Ronaldo Gogoni 07/05/2026 às 10:00
Já virou lugar-comum culpar soluções generativas de Inteligência Artificial (IA), as companhias responsáveis pelos algoritmos e seus usuários e defensores por todos os males da humanidade, e agora surgiu mais uma mazela para colocar no cesto: a de que chatbots em geral estão nos deixando mais burros. Mas será mesmo?
Um estudo ainda não revisado sugere que a dependência em algoritmos, mesmo que por apenas alguns minutos, já causa danos na capacidade de pensar e resolver problemas por conta própria, o que foi suficiente para os ludistas de plantão erguerem suas tochas e ancinhos, mas de novo e como sempre, nada é tão simples assim.

IA ter respostas certas não é desculpa para humanos serem preguiçosos, mas o cidadão médio não pensa assim; ou melhor, não pensa at all (Crédito: Don Lindsay/The West Australian)
O estudo (cuidado, PDF) publicado em caráter preliminar foi conduzido por pesquisadores das universidades de Oxford (Reino Unido), Carnegie Mellon, da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e do MIT (Estados Unidos). Os testes instruíram voluntários a resolver vários problemas, como frações simples e interpretar textos, através de uma plataforma online e com direito a remuneração por sua cooperação.
Foram conduzidos três experimentos, cada um reunindo algumas centenas de pessoas, divididas em dois grupos: um deles, o de controle, foi instruído a resolver os problemas sem auxílio, enquanto o outro teve acesso a um chatbot de IA, capaz de inclusive fazer tudo sozinho. Durante os testes, a IA era removida dos participantes com acesso a ela, e esses passavam então a ter sérias dificuldades; alguns erravam tudo, enquanto outros simplesmente desistiam da tarefa.
Os cientistas sugerem que a disseminação generalizada de soluções generativas, sejam como chatbots ou ferramentas para os mais diversos fins, de geração de código-fonte à criação de arte (desenho, vídeo, assets para games e softwares, etc.), escrever textos (e resumir notícias) e mais, tem um efeito obviamente positivo no ganho de produtividade e redução de mão de obra especializada (no que empresas mais que rápido passaram a demitir "redundâncias"), mas ao custo de nossas habilidades de resolução de problemas.
Em resumo, confiar cada vez mais na IA levaria a um cenário em que os humanos, tipicamente indolentes e preguiçosos, se tornariam cada vez mais e mais burros. Pense em Planeta dos Macacos, mas com robôs em vez de símios.

Ou algo assim, mas com uma IA no lugar do capitão Kirk (Crédito: Reprodução/Norway Productions/Paramount)
"Eu sabia, IA é o Mal encarnado, está destruindo o planeta, bebendo toda a água e gastando toda a energia (SQN), e agora está nos deixando burros, fora com a IA!"
Calma, gafanhoto, não é bem assim, e o próprio estudo aponta isso.
O Dr. Michiel Bakker, professor-assistente do MIT e um dos coautores, diz que "nós não deveríamos banir a IA das escolas ou dos escritórios", ao reconhecer que algoritmos generativos são ferramentas de produtividade e aprendizado valiosas. O problema reside não em usar ou não, mas em COMO usar, quais tipos de ajuda solicitar, se a qualidade dos resultados é sólida (o que demanda verificação e um pouco de boa vontade do usuário), e por aí vai.
Bakker, que é natural dos Países Baixos (ou Holanda; sim, é complicado) e já trabalhou no Google DeepMind em Londres, se baseou em outro estudo que aponta para uma característica incômoda da dependência do uso da IA, sua capacidade de anular o sentimento de persistência, aquilo que nos impulsionou ao longo de milênios e nos permitiu sair de cavernas e chegar à Lua. Ela nos permite refinar nossas habilidades e desenvolver outras, mas se a IA entrega tudo mastigado, que sentido há em aprender?
O pesquisador do MIT diz que modelos precisam ser pensados para estimular o aprendizado, em vez de entregar tudo pronto, e que "sistemas que fornecem respostas diretas podem causar efeitos de longa duração diferentes dos de sistemas que criam estruturas, treinam e desafiam o usuário", enquanto admite que equilibrar tais características pode ser complicado e muito provavelmente implicaria em mais custos, algo que desencorajaria OpenAI, Anthropic, Google, Meta, Microsoft e cia. a investirem nisso.
Claro, problemas gritantes como alucinação, causada por LLMs devorando fontes ruins, o que inclui conteúdos criados por elas próprias (o que vai se tornar cada vez mais comum daqui para a frente), estão sendo acompanhados de perto pelas companhias, por ser um bug que pode prejudicar a viabilidade de um algoritmo e, como consequência, causar prejuízos financeiros.
Qual a solução? Primeiro, aceitar que IA é uma ferramenta, não o Santo Graal. Preguiçosos vão jogar todo o peso nas costas dos algoritmos, seja uma pesquisa escolar ou um projeto acadêmico, mas quando exigidos a se virarem por conta própria, nenhuma LLM fará o trabalho por eles, mas no lugar deles que, como consequência, ficarão sem emprego.
Quem aprender a usar a IA para somar às suas habilidades, para se aprimorar e evoluir seguirá em frente, enquanto o acomodado não terá futuro; como Dario Amodei, CEO da Anthropic disse, nenhuma nação do mundo vai implementar renda mínima universal para sustentar quem não produz nada.
LIU, G., CHRISTIAN, B., DUMBALSKA, T. et al. AI Assistance Reduces Persistence and Hurts Independent Performance. arXiv (Cornell University), 29 páginas, 6 de abril de 2026.
DOI: 10.48550/arXiv.2604.04721
Fonte: WIRED