Carlos Cardoso 31 semanas atrás
IA é algo que está na mira de Elon Musk hoje, mas ele nem sempre foi tão otimista quanto a ela. Em verdade, Musk mudou 180 graus sua atitude quando à Inteligência Artificial, saindo de arauto do apocalipse para um profeta da Utopia.

Tinha que ser feito (Crédito: Qwen-Edit 2509 e Stanley Kubrick)
Tudo começou em 2014, quando Musk começou a perceber que as pesquisas de IA estavam, ao contrário do grafeno, finalmente saindo do laboratório, e os Papers eram cada vez mais constantes, ambiciosos e frequentes.
Musk compreendeu, corretamente, que mudanças de proporções geológicas estavam a caminho, mas percebeu também que estavam sendo dados grandes poderes a gente sem nenhuma responsabilidade, como o Google, que ele via como exemplo da Corporação Implacável estilo OCP ou Weyland-Yutani.
Em 2015 ele declarou:
“Eu só acho que a gente tem que ser muito cauteloso com a chegada da IA. Muita gente que eu conheço e que está desenvolvendo IA está convencida demais de que o único desfecho possível é o bom”, disse Musk durante sua apresentação em Paris, no início deste mês, nas conversas sobre clima. “A gente precisa levar em conta cenários potencialmente ruins, ter cuidado de verdade, acompanhar de perto o que está acontecendo e garantir que o público saiba exatamente o que está rolando.”
Também em 2015 ele participou de uma conferência em Porto Rico onde cientistas, engenheiros e industriais debateram, a portas fechadas, os potenciais e riscos da Inteligência Artificial. No mesmo ano, o instituto Future of Life publicou uma carta-aberta com 7000 assinaturas de pesquisadores de IA alertando para os riscos e dilemas éticos da IA e da Superinteligência.
O documento, que alguns chamaram de alarmistas, outros de um alerta, é resumido na frase:
“Sucesso na criação de IA seria o maior evento na história da humanidade. Pode também ser o último.”
Stephen Hawking e Musk também assinaram a carta.
Fundada no final de 2015 por Sam Altman, Elon Musk, Ilya Sutskever, Greg Brockman e outros nomes hoje bem conhecidos no mundo da IA, a empresa nem de longe era a potência atual, com US$ 20 bilhões de faturamento previsto para 2025 e US$ 50 bilhões para 2028.
Faturamento, aliás nem era importante, ela foi criada como uma entidade sem fins lucrativos, Open Source, visando criar um contraponto ao Google e outras EvilCorps™.
Sim, nessa época Musk percebeu que não era possível reverter a Entropia, a IA já havia saído da Boceta de Pandora, e não iria voltar. Em Ciência não é possível desdescobrir algo. Mais ainda: Mesmo que pesquisadores éticos concordassem em não pesquisar IA, outros pesquisadores, de países menos éticos, não teriam esses pruridos, e a Turma do Bem estaria 100% indefesa diante da IA da Turma do Mal.
A OpenAI deveria criar modelos de IA Open Source, com capacidade para competir com os modelos fechados das outras empresas. Caso alguém criasse os Decepticons, a OpenAI teria criado os Autobots. IAs benignas, programadas provavelmente com as Quatro Leis da Robótica de Asimov, e todos os textos de ética filosófica possíveis. O que talvez não seja muito prudente, lembrando do Sideronauta, a sonda alienígena no clássico As Fontes do Paraíso, de Arthur C. Clarke:
Pois nessa época o Sideronauta já era mais do que páreo para qualquer lógico terrestre. Isso se devia em parte à culpa do Departamento de Filosofia da Universidade de Chicago; num ataque de hubris monumental, ele havia transmitido clandestinamente a íntegra da Suma Teológica, com resultados desastrosos.
2069 Junho 02 GMT 19.34. Mensagem 1946, sequência 2.
Sideronauta para a Terra:
"Analisei os argumentos do seu São Tomás de Aquino conforme solicitado na sua mensagem 145 sequência 3 de 02 de junho de 2069 GMT 18.42. A maior parte do conteúdo parece ser ruído aleatório sem sentido e, portanto, desprovido de informação, mas o printout a seguir lista 192 falácias expressas na lógica simbólica da sua referência Matemática 43 de 29 de maio de 2069 GMT 02.51.
Falácia I... (segue um printout de 75 páginas.)"
Como mostram os registros de tempo, o Sideronauta levou pouco menos de uma hora para demolir São Tomás. Embora os filósofos tenham passado as décadas seguintes discutindo a análise, só encontraram dois erros; e mesmo esses poderiam ter sido causados por um mal-entendido de terminologia.
A OpenAI havia se convidado para uma corrida armamentista contra corporações gigantes e estatais chinesas, mas o inimigo maior era interno. Elon Musk percebeu que a empresa precisaria de bilhões de dólares para cumprir seus objetivos, e propôs abandonar o status de organização sem fins lucrativos, o que não era uma má ideia, exceto que Musk sendo Musk, exigiu ser o CEO e ter controle total da empresa, dos projetos, dos financiamentos e até do sabor das rosquinhas da cafeteria.
Sam Altman e outros fundadores não toparam, e após muitas divergências, Musk abandonou a OpenAI em 2018 dizendo que tinham zero chance de sucesso. Ele também entrou na Justiça por “quebra de contrato e abandono de missão”, mas a divulgação de e-mails internos fizeram com que ele abaixasse a bola.
Em março de 2023 Musk decidiu que não precisava da OpenAI, iria fundar sua própria empresa de IA, com Blackjack e prostitutas. Criou então a xAI, com a modesta proposta de “entender a verdadeira natureza do Universo”. Em novembro do mesmo ano a xAI lança o Grok, seu primeiro LLM (Large Language Model, ou Grande Modelo de Linguagem). Meio cru, mas com bastante potencial.
Criticando abertamente a empresa se chamar OpenAI e só disponibilizar produtos em código fechado, Musk promete que os modelos da xAI serão sempre Open Source, como ele fez com os algoritmos do Twitter, hoje X.
Hoje todo mundo está criando robôs, mas sem sombra de dúvida a empresa com protótipos mais avançados é a Boston Dynamics, fundada 33 anos atrás. Elon Musk, não querendo ficar atrás, em 2021 anunciou que a Tesla desenvolveria o Optimus, um robô humanoide de uso geral.
Foi apresentada uma bailarina fazendo uma dança conceitual vestia de roboa. Quatro anos depois, a Tesla anuncia a produção em massa do Optimus, que se não é tão avançado e fluído quanto os robôs da Boston Dynamics, ainda assim avançaram décadas em alguns anos.
Mesmo com toda essa tecnologia, a verdade é cruel: tudo que temos de robôs hoje em dia são marionetes glorificadas, troque os objetos de lugar, e nada funciona. Os robôs da Boston Dynamics são maravilhas tecnológicas resolvendo problemas de direção e equilíbrio de forma algorítmica, mas continuam dependendo de programação para realizar aquelas acrobacias.
Mesmo as demonstrações do Optimus da Tesla, ou são pré-programadas ou usam operadores remotos, o que não impede Elon Musk de sonhar alto. Ele vê um futuro com bilhões de robôs cuidando de todos os campos da indústria e comércio; ele planeja um futuro em que robôs construirão robôs, e ninguém mais terá emprego. Nem precisará. Ele fala de “Renda Máxima Universal”, em uma visão mais otimista que qualquer episódio de Star Trek.
Musk chama o Optimus de “o maior produto de todos os tempos”, que criará “abundância sustentável” e redesenhará a sociedade, eliminando a pobreza, pois com robôs produzindo bens de consumo e alimentos, não haverá mais escassez.
Isso tudo, claro, depende da integração de IAs avançadas, provavelmente no modelo cliente/servidor (roger/roger), com inteligências pelo menos no nível dos LLMs mais avançados controlando os robôs. Só assim teriam utilidade e capacidade de realizar todas essas tarefas.
Muitos discordam dessa visão benevolente, apostam que robôs ficarão sob controle de corporações, serão usados para guerras e opressão, eliminando empregos sem dar nada em troca.
Alguns, mais apavorados, apontam para o risco da superinteligência artificial se voltar contra nós, e nos eliminar sistematicamente, de posse de um exército robótico. Jensen Huang, CEO da Nvidia e nosso japa favorito, já falou que esse papo é “uma novela de ficção científica”.
A Tesla está construindo uma linha de montagem em Freemont, Califórnia, com meta de produzir 1 milhão de robôs por ano. É ambicioso? Sim, o próprio acordo de metas de Musk com a Tesla, que prevê um pacote de bônus de US$ 1 trilhão, tem como parte das metas produzir e vender 1 milhão de robôs em dez anos.
Mesmo que tudo dê errado, e LLMs não consigam ser integrados a robôs, essa quantidade de máquinas existentes será suficiente para mudar o mundo, e eu explico:
Imagine robôs produzidos em massa, com autonomia de locomoção e obedecendo comandos simples. Agora imagine que você é um paramédico, em casa, com a perna quebrada, mas usando um equipamento de realidade virtual que te dá controle a um robô, você consegue entrar em prédios em chamas perigosos demais para arriscar enviar socorristas, pode fazer resgates e mover escombros com força sobre-humana.
Você não precisa respirar, não precisa se preocupar com calor. Seus olhos são câmeras multiespectrais enxergando no escuro e na fumaça. Você pode ter super-audição e filtrar ruídos, realçando vozes humanas.
Policiais não precisam mais se arriscar entrando em casas de suspeitos, mande os robôs tele-operados.
Quando houver robôs o suficiente, você poderá alugar por tempo de uso. Quer um jantar de um chef Cordon Bleu? Alugue um robô, ou use o seu, e contrate o chef para cozinhar remotamente.
A utopia máxima seria um mundo onde robôs controlados por uma superinteligência benigna cuidariam de todas as nossas necessidades, criando uma sociedade hedonista onde todos poderíamos nos dedicar ao aprimoramento pessoal e de toda a Humanidade, como Picard bem falou em Jornada nas Estrelas: Primeiro Contato.
Isso, muito provavelmente, não vai acontecer, mas a IA, mesmo limitada, é inevitável, é um recurso bom demais, útil demais para ser abandonado, e robôs estarão por todo lugar. Toda casa descolada nos EUA tem um robô aspirador. Pombas, até a Positivo tem um robô aspirador. Carros autônomos também já são uma realidade. Mesmo com todas as limitações, eu conseguiria programar um Optimus HOJE para ir na padaria para mim.
O cenário de robôs semi-autônomos irá beneficiar milhões de pessoas que querem, mas não têm condições de trabalhar, e ampliará o alcance de profissões estratégicas. Imagine uma cabine com alimentação solar a cada 5km em uma estrada, contendo um robô tele-operado e equipamento de resgate? Imagine um robô operado por um médico, em um quiosque em cada quarteirão. Ao invés de ficar rodando em uma ambulância, o paramédico atende remotamente, inúmeras vidas serão salvas, mesmo que a IA Generalista nunca seja alcançada.
Em todos esses anos nessa indústria vital, eu nunca vi uma encruzilhada tão importante na História da Humanidade. Há um potencial gigantesco do mundo se tornar irreconhecível nos próximos cinco anos.
Dificilmente será Full Star Trek ou Full Exterminador do Futuro, mas com certeza estamos sob aquela velha maldição chinesa, “Que você viva em tempos interessantes”. Nunca o futuro foi tão incerto. Quem viver, verá.