contente com tais movimentos. No mais recente episódio, o bilionário que está se fundindo suas companhias (o que inevitavelmente será questionado pela Comissão Europeia) chamou o primeiro-ministro da Espanha Pedro Sánchez, de "tirano e traidor do povo" de seu país, ao capitanear o movimento para proteger menores da lei do "Velho Oeste digital" que impera nas redes sociais, "um estado falho onde as leis são ignoradas e crimes são tolerados" e que "amplificam a desinformação".

Musk obviamente não gosta de ser contrariado, acredita que dinheiro compra poder (dica: é o contrário) e que suas companhias, com o endosso de aliados, devem ser permitidas fazer o que ele quiser, quando e como desejar e sem consequências, o que autoridades estão deixando bem claro, desde o entreveiro com o ministro do STF Alexandre de Moraes em 2024, não é assim que a banda toca.

Fonte: Ars Technica, The Verge, The Guardian, Reuters [1, 2]

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