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IA: papa Leão XIV se opõe a abusos da "2.ª Revolução Industrial"

Papa Leão XIV assume compromisso de combater abusos de IA contra trabalhadores e vulneráveis, em nome de avanços em benefício a privilegiados

1 ano atrás

Leão XIV tem sido bem direto quanto às suas prioridades: já no segundo dia de pontificado, durante a 1.ª audiência com o colégio de cardeais, o chefe da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) definiu a Inteligência Artificial (IA) como "uma ameaça à humanidade", quando usada contra os mais necessitados.

Na ocasião, o pontífice disse que usará "os 2 mil anos de ensinamentos sociais" da Igreja para "responder a uma nova Revolução Industrial, e a inovações no campo de IA que representam riscos à dignidade, justiça, e trabalho humanos". As big techs obviamente não curtiram tal declaração, e agora estão tentando cortejar o Santo Padre.

Leão XIV não só manteve posição de Francisco em combater abusos com IA, como subiu o tom (Crédito: David Ramos/Getty Images)

Leão XIV não só manteve posição de Francisco em combater abusos com IA, como subiu o tom (Crédito: David Ramos/Getty Images)

Papa Leão XIV vs. IA

O conclave de 2025, conduzido após a morte do papa Francisco, durou dois dias e foi concluído com a eleição de Robert Francis Prevost, então cardeal de Albano e prefeito do Dicastério dos Bispos; ele é o segundo papa do continente americano, o primeiro nascido nos Estados Unidos, e o primeiro de nacionalidade norte-americana e peruana; ele atuou como missionário no Peru por mais de 20 anos.

Tão logo assumiu o cargo, Leão XIV fez várias declarações quanto à posição das gigantes de tecnologia em explorar IAs generativas para todos os casos de uso, em detrimento de prejuízos que possam causar aos mais vulneráveis, tudo em nome do lucro. Casos não faltam:

  • O sistema da United Health, empresa que no Brasil administra a rede Amil, que priorizava pacientes brancos. Ele considerava negros como maus pagadores, ignorando dados contaminados: estes têm empregos piores e recebem menos, justamente por serem negros;
  • O algoritmo que levou a uma prisão indevida, ao replicar preconceito racial;
  • A IA britânica que dava notas piores a estudantes que viviam em condições sócio financeiras inferiores aos mais bem avaliados.

A posição do papa frente à IA está explícita na escolha de seu nome papal, que não é aleatória; o simbolismo por trás dele remete à continuidade do trabalho conduzido pelo último homônimo, no caso, a posição pró-operários de Leão XIII (1878-1903) frente tanto à Revolução Industrial e o capitalismo laissez-faire (em que o governo não se mete na economia, deixando as empresas fazerem o que quiserem), quanto ao socialismo/comunismo de Engels e Marx, visto pela ICAR (até hoje, vale dizer) como um sistema político ateu.

Leão XIII, o "papa social", defendeu direitos dos trabalhadores durante a Revolução Industrial (Crédito: Braun et Cie/domínio público)

Leão XIII, o "papa social", defendeu direitos dos trabalhadores durante a Revolução Industrial (Crédito: Braun et Cie/domínio público)

Durante seu papado, Francisco atacou várias vezes o uso mal-intencionado da IA e novas tecnologias, lembrando que empresas e desenvolvedores devem atender princípios básicos de justiça social e responsabilidade; ele expressou por anos sua preocupação devido ataques à população Rohingya em Myanmar, impulsionados por publicações virais no Facebook.

Leão XIV, que não é totalmente leigo na área por ser bacharel em Matemática, está seguindo a mesma linha, mas subiu o tom, defendendo a promulgação de um tratado global para a regulação das IAs; tal iniciativa, como a capitaneada pela União Europeia, é algo de que as big techs fogem mais que o diabo da cruz.

A quase totalidade dos executivos defende que quaisquer tentativas de impor leis a serem seguidas pelas novas tecnologias, mesmo as mais óbvias, "prejudicam a inovação". O governo de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, pensa da mesma forma.

O líder de uma das três maiores religiões monoteístas do mundo se opondo categoricamente ao avanço da IA em prol de justiça social obviamente não agradou ninguém no Vale do Silício: nos próximos dias, o Vaticano receberá uma comitiva formada por executivos de gigantes como Google, Meta, IBM, Anthropic, Cohere e Palantir, que se sentarão para discutir suas políticas com o papa, de modo a convencê-lo de que soluções generativas não são o Anticristo, que era como Leão XIII via abusos de oligarcas cometidos contra trabalhadores, durante a Revolução Industrial.

Papa Francisco se encontra com Mark Zuckerberg, CEO do Meta, em foto de 2016; big techs estão tentando cortejar Leão XIV da mesma forma (Crédito: L'Osservatore Romano/EPA/Shutterstock)

Papa Francisco se encontra com Mark Zuckerberg, CEO do Meta, em foto de 2016; big techs estão tentando cortejar Leão XIV da mesma forma (Crédito: L'Osservatore Romano/EPA/Shutterstock)

Durante o pontificado de Francisco, IAs generativas evoluíram de uma curiosidade para uma ferramenta central na vida de pessoas, empresas, governos, com potencial para ditar os rumos da economia daqui por diante, e formular novas regras nas relações de trabalho, sociais, e políticas. O então papa se posicionou do lado dos pobres, operários e vulneráveis, ao defender que nenhum avanço tecnológico deve ser feito em detrimento daqueles que estão do lado mais fraco da corda.

Até o momento, o discurso de Leão XIV segue a mesma linha de raciocínio de Francisco, que já defendia uma regulação global das IAs; ambos, e o clero em geral, concordam que ferramentas não devem ser demonizadas, mas precisam operar em prol da sociedade em primeiro lugar, pois de nada vale fomentar o uso de tais ferramentas em nome do lucro e supremacia política, se o custo é o aumento do desemprego, injustiça, discriminação, e afins.

Fonte: The Wall Street Journal

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