Ronaldo Gogoni 9 semanas atrás
A OpenAI pegou todo mundo de surpresa ao anunciar na última terça-feira (24) o desligamento do Sora, sua ferramenta online para criação de vídeos com Inteligência Artificial (IA) que, vale lembrar, nunca teve seus assets liberados para treinamento e execução local pelos usuários.
O espanto geral é justificável: o Sora era, depois do ChatGPT, a ferramenta de IA generativa de maior sucesso da companhia de Sam Altman, com média de 750 mil usuários diários ativos e já tendo atingido picos de 1 milhão/dia, mas esse foi exatamente o problema: segundo o jornal The Wall Street Journal, os custos para mantê-la eram astronômicos, ao ponto de limitarem o crescimento da companhia.

Colagem de exemplos de vídeos criados pelo Sora; clique para ver a versão animada (Crédito: Elena Scotti/The Wall Street Journal/iStock/Sora/OpenAI)
A decisão de desligar o Sora pegou todo mundo de surpresa, até mesmo o alto escalão da Disney, que havia fechado um contrato de US$ 1 bilhão (~R$ 5,24 bilhões, cotação de 30/03/2026) em dezembro de 2025 para usar a tecnologia na criação de vídeos com personagens de seu vasto (mesmo!) portfólio. Segundo informes, os executivos da casa do Mickey ficaram sabendo da mudança de planos da OpenAI apenas uma hora antes do anúncio oficial.
Até então, a Disney se preparava para ser a ponta de lança de um grande movimento em Hollywood, que consistia em licenciar o Sora para estúdios criarem o que quisessem; executivos teriam inclusive controle fino: a companhia de IA não teria direitos de uso de nenhuma das propriedades que usassem sua solução generativa, ela apenas forneceria a infraestrutura e tudo o mais ficaria na mão dos estúdios.
E então Sam Altman puxou o plugue, sem aviso, sem passar vaselina. O app já foi removido da Apple App Store (ele nunca chegou ao Android), as experiências web e mobile serão desligadas em 26 de abril de 2026, e as APIs serão removidas em 24/09/2026; a OpenAI informa que criações poderão ser salvas pelos usuários antes do fim.
A Disney, sem muitas opções, cancelou o investimento bilionário que teria inclusive levado à inclusão de clips criados com o Sora no serviço de assinatura Disney+, algo que irritou muita gente da ala anti-IA internet afora.
We’re saying goodbye to the Sora app. To everyone who created with Sora, shared it, and built community around it: thank you. What you made with Sora mattered, and we know this news is disappointing.
We’ll share more soon, including timelines for the app and API and details on…
— Sora (@soraofficialapp) March 24, 2026
Algumas pessoas especularam que Altman decidiu encerrar o Sora por medo de se complicar com processos de violação de direitos autorais, de companhias que não admitem o uso de suas propriedades de modo que elas não controlem, em que Sony e Nintendo são dois dos exemplos mais notórios, mas a realidade foi bem mais simples e mundana: o serviço não dava lucro, ou melhor, estava gerando prejuízo à OpenAI.
A demanda computacional massiva pelos vídeos gerados pelos usuários estava custando US$ 1 milhão por dia à empresa (~R$ 5,24 milhões), de modo que a conta não estava fechando; requisições de texto do ChatGPT exigem muito menos dos servidores. Como se não bastasse, o interesse dos usuários pelo Sora estava caindo, o período viral havia passado e o público pró-IA já havia se voltado a outras ferramentas.
Dessa forma, todos os possíveis planos envolvendo o Sora, incluindo o que o integraria ao ChatGPT, foram postos no gelo; é possível que a ferramenta volte no futuro, mas não no mesmo modelo e, muito provavelmente, com acesso restrito a clientes pagantes, de preferência os com bolsos (muito) fundos.
A derrocada do Sora não se deu apenas por causa do custo massivo e pouco retorno financeiro; a OpenAI foi alvo do Meta, que lançou ataques de recrutamento para remover talentos da rival, de modo a enfraquecer a companhia de Sam Altman; paralelamente a isso, o comprometimento criado pelo algoritmo de criação de vídeos limitou as capacidades da empresa de expandir em áreas corporativas.
O ano de 2025 viu a Anthropic ganhar espaço em companhias graças às capacidades de criação de código-fonte do Claude, de modo que Altman não conseguia replicar com sua solução própria Codex; o Gemini também ganhou espaço entre o público geral, principalmente pela força do Google e sua capacidade de integrar suas soluções em diversos produtos, de smartphones a tablets, de TVs a geladeiras.
A cúpula da OpenAI teria concluído que o Sora se converteu em um atraso de vida: ele consumia muitos recursos e não dava retorno equivalente, enquanto comprometia as capacidades da empresa de correr atrás dos rivais e melhorar seus outros produtos.

Antes de se enrolar com o governo de Donald Trump, crescimento da Anthropic de Dario Amodei ameaçou a liderança da OpenAI em soluções corporativas (Crédito: Reprodução/Council on Foreign Relations)
A morte do Sora é um sinal de que companhias de IA estão percebendo o óbvio: "trabalhar para pobre é pedir esmola para dois". Fornecer ferramentas para o grande público e liberar modelos para treinamento local em PCs domésticos pode ser interessante, mas o dinheiro hoje se mostra presente em produtos voltados à produtividade, como desenvolvimento de código, seja para grandes companhias ou para governos, incluindo uso militar.
Antes, o foco da OpenAI e concorrentes estava no "olha o que minha IA pode fazer", mas agora está se movendo para "quanto você pode pagar por minha solução?", o que vai levar a um cenário com menos ferramentas experimentais surgindo, já que o foco se moveu para refinar algoritmos e entregar produtos de alto nível para clientes com muito dinheiro.
A morte do Sora é apenas um sinal de que, daqui por diante, companhias de IA vão pensar muito antes de considerar o lançamento de ferramentas voltadas ao grande público, quando podem ganhar muito mais e de forma estável com produtos direcionados para gente grande, em todos os sentidos.
Fonte: The Wall Street Journal