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IA: OpenAI e a necromancia digital

OpenAI está ajustando o Sora 2 para não irritar certas empresas, mas não vê problema no uso de IA para trazer os mortos de volta

35 semanas atrás

Nós já falamos no Meio Bit sobre o uso da Inteligência Artificial (IA) para recriar os mortos, que envolve desde questões éticas e emocionais, mas é importante lembrar que o assunto também envolve direitos autorais, no caso, os direitos de imagem do falecido, controlados ou não por familiares e/ou companhias.

Desde que o deepfake se popularizou e as técnicas de CGi melhoraram, empresas e parentes começaram a explorar a aparência de pessoas públicas quer partiram para o outro lado, em filmes e comerciais. A IA só jogou mais lenha no fogo, e a OpenAI faz questão de segurar o atiçador de lareira chamado Sora 2, a nova versão de seu gerador de vídeos por algoritmos.

Antes que alguém pergunte: sim, foi de propósito (Crédito: Grok/xAI/Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

Antes que alguém pergunte: sim, foi de propósito (Crédito: Grok/xAI/Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

Jabá dos mortos-vivos, agora com IA

A primeira versão do Sora, lançada em 2024, assustou todo mundo com o realismo dos vídeos entregues, e o Sora 2, disponível como app para iPhone e no site oficial, tornou seu antecessor completamente obsoleto. Tão logo ele foi disponibilizado, os usuários correram para usar todo tipo de material de referência na criação de novos vídeos, gerando produções inclusive com personagens protegidos por empresas que ODEIAM ver suas IPs usadas por outros sem serem pagos.

A OpenAI, pela primeira vez em anos, entrou em pânico: o CEO em pessoa, Sam Altman, anunciou mudanças que agora permitem companhias darem opt-in (autorizarem o uso) para que suas propriedades sejam incluídas no banco de dados do Sora 2, e não opt-out (ordenarem a remoção) como é o padrão, obviamente por não querer entrar na mira como a Midjourney, que está sendo processada por Disney, Universal, Dreamworks, e mais recentemente, também pela Warner Bros; a Nintendo não deve demorar muito mais para entrar na festa.

Altman vê os vídeos gerados pelo Sora 2 eram "fanfics interativas", e que eles "agregarão valor" aos controladores das propriedades intelectuais, só que o CEO da OpenAI esqueceu de perguntar aos mesmos o que eles achavam; sem surpresa, ninguém concordou com sua visão.

Enquanto o uso de IPs protegidas é um atoleiro, a OpenAI não vê problema com a geração de peças de vídeo estreladas por celebridades já mortas. Em uma nota enviada ao site PCMag, quando a empresa baniu o uso da aparência de pessoas públicas vivas, um porta-voz disse que a companhia "permite o uso da aparência de 'personalidades históricas'".

E os vídeos se multiplicaram em uma taxa impressionante, os exemplos são inúmeros:

O Sora coloca uma marca d'água móvel em todos os vídeos que gera, para diminuir ao máximo a possibilidade de alguém acreditar que as cenas são reais (o que não tem dado muito certo, afinal, humanos), mas independe disso, existe a ética por usar a imagem de um morto para endossar opiniões contrárias às que expressou em vida (como o comercial da Dior com uma versão digital de Marilyn Monroe, que foi garota-propaganda da concorrente Chanel), ou em situações nas quais ele não se envolveria.

Zelda, filha do ator Robin Williams, tem sido uma das vozes mais constantes no entreveiro atual, sobre recriar a aparência e a voz dos mortos. Ela foi uma das apoiadoras da greve de atores e dubladores de 2023, que deu total controle aos artistas sobre a criação de réplicas digitais, que estúdios queriam usar livremente, lembrando da briga que seu pai teve com a Disney, que queria usar o Gênio de Aladdin, que ele dublou, em peças publicitárias.

Mais recentemente, Zelda Williams pediu, em um story do Instagram já apagado (mas preservado), para que as pessoas parem de mandar para ela criações do Sora 2 com a imagem e voz de seu pai:

"Por favor, parem de me mandar vídeo de IA do meu pai. Não pensem que eu vá ver ou mesmo entender, e eu não quero (...).

Se vocês estão tentando só me provocar, eu já vi coisas piores, então só vou bloquear e seguir minha vida. Só por favor, se vocês tiverem um pingo de decência, parem de fazer isso comigo e com ele, e com qualquer outro. Só parem.

Isso é idiota, um desperdício de tempo e energia, e acreditem em mim, NÃO É o que ele iria querer".

Enquanto vivo, Robin Williams brigou com todo mundo (Disney inclusa) sobre o controle de sua imagem e voz (Crédito: Divulgação/Blue Wolf/Bungalow 78 Productions/Farrell/Minoff/Universal Pictures)

Enquanto vivo, Robin Williams brigou com todo mundo (Disney inclusa) sobre o controle de sua imagem e voz (Crédito: Divulgação/Blue Wolf/Bungalow 78 Productions/Farrell/Minoff/Universal Pictures)

A questão sobre o uso da imagem e voz dos mortos foi jogada no limbo, com a OpenAI não concedendo nenhuma ferramenta de opt-in, ou mesmo opt-out, a herdeiros e controladores de espólios. A empresa simplesmente assumiu que os que já partiram são "domínio público", o que não é exatamente verdade, legalmente falando.

Nos Estados Unidos, pelo menos 24 estados possuem leis que discorrem sobre o uso de imagem de gente morta; a Califórnia, por exemplo, proíbe a aplicação em peças publicitárias com ou sem consentimento dos familiares, mas "usos transformativos" que não impliquem ganhos são protegidos, com base na Primeira Emenda.

Já em Nova Iorque, você não pode criar um vídeo em que a pessoa digital, viva ou morta, seja tão real que confunda o espectador, mas é possível incluir um disclaimer sobre uma criação não autorizada, ou seja, fake.

No Brasil, o direito de imagem é garantido pelo Artigo 5.º, inciso X da Constituição Federal, que não faz distinção se a pessoa está viva ou morta. No segundo caso, são os pais, cônjuges, e/ou herdeiros, os responsáveis do espólio, que devem autorizar seu uso, não importa se envolve dinheiro ou não; quem não respeitar pode receber a visita do Processinho.

Voltando aos EUA, a briga de parentes de personalidades mortas que acabam recriadas por algoritmos, sem que estes sejam consultados ou autorizem o ato, é outro desdobramento da permissividade do governo de Donald Trump, ao defender que big techs (e só elas) sejam autorizadas a coletarem tudo, sem pedir e sem pagar nada a ninguém, porque "a China não faz isso" e de outra forma, não será possível concorrer no mercado de IA com o País do Meio nos mesmos termos.

Enquanto a Casa Branca defende que outros países não regulem, nem punam empresas americanas, o Plano de Ação doméstico não diz nada sobre impedir que processos por parte de content providers, parentes, e controladores de espólios sejam abertos contra OpenAI e cia. O entendimento oficial é de que os tribunais devem decidir cada caso, onde os maiores devem escalar para a Suprema Corte que pode, ou não, estabelecer jurisprudências sobre ações futuras, de preferência, protegendo as big techs.

Fonte: Ars Technica

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