Carlos Cardoso 1 ano atrás
Robôs não são novidade. Cunhado pelo escritor Karen Čapek, Robô vem de “robota”, palavra checa para trabalho forçado. Adotado imediatamente pela ficção científica, o conceito de homens mecânicos (e orgânicos) se tornou imensamente popular, mas a realidade se mostrou bem mais complicada.

Sim eu sei, é batido... (Crédito: Flux)
Levamos milhões de anos aperfeiçoando nossas habilidades motoras. São 35 músculos, 20 tendões e 20 ramos nervosos em uma única mão humana comum, não presidenciável. Só a engenharia necessária para replicar isso já espanta a maioria dos fabricantes modernos de robôs, que dirá os antigos.
Robôs “de verdade” seguiram caminhos mais práticos e realistas. A rigor, até uma lâmpada com uma célula fotoelétrica acendendo quando a noite cai é um robô. Robôs com utilidades específicas são em verdade bem comuns, um robô genérico é bem mais complicado de construir do que um robô programado apenas para passar a manteiga, por exemplo.

O aspirador-robô é o mais próximo que temos de um robô doméstico funcional (Crédito: iRobot)
Robôs industriais surgiram de máquinas dedicadas, uma área realmente nebulosa. Somente semântica torna uma CNC de 5 eixos diferente de um robô, mas no imaginário popular nem o mais sofisticado robô industrial é um robô de verdade. A ficção científica nos condicionou a imaginar robôs como entidades humanóides, no máximo podem parecer com latas de lixo (sorry, R2).

Roy James Wensley e o Televox. Não exatamente um Cilônio. (Crédito: Reprodução Internet)
Não que robôs humanóides não fossem tentados. Em 1927 Roy James Wensley, da Westinghouse, demonstrou o Televox, um robô capaz de atender o telefone, identificar sons em freqüências específicas, e efetuar ações como ligar o forno, acender luzes ou ativar uma batedeira. O Televox mal dá para ser descrito como robô humanóide, mas por ser o tataravô da Alexa, garantiu se lugar, e por pavimentar o caminho para que, em 1939, na Feira Mundial de Nova Iorque, a Westinghouse surpreendesse o mundo com o Elektro, um robô eletromecânico que andava, falava (uma série de discos de baquelita proviam um vocabulário de 700 palavras) e até... fumava.
Claro, Elektro era apenas um truque, controlado remotamente como os robôs da Disney, mesmo hoje em dia. O caminho para robôs de verdade ainda estava em seu começo.
Por muito tempo, alguns dizem até hoje, a discussão era se robôs humanóides eram sequer uma boa idéia, se não estávamos nos limitando à forma humana, quando podíamos chutar a Evolução de lado e criar robôs bem mais capazes, com tentáculos, talvez.
O melhor argumento a favor de robôs humanoides é que nosso mundo foi feito para humanos. Não vivemos na galáxia de Guerra nas Estrelas, onde todo canto tem uma tomada praquela chave de fenda que o R2D2 usa como interface. Nosso mundo ainda é essencialmente manual, um tentáculo não consegue segurar direito uma chave de fenda. Ou um AK-74.
QUESTÃO DE EQUILÍBRIO
Andar não parece grande coisa, qualquer criança aprende a andar, nós andamos até de costas, mas transferir isso para um robô é extremamente complicado. A forma humana demanda feedback constante de todo tipo de sensores, das estruturas em seu ouvido interno, funcionando como giroscópios e acelerômetros, até os músculos em suas pernas, constantemente regulando a intensidade da contração, para te manter parado, ou em movimento sem que você caia de cara no chão. Transformar essa beleza evolucionária em algoritmos não é nada fácil, por isso a maioria dos robôs usava pernas fixas com rodas disfarçadas.
O ASIMO (sigla para Advanced Step in Innovative Mobility, ou "Passo Avançado em Mobilidade Inovadora") da Honda foi apresentado no ano 2000, resultado de 20 anos de pesquisa e desenvolvimento em robótica avançada, e mesmo assim seu desempenho era... robótico (DSCLP)
Ao menos não tinha tentáculos.
A robótica industrial se tornou uma indústria bilionária, hoje dependemos totalmente da automação, já a robótica de robôs humanóides permaneceu como uma área de pesquisa, restrita a universidades e startups.
A triste realidade é que você só ganha dinheiro quando seu produto vai pra rua. A Boston Dynamics, a empresa mais conhecida da área, foi fundada em 1992, 33 anos atrás. Foi lançar seu primeiro produto, o cachorro-robô Spot, em 2022. Até então sobrevivia (com 1000 funcionários) de verbas governamentais para pesquisas, principalmente da DARPA, Agência de Projetos Avançados do Departamento de Defesa dos EUA, e de dinheiro de investidores. Ela acabou sendo vendida para o Google, depois para o Softbank, e agora é parte da Hyundai.
Eles levaram anos desenvolvendo seus robôs, sua capacidade de movimentação é impressionante. No vídeo mais recente a nova versão do Atlas, agora com atuadores elétricos e usando tecnologia da NVIDIA e captura de movimentos dança break, dá cambalhotas e estrelas que deixam a maioria dos humanos na poeira.
Do outro lado do mundo a China não quer perder o bonde, com várias empresas lançando produtos. A Unitree Robotics tem uma linha de cachorros kibados do Spot, bem mais baratos, não tão sofisticados mas bons o suficiente para serem vendidos. Agora apresentaram seu robô humanóide, com uma agilidade e equilíbrio impressionantes:
Esse side flip aqui é coisa do demônio, clique só!
A também chinesa EngineAI apresentou o SE01, um robô com admirável capacidade de movimento, e que dança melhor do que eu, se bem que até um Dalek dança melhor do que eu.
Na Europa a Apptronik, empresa bancada pela Mercedes, conseguiu um aporte de US$403 milhões para aprimorar seu robô, Apollo.
A Tesla vem correndo atrás, e é inegável a evolução do Optimus, desde um sujeito dançando vestido de robô três anos atrás, até máquinas capazes de se movimentar e executar tarefas, como apresentado no último grande evento da Empresa.
O Optimus ainda está bem atrás de robôs como o Atlas da Boston Dynamics, mas estão correndo atrás. Elon Musk, com seu jeito histriônico de sempre disse que em um ano estarão produzindo robôs em massa, e será a grande mudança em nossa civilização, com robôs em todo canto, levando cachorro pra passear, fazendo janta, indo às compras, ajudando em resgates...
A Tesla pretende construir 5000 robôs em 2025, Elon Musk disse que no final de 2026 uma Starship decolará para Marte levando um robô Optimus, a projeção é criar milhões de robôs, e se a maioria dos CEOs das outras empresas de robótica não compartilham publicamente dessas visões... qual o superlativo de otimista? Bem, secretamente todos sonham em vender robôs para todo mundo.
Há robôs em todos os lugares, eles viraram arroz de festa. No Carnaval 2025 a Mocidade Independente de Padre Miguel, no Rio de Janeiro, usou robôs em sua comissão de frente:
Foram dois cachorros-robôs, genéricos do Spot, um robô humanóide e um robô-marionete gigante, com quatro operadores. Ficou legal, diferente, é bom quando o Carnaval usa tecnologia, todo mundo lembra até hoje do Carnaval 2001, quando a Acadêmicos do Grande Rio botou um sujeito com uma mochila a jato no desfile:
A impressão é que teremos robôs para todo lado, como num filme de ficção científica dos Anos 60, mas há um problema, um segredo que todas essas empresas não contam, e foi revelado pela Mocidade: São todos marionetes.
Os mais sofisticados robôs desses vídeos são marionetes, com maior ou menor autonomia. O Spot consegue ir do ponto A ao ponto B, e verificar se há movimentação de pessoas, por exemplo, mas ele não consegue entender uma ordem como “Vá ao Ponto C e se achar o Dr Gaius, siga as instruções dele”.
A mobilidade excelente da última versão do Atlas da Boston Dynamics vem de captura de movimento, o robô recebe dados gerados por humanos fazendo a movimentação, que depois são extrapolados e adaptados. Aquelas demonstrações de Parkour? Se você tirar uma caixa do lugar, ele cai, os fios são cortados, Pinóquio não funciona mais.
Sim, eu sei, levamos uns 100 anos para chegar no estágio atual onde o hardware do robô humanóide é um problema basicamente resolvido, mas mesmo assim, essa é a parte fácil.
Isaac Asimov é o Santo Padroeiro da Robótica, tendo definido como robôs funcionariam no futuro, e suas Três Leis da Robótica são emblemáticas:
Na prática, elas são inúteis. Um pesquisador certa vez falou que elas só fariam sentido quando um robô fosse capaz de diferenciar um Homem de uma pedra. A quantidade de raciocínio necessário para interpretar corretamente essas Leis está fora do alcance dos robôs atuais.
Navegar no mundo dos humanos é complicado. Nós não percebemos, mas tomamos milhares de decisões inconscientes todos os dias. Decisões que dependem de iniciativa e adaptabilidade. Nenhum robô do Universo, mesmo bancado pela IA mais avançada atual consegue pegar um 326 Castelo-Bancários, ir até o Centro, comprar um HD de 8TB e voltar, sem instruções específicas e detalhadas.
Esse tipo de adaptabilidade exige a chamada AGI – Sigla em inglês para Inteligência Artificial Geral, algo que apesar do hype da OpenAI e outras empresas, ainda está bem longe de ser concretizado. A triste realidade é que não fazemos a menor idéia de como nossos cérebros funcionam, o que é Inteligência e como transportar isso para modelos de IA, Heurísticos ou Algorítmicos.
A ironia é que sabemos exatamente como essas IAs devem se comportar; são os robôs da ficção científica, os robôs de nossa infância. R2D2, HAL9000, C3PO, Robbie, Optimus Prime, Gort, T-800, Data, Marvin, Bender, Wall-E, Johnny 5, Astro Boy, Megatron, Rosie, K-9, Iron Giant, Ultron.
Esses robôs possuem autonomia, inteligência e senciência, a habilidade de se reconhecer como indivíduo. Hoje o ChatGPT “finge” saber que é uma IA, mas ele não tem realmente essa capacidade, até porque é uma entidade efêmera. Ele não está “pensando” o tempo todo, só “existe” quando executa um prompt, mesmo sua memória é igualmente transitória e limitada.
Uma IA, mesmo avançada, logo se revela limitada, quando a conversa se alonga. Adicione a isso dados de sensores visuais, auditivos, táteis e outros, e você está sobrecarregando o sistema, dando mais oportunidade para alucinações.
A impressão que este artigo passa é que não teremos robôs, que é tudo vaporware e marketing. Não necessariamente.
Óbvio que várias empresas irão falir, outras não entregarão produtos tão complexos quanto seus demos, mas os robôs chegarão, assim que o hyper da AGI passar. Em algum momento as empresas perceberão que não vão entregar um Tenente-Comandante Data, e entenderão que mesmo robôs mais limitados podem ser úteis.
Mesmo as IAs atuais são boas o suficiente para exercer atividades como a de uma recepcionista, nada impede que robôs sejam adaptados para funcionar como a Roberta, a recepcionista-robô do Quarteto Fantástico.
Robôs funcionam bem em linhas de montagem, robôs mais inteligentes podem substituir humanos em linhas que exigem destreza manual e reconhecimento de padrões.
Provavelmente não teremos robôs cozinheiros tão cedo, já robôs que descarreguem caminhões e organizem a dispensa, isso está bem ao alcance da tecnologia.
O Neo Beta é o robô mais fake de todos, para mostrar que existem empresas puramente picaretas. Em toda a história da Humanidade nunca um sujeito fantasiado de robô pareceu mais um sujeito fantasiado de robô. Nem o da Tesla, que era assumidademente um sujeito fantasiado de robô chegou perto.
Robôs farão segurança de instalações, com o efeito psicológico de que um robô humanóide é bem mais imponente do que um cachorro-robô, e agir como uma câmera que anda ainda é mais barato do que contratar vários sujeitos para o serviço.
Serviços mecânicos são ideais para robôs, onde há pouca variação. Uma oficina se beneficiaria muito de um robô para troca de óleo, polimento, ajuste de suspensão.
Em tempos de paz militares são notoriamente lentos em adotar novas tecnologias, ninguém vai colocar armas nas mãos de robôs e mandar pra linha de frente. Ainda há variáveis ocultas demais. O que teremos é robôs com alguma autonomia, em geral na forma de veículos. Mesmo drones não são autônomos, diferenciar entre tropas amigas e inimigas é complicado até para humanos.
Robôs serão usados principalmente para tarefas de reconhecimento, e as forças policiais abraçarão alegremente essa utilidade, com robocop-lite entrando em ambientes perigosos, agindo como terminais de telepresença para negociadores, e provavelmente também funcionarão como avatares para o Esquadrão de Bombas.
Todos queremos robôs como os da ficção científica. Alguns querem até mesmo catgirls, promessa de Elon Musk que será cobrada, diga-se de passagem.

Promessa é dívida, Mrs Musk (Crédito: Twitter)
A Realidade nos trará robôs menos incríveis, mas extremamente úteis ainda assim, e se vale uma dica, todo motoboy deveria começar um curso de manutenção de robôs.