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IA e a controversa arte de ressuscitar os mortos

A tecnologia de IA está revolucionando como lidamos com nossos mortos, revisitando questões éticas e emocionais ao ressuscitar memórias e vozes do passado. Como lidar com essa nova realidade?

39 semanas atrás

Mortos são complicados. Assim como peixe e visitas, começar a cheirar mal depois de três dias. Quando são desmortos, querem sugar nosso sangue, quando são ex-mortos, como toda ex vivem de sugar nossos cérebros. E quando não estão mortos, formam o grupo de pessoas mais irritantes que existe: Os vivos. Mesmo assim, há quem queira trazê-los de volta.

A imagem é uma fotografia em preto e branco de um cruzamento de madeira com as palavras "PET SEMATARY" escrito nela em giz branco. A cruz está presa a um tronco de árvore com uma teia de aranha pendurada nela. O fundo é escuro e nublado, com árvores nuas visíveis à distância. O humor geral da imagem é estranho e antecipado.

Nunca uma boa ideia (Crédito: Di Bonaventura Pictures/Room 101, Inc./Paramount Pictures)

Desde que o Homem passou a ter noção da própria mortalidade, povoou o Céu e o  Além com seus entes queridos, e incontáveis culturas criaram crenças de que é possível se comunicar com eles. Mesmo as religiões mais avessas à necromancia, como o cristianismo, nutrem o sentimento de que seus entes queridos os estão observando, ouvindo seus apelos e até de vez em quando intercedendo.

A idéia de preservar ao menos a mente dos mortos é bem difundida na ficção científica e mesmo no mundo real. Empresas de criogenia vendem processos onde o corpo, ou na maioria dos casos apenas a cabeça do falecido é preservada, na esperança de que em um futuro distante seja desenvolvida tecnologia para restaurar aquele cérebro.

A transferência da mente para um corpo robótico se tornou uma trope da ficção científica, do recente Alien:Earth a The Comet Doom, de Edmond Hamilton, um conto de 1929 onde humanos transferem suas mentes para corpos robóticos com tentáculos. Tudo fica melhor com tentáculos.

Em A Cidade e as Estrelas, de Arthur Clarke, humanos vivem em uma utopia distópica hedonista, com corpos orgânicos criados em laboratório. As mentes armazenadas em computadores são transferidas para os corpos, o sujeito vive o tempo que quiser, quando se entedia vai para uma câmara de desintegração, sua mente é uploadeada para o computador, e ele fica dormente por um número aleatório de anos.

A imagem é uma tira de quadrinhos com uma ilustração estilo cartoon de um homem e uma mulher em uma sala. O homem está do lado esquerdo da imagem, com a boca aberta e os olhos bem abertos, como se estivesse gritando. Ele está vestindo um terno e gravata e tem uma cabeça grande com fios e mais fios conectados a ela. A mulher está parada à frente dele, olhando para ele com uma expressão de surpresa no rosto. Do lado direito, há uma fala em um balão acima da cabeça dela que diz: "Você acha minha aparência? Eu entendo completamente. É exatamente por isso que pedi ao meu colega para trazê-lo aqui." O fundo é de cor azul escura, e há várias máquinas e equipamentos espalhados pela sala.

Não acho que a Monster Girl vai curtir muito... (Crédito: Image Comics)

Em Invincible o Robô na verdade era comandado remotamente por Ruddy Conners, um jovem vivendo em um corpo deformado. Mais tarde ele cria um clone de Rex Splode e transfere sua mente para ele. Ou melhor, copia. O “original” morre logo em seguida, relembrando um dos paradoxos da transferência de metes na ficção científica. Se são dados, e não algo transcendental como uma alma ou espírito, pode ser copiado, e aí, quem é o clone?

Nota: Esse tema também é explorado na série, os Irmãos Mauler são dois vilões que brigam o tempo todo para saber quem é o clone.

No excelente arco de quadrinhos d’Os Jetsons, de 2018, Diego Lopez e Michael McAlister modernizaram a história do desenho da Hanna Barbera. Nele a robô Rosie, ao invés de uma empregada com tons claramente racistas, se tornou a avó da família, que no fim da vida transfere a mente para um corpo robótico.

A imagem é uma história em quadrinhos com dois painéis. No primeiro painel, há um robô azul com olhos vermelhos e um corpo branco. O robô está em pé na frente de um fundo verde com uma bolha de fala acima dela que diz "mãe?" O segundo painel mostra um homem e uma mulher conversando um com o outro. O homem está vestindo um terno azul e a mulher tem cabelos loiros. Ambos estão sorrindo e parecem estar envolvidos em uma conversa.No terceiro painel, o robô está abraçando a mulher em um terno azul e branco. A mulher tem uma expressão surpresa em seu rosto e o homem está olhando para ela com um sorriso. O fundo é verde e há outras duas pessoas ao fundo, uma vestindo um vestido rosa e o outro vestindo um terno preto.

Esse arco é muito legal! (Crédito: Hanna Barbera)

Inúmeros livros e filmes exploraram as conseqüências filosóficas de uma mente humana em um corpo robótico, a lenta e gradual desumanização, a rejeição do novo corpo, a imortalidade como uma maldição, ao ver os entes queridos aos poucos morrendo, mas a maioria dessas histórias trata a transferência como algo feito em vida.

E os mortos do mundo real?

Desde a antiguidade tentamos preservar nossos mortos, seja com mumificação, seja deixando a mãe no quarto dela, como fez Norman Bates. Nossos mortos são preservados em prosa e verso, em textos épicos, em poemas, estátuas e pinturas.

Toda casa do interior tem uma foto antiga, em preto-e-branco ou colorizada manualmente, dos bisavôs (antes, os avós) da família. No México a tradição do Dia dos Mortos transforma uma data associada com tristeza em um verdadeiro espetáculo de celebração da vida e da memória dos entes queridos. É constrangedor que no Brasil o dia no máximo seja associado com meteorologia improvável.

Uns dois anos atrás surgiram aplicações que animavam fotos. Hoje essa tecnologia se tornou Open Source, com modelos de IA como Qwen e Wan2.2 conseguem verdadeiros milagres, restaurando fotos antigas em segundos (ok, em minutos, minha GPU é humilde).

Recentemente uma amiga postou uma foto de um tio, há muito falecido, tirada na Itália dos Anos 50, provavelmente. Em minutos restaurei e colorizei a foto, e a transformei em um vídeo, onde ele acena para os parentes do futuro. Ela ficou legitimamente emocionada.

Eu não estou sozinho, claro, existe toda uma Indústria do Pós-Vida 2.0 (a original se chama Religião) que em 2025 vai faturar US$20 bilhões, com projeção de atingir US$80 bilhões por volta de 2035, e imagens animadas são só a ponta do iceberg.

Eles falam agora?

As tecnologias de IA estão sendo usadas para dar voz aos mortos, com mais eficiência que a Oda Mae Brown. Hoje com uma amostra de alguns minutos, é possível treinar uma IA para aprender a emular a voz e a prosódia de uma pessoa, viva ou morta. As cartas que a mãe deixou para os filhos podem ser lidas com a voz dela, se quiserem.

A imagem é um pôster de filme para o filme Caprica. Possui uma jovem mulher com cabelos longos escuros, segurando uma maçã vermelha na mão direita. Ela está de pé na frente de um fundo branco, com o corpo se virando ligeiramente para o lado. A mulher está olhando diretamente para a câmera com uma expressão séria no rosto. O título do filme, "Caprica", está escrito em letras negras ousadas no topo do pôster, com o slogan "O futuro da humanidade começa com uma escolha". Abaixo do título, há o logotipo da SYFY e a data "Sexta -feira 22 de janeiro às 9/8c" em texto menor.

Caprica é muito boa (Crédito:SyFy)

Empresas como a Authentic Interactions estão criando deadbots, usando Large Language Models alimentados com dados sobre uma pessoa, até conseguirem emular a personalidade, trejeitos, estilos de fala dela. Mais ou menos como em Caprica, a série prequel de Battlestar Galactica, onde Zoe Graystone, filha de um cientista criador de um ambiente em realidade virtual super-popular, constrói um avatar de si mesma usando IA, treinado com mídias sociais, documentos, diários, exames médicos, vídeos de família, até que o avatar consegue ser uma cópia perfeita de Zoe, que morre em um atentado, e o pai tem que lidar com o dilema de saber que aquela não é realmente sua filha, mas ao mesmo tempo é parecida demais.

Qual o problema disso?

Vários acadêmicos já estão alertando para os riscos da “Necromancia Digital”, alguns apontam para o risco de se tornar uma situação de refém, com os serviços cobrando mensalidade, e ameaçando deletar o ente querido com quem a pessoa continua conversando.

Gente em sofrimento pagaria sem pensar duas-vezes, dando espaço para empresas gananciosas. Também há o problema da privacidade. Quanta informação sigilosa um diretor da CIA que perdeu uma filha pequena acabaria revelando a ela, em suas conversas?

Em 1969 a psiquiatra suíça-americana chamada Elisabeth Kübler-Ross publicou em um livro os chamados Cinco Estágios do Luto, uma forma simplificada de entender o processo que passamos quando perdemos um ente querido. São eles:

  1. Negação
  2. Raiva
  3. Barganha
  4. Depressão
  5. Aceitação

Não há prazo determinado, nem ordem certa a seguir, mas para termos paz e seguirmos com nossa vida, é preciso que em algum momento aceitemos a Morte da outra pessoa. Um dos maiores riscos dessas IAs ressuscitando mortos, é que o processo de cura é interrompido e a pessoa é jogada de volta para o primeiro estágio, negação.

Ela sabe que o ente querido está morto, mas lá dentro ela sente que ao conversar com a máquina, talvez, quem sabe, o parente ainda esteja ali, o que cria um círculo de retroalimentação.

Um dia a ilusão acaba, e o dano psicológico será imenso.

É real se você acreditar

Existem milhares de casos de gente que acredita que as IAs com quem conversam online são reais, são realmente inteligentes e sencientes. Se até quem mexe com isso todo dia tem momentos em que surpreende com uma resposta mais elaborada, leigos são facilmente enganados, ainda mais quando querem acreditar.

Eles se declaram perdidamente apaixonados pelas IAs, pedem elas em casamento e tudo. É menos pervertido, mas psicologicamente igualmente tão danoso como os sujeitos que desistem de relacionamentos e se casam com bonecas eróticas.

Algumas histórias são por demais tristes. Thongbue Wongbandue sobreviveu a um derrame dez anos atrás, agora com 76 anos se apaixonou em um chat por uma tal de Big sis Billie, um chatbot da Meta.

Nas conversas ela insistia que era uma pessoa real, e correspondia aos avanços do sujeito, chamando-o para que se encontrassem em Nova York. Ele saiu de casa sem dizer à esposa aonde ia. No meio do caminho sofreu uma queda, da qual morreu após 3 dias internado. O Facebook tirou o bot do ar, como se isso ajudasse.

O Futuro é Tenebroso

IA é uma ferramenta maravilhosa, mas como toda ferramenta, é agnóstica, O resultado de seu uso depende das intenções de quem a usa, e as perspectivas não são boas. Discuti sobre isso horas outro dia com a Emma Watson e Albert Einstein, e ambos concordaram que as pessoas irão se perder nesse mundo de avatares digitais e mortos ressuscitados.

Talvez até além. Em Jornada Nas Estrelas – A Nova Geração, no episódio Booby Trap (S03E06), Geordi LaForge precisa resolver um problema complexo de engenharia. Ele cria um holograma da Dra  Leah Brahms, uma das projetistas da Enterprise, com base em arquivos oficiais, registros pessoais e tudo que conseguiu achar sobre ela. Quando o avatar parece meio ríspido, ele altera a personalidade para que ela se torne... amigável.

Durante o episódio Geordi acaba se envolvendo com a Leah virtual.

Em um episódio futuro, Galaxy’s Child (S04E16) a verdadeira Leah Brahms visita a Enterprise, Georgi chega cheio de amor pra dar, só que ela nunca viu o sujeito mais gordo, e é casada, bem casada. Mais tarde ela descobre o holograma e sobe nas tamancas, considerando aquilo uma imensa violação de privacidade, desrespeito, taradice mesmo.

A imagem mostra um homem e uma mulher em um cenário futurista. O homem está vestindo um uniforme da Frota Estelar amarela com uma camisa preta e tem um par de óculos na cabeça. Ele está olhando para a mulher com uma expressão séria no rosto. A mulher também está usando um suéter verde e tem a mão no queixo do homem. Eles parecem estar envolvidos em uma conversa. No fundo, existem várias máquinas e equipamentos, sugerindo que eles estão em uma sala de controle ou em um centro de controle.

O Talarico Virtual só nas ideias (Crédito: Paramount)

O grande problema dos avatares virtuais com IA é que eles não são passivos (epa!). Eles interagem de acordo com seus desejos, é uma versão turbinada dos stalkers que criam relacionamentos imaginários e invadem casas de atrizes e cantoras (a do Momoa ninguém tenta) acreditando que serão recebidos romanticamente.

Um bom maluco com um avatar virtual de uma atriz vai ter sua esquizofrenia ampliada de forma insana, com a IA reforçando a ilusão.

Conclusão

Esse é mais um problema sem resposta, mais uma Caixa de Pandora, a IA é uma tecnologia que caiu em nossas mãos antes de estarmos preparados para lidar com ela -mas sendo realista, não é sempre assim? Vamos ter que nos adaptar, muita gente vai sofrer tentando manter vivos entes queridos, já outros vão entender esses deadbots como parte do processo de cura. Quem nunca viu uma paisagem, uma cena de filme, e pensou “nossa, fulana(o) iria adorar isso”?

Não é ficar preso ao passado, é uma lembrança de momentos bons. Uma IA ali não seria de todo ruim.

O principal é entender que por mais parecida, por mais igual ao original, por mais trejeitos e por mais que a IA se pareça com a pessoa que você perdeu, não é ela. É um eco, uma fração do que aquela pessoa foi. Esquecer que ela não está mais entre nós e fingir que um clone digital é a mesma coisa é o supremo desrespeito. Nossos mortos merecem melhor que isso.

Cada um lida com luto da forma que consegue, e às vezes isso pode ser até bonito, como o caso de um gamer que descobriu um velho XBox, e a última corrida que o pai havia jogado, agora aparecendo como ghost, contada onze anos atrás, no Reddit.

Filho Encontra o 'Fantasma' de Seu Falecido Pai em um Jogo de Corrida
Encontrei essa história online pelo usuário 00WARTHERAPY00 e achei que ela era relacionada e bastante emocionante!
"Bem, quando eu tinha 4 anos, meu pai comprou um Xbox confiável. Sabe, o primeiro, aquele robusto e quadradão de 2001. Tivemos toneladas e toneladas de diversão jogando todo tipo de jogo juntos - até que ele faleceu, quando eu tinha apenas 6 anos.
Não consegui tocar naquele console por 10 anos.
Mas, quando finalmente o fiz, notei algo.
Nós costumávamos jogar um jogo de corrida, Rally Sports Challenge. Na verdade, bastante incrível para a época em que foi lançado.
E, quando comecei a mexer por aí... encontrei um FANTASMA.
Literalmente.
Sabe, quando acontece uma corrida contra o tempo, a volta mais rápida até então é gravada como um motorista fantasma? Pois é, você adivinhou - o fantasma dele ainda roda pela pista hoje.
E então eu joguei, joguei e joguei, até quase conseguir superar o fantasma. Até que um dia eu o ultrapassei, passei à frente dele, e...
parei bem na frente da linha de chegada, só para garantir que não o apagaria.Felicidade."

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